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Venezuela

Devemos ser demasiadamente latinos neste momento

A Venezuela faz fronteira direta com o Brasil, pelo Estado da Roraima, via estratégica para área amazônica, de relevância planetária e lugar de conservação da Terra

Publicado em 12 de Janeiro de 2026 às 03:15

Públicado em 

12 jan 2026 às 03:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

As relações entre os Estados Unidos e a Venezuela têm sido marcadas por tensões políticas, econômicas e diplomáticas, especialmente nas últimas décadas. O governo norte-americano, sob diferentes administrações, impôs diversas sanções econômicas à Venezuela, alegando violações de direitos humanos, corrupção e a falta de democracia no país.
Essas ações, frequentemente interpretadas pelo governo venezuelano como formas de agressão ou ataque indireto, resultaram em graves impactos sociais e econômicos para a população venezuelana.
As violações relacionadas a esse contexto abrangem desde a interferência na soberania nacional da Venezuela até denúncias de restrições ao acesso a bens essenciais devido às sanções. Organizações internacionais e especialistas em direitos humanos destacam que tais sanções podem exacerbar crises humanitárias, afetando principalmente os grupos mais vulneráveis.
Além disso, acusações de violações dos direitos civis e políticos também são levantadas contra o próprio governo venezuelano, criando um cenário complexo de múltiplas violações e responsabilizações.
Venezuela possui a maior reserva provada de petróleo do mundo, com 204 bilhões de barris; é uma potência em reserva de gás natural, sendo a 7ª do mundo e a maior da América Latina; possui uma estratégica riqueza mineral, sendo o líder latino-americano em reservas de ouro, com 161 toneladas; detém uma das maiores reservas de água doce por habitante do planeta e tem 53 milhões de hectares férteis para agricultura.
Essa condição da Venezuela a coloca em disputa e alvo de pressões, sanções e ataques no cenário internacional. Contudo, além dessa riqueza toda, o país possui soberania, que deve ser respeitada, considerando que se trata do valor internacional mais valioso.
É muito conivente praticar ações irresponsáveis, análogas a golpes de estado, em um país que possui a maior reserva de petróleo do mundo, com a justificativa de lutar pela democracia e implantar a paz mundial, considerando que, este mesmo país, lucrou 679 milhões de dólares com guerras ao redor do mundo.
Devemos ser demasiadamente latinos e não apoiar e celebrar um país que acha que o mundo é extensão do seu quintal. Devemos nos preocupar com a Venezuela, pois, de prima facie, precisamos respeitar o princípio da soberania, que consiste no princípio fundante, em que nenhum país tem poder sobre outro, de modo que cada um é soberano em seu território, e somente nele.
Além disso, precisamos preservar o princípio da alteridade, que mantém vínculo intrínseco com o princípio da soberania, muito importante à antropologia, que dispõe que não existe cultura melhor ou pior, mas diferentes, e nessa diferença habita a riqueza da humanidade.
Igualmente importante, antes de sair bradando besteira pelos quatro cantos, estudar história e geopolítica, para saber que os EUA têm histórico de desrespeito por esses dois princípios e, pior, violam tratados, convenções e acordos internacionais. E são mestres em cobrar responsabilidade dos outros quando lhe é conveniente. Propagam que “a América é para os americanos”, mas esquecem que América Latina também é América, e não quintal deles.
O tempo de colônia já passou e não somos mais laboratório do neoliberalismo. Também não podemos esquecer, pelo menos quem estudou sabe, que a ditadura militar de 1964 teve a contribuição dos EUA, de acordo com documentos da CIA.
U.S. President Donald Trump attends a press conference with Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu
Donald Trump Crédito: Jonathan Ernst/Reuters
Então, como brasileiros, precisamos olhar para o mapa do Brasil e reler a história a contrapelo. A Venezuela faz fronteira direta com o Brasil, pelo Estado da Roraima, via estratégica para área amazônica, de relevância planetária e lugar de conservação da Terra.
A invasão norte-americana na Venezuela não foi motivada por preocupação com a democracia ou por heroísmo liberal, ressaltando que ninguém concorda ou apoia o autoritarismo de Nicolás Maduro, mas sim pelo petróleo, pelo lugar estratégico, pela tentativa em conter a expansão chinesa do ponto de vista econômico e pela Rússia, no que concerne à questão militar. 
Enfim, o império Yankee não traz rumores de paz, mas implanta a miséria e a devastação, o que é sua especialidade, por meio do velho colonialismo. Atinge a Venezuela, atinge o Brasil, atinge o mundo inteiro como se fosse um grande tabuleiro de War. A grande diferença é que não se trata de um jogo jogado pelas famílias nas férias, mas do mundo real em que vidas humanas estão ameaçadas.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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