O que era um refúgio de isolamento voluntário transformou-se em um cenário de crime. O Sítio Pequeira, localizado na região de Meaípe, em Guarapari, guarda não só os
rastros do assassinato de Dante Brito Michelini, praticado com extrema violência, mas de anos de abandono.
No último dia 13, nossa equipe foi ao local, acompanhada pelos policiais civis da DHPP de Guarapari, liderada pelo delegado Franco Malini, e também com o delegado Fabrício Dutra, chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP).
A propriedade, de mais de 50 mil m², é cercada por uma vegetação densa que avançou sobre as estradas internas, onde o mato alto dificulta o acesso. Há galpões fechados, quartos entulhados de objetos pessoais e documentos espalhados. Parte da estrutura da casa ruiu com o incêndio que sucedeu o assassinato.
O delegado Franco Malini conta que precisou usar um facão para reduzir o mato e ter acesso à casa principal.
Aos policiais, os caseiros relataram que Dante não autorizava a limpeza da residência ou corte do mato, permitindo somente uma trilha por onde passava com sua moto.
Cheiro semelhante exalava da piscina, um dos símbolos da decadência da propriedade. A desconfiança inicial era de que a cabeça de Dante tinha sido abandonada no espaço, afogada no acúmulo de água parada, limo e restos de peixes mortos.
Ela chegou a ser esvaziada, mas descobriram que o que parecia ser o crânio era o caso de duas tartarugas.
Dante vivia uma rotina de pouco convívio social. Há relatos que saía de casa com máscara e boné para não ser reconhecido por um suposto envolvimento no sequestro e morte de Araceli Cabrera Crespo, ocorrido há 50 anos.
Lançou mão de porteiras, cadeados, câmeras de monitoramento e sensores de presença para evitar que o sítio onde vivia fosse utilizado como atalho.
Mas nada disto conseguiu impedir o retorno de um invasor, que burlou a tecnologia e flagrou a vítima em sua varanda.
Foi preso cerca de oito dias após o crime, ao ser flagrado em uma tentativa de roubo. Contra ele havia um mandado da Justiça da Bahia por descumprimento de medida protetiva. Semanas depois confessou o assassinato de Dante.
A polícia avalia que o isolamento do sítio impediu que o cheiro do corpo em decomposição chamasse a atenção dos vizinhos. A fumaça do incêndio pode não ter sido vista em função das chuvas locais. Quem descobriu o crime foram os caseiros.
As imagens das câmeras não foram recuperadas. O fogo consumiu os computadores onde os registros eram armazenados. E avançou implacável sobre o piano, louças, roupas, móveis, motocicletas e objetos guardados, transformando em cinzas parte do acervo da família.
Os advogados Ricardo Gilbert Côco e Yara Karlla Rodrigues Januth, que representam o autor confesso do crime, discordam das conclusões da Polícia Civil.