Duas imagens inundaram as nossas vidas nessa última semana. Uma que revoltou aqueles que têm consciência de que a irresponsabilidade humana pode levar à morte milhares de pessoas, como foi o caso da falta de oxigênio no Estado do Amazonas, que, por grande ironia, no coração do pulmão do mundo, foi palco onde dezenas de pessoas que morreram desesperadas por falta de oxigênio. A outra imagem, que encheu de esperança um povo que está sofrido e à deriva, trata-se da iniciação da vacinação no Brasil, após aprovação da Anvisa, à despeito de tantos desencontros deliberados, declarações turvas e atitudes negacionistas.
As duas imagens ao mesmo tempo que se contrapõem, se complementam, quando funcionam como um recado à um destinatário certo, com a mensagem de que não há nada que possa conter a força que emerge da dignidade da pessoa humana.
Quando se atravessa uma crise humanitária do tamanho da que estamos vivendo, espera-se que as autoridades primeiras de uma nação deixem de lado todas as diferenças e jogos de poder, e deem prioridade à vida humana e à saúde de todas as pessoas. Todos os esforços econômicos e políticos precisam estar a serviço da área médica científica, que no caso em questão é quem tem possibilidade de apresentar as respostas e praticar as entregas que a sociedade almeja ter para vencer essa travessia que vai deixando pelo caminho mais de 200 mil pessoas mortas no país.
Enfrentar uma pandemia já é por si só um desafio. Fazer isso com um competente desgoverno é surreal. Contudo, algumas estruturas, mesmo que sob a ameaça de destruição e tentativas de desidratação institucional, têm resistido e cumprido seu papel, como é o caso das universidades e do Sistema Único de Saúde.
Fazendo frente a todos os tipos de arroubo e ofensa, os profissionais do serviço público têm encarado o sistema que optou pela necropolítica, ofertando, como contrapartida, mililitros de vida e futuro. A crise sanitária e pandêmica desafiou os pseudos-messias de plantão que restaram substituídos pelos cientistas e reais detentores e protagonistas do saber técnico, que salvam e que consolidam o saber em prol da vida plena.
A situação atual tem colocado em testagem a resistência de mulheres e homens de um Brasil que vem encarando todo o tipo de dificuldade, inclusive de sobrevivência, e que a cada dia é agudizada pela não providência do governo federal que insiste em não adotar uma postura republicana e de política madura, em detrimento de posições mesquinhas, domésticas, arbitrárias e genocidas. Oxalá essa população, que precisa entoar o canto de que “apesar de você amanhã há de ser outro dia”, seja capaz de cobrar, no momento certo, e com juros, o grito contido e o samba no escuro.