A estrutura do machismo e as raízes do racismo são algo que mulheres negras têm que enfrentar todos os dias, de forma sutil e em outros momentos de maneira agressiva e virulenta.
Quando uma mulher negra e periférica chega aos espaços de poder e às mesas de decisão, após ter percorrido caminhos pavimentados por muitas lágrimas e dor, incomoda demais. Logo de pronto, racistas e misóginos disparam suas metralhadoras, não se preocupando com os estragos que produzem. Além de atingir as vítimas, que são eleitas pela cor da pele e gênero, ferem de morte os princípios de uma sociedade democrática, que se encontram pousados em pilares inegociáveis, como os da dignidade da pessoa humana.
Uma das estratégias é dificultar ao máximo o acesso de mulheres aos espaços de decisão e poder, seja público ou privado. Todas as justificativas, em muitos dos casos cínicas, são encobertas sob o manto da proteção da mulher enquanto “sexo frágil”, acabam encontrando recepção no meio social e, lamentavelmente, por algumas mulheres. Essa é uma das características e consequências do machismo e racismo, que são estruturais.
Quando não alcançam êxito nesse propósito, ou seja, impedir que uma mulher negra ocupe um lugar que era reservado para o homem branco, e resta inevitável a ocupação por aquelas que experimentaram a dificuldade extrema de uma vida árida, eles partem para os ataques vis e ilimitados, confiantes na impunidade.
Caracterizada está a violência política de gênero quando há a ocorrência de ameaçar por todos os meios, interromper durante pronunciamentos em ambientes públicos e privados, desacreditar ou relativizar suas intervenções, expor sua intimidade em espaços públicos, desqualificar ou diminuir as ações, não indicar para comissões chaves de decisão, excluir de debates, apresentar questionamentos sobre aparência ou vestimenta e questionar acerca da sexualidade ou maternidade.
A estrutura machista, misógina e racista brasileira não recepciona o avanço da ocupação dos espaços de poder e mesas de decisão por mulheres, principalmente, as negras e periféricas. Como reação desesperada utilizam-se de ações criminosas, como chamar de “cadela”, “vira-lata” ou mandar calar a boca, representando todo um modo de pensar de um significativo segmento social que permanece no passado e insiste em não reconhecer os direitos humanos e fundamentais das mulheres no que tange a ocupação igualitária de espaços públicos.
O fenômeno da violência política de gênero e racial no Brasil é histórico, compondo a estrutura e repertório social. Quando se consolida a ocupação de espaços institucionais por corpos que historicamente foram marginalizados e se propicia a ampliação na noção de poder, local de fala e capital político, a reação daqueles que sempre tiveram o protagonismo social e político é inevitável. Em alguns casos, culminam com a eliminação, literalmente, da pessoa, como foi o caso de Marielle Franco.
Resistência cruel à inserção de corpos femininos e negros em espaços de poder caracteriza a perpetuação da violência com o objetivo de calar, impor, ameaçar e interromper uma mudança que não há como conter.
Confrontar a violência política institucionalizada é urgente e fundamental, caso contrário essa prática restará naturalizada, constituindo-se como uma das formas de agudização das desigualdades entre mulheres e homens na arena política, que pode soar como uma autorização para sua ocorrência.
É importante que nos momentos em que ocorra a violência política de gênero e racista, todas a mulheres sejam Marielles, Kamalas, Tarílias, Camilas e Jacquelines. Pois se acontece com elas, pode acontecer com qualquer uma.