Na mira da investigação havia desde brigas familiares por herança, possível vingança por um crime antigo, conflitos com vizinhos e até latrocínio.
O que mudou o cenário foi a análise do histórico de ocorrências na zona rural de Meaípe, em Guarapari, onde a vítima vivia em um sítio. Ela permitiu a redução do número de suspeitos de terem cometido o crime, praticado com requintes de crueldade.
Um trabalho, segundo o chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), delegado Fabrício Dutra, que contou com o apoio de dois investigadores do serviço de inteligência e planejamento operacional do seu departamento, setor denominado Siplan, com mais de 20 anos de experiência na apuração de homicídios.
“Com o apoio da equipe da DHPP de Guarapari, eles identificaram a frequência de alguns crimes de furtos na região onde está localizado o sítio onde a vítima vivia. E conseguiram reduzir para quatro suspeitos, um deles já estava no sistema prisional”, relata.
A pessoa detida tinha fugido da Bahia, onde havia contra ele um mandado de prisão por descumprimento de medida protetiva. Chegou a ser apontado como desaparecido por sua família, que divulgou fotos e seu nome em cartazes nas redes sociais. Trata-se de Willian Santos Manzoli, de 28 anos.
A análise feita pelos investigadores o identificou como uma pessoa que em suas ações criminosas utilizava armas brancas (como facas) ou objetos contundentes para ferir vítimas. E havia registros da atuação dele na região de Meaípe.
18 de janeiro - houve um roubo/tentativa de latrocínio na Praia dos Padres. Um homem com as características de Willian teria roubado dois celulares e esfaqueado a vítima na mão esquerda quando se recusou a entregar o dinheiro
19 de janeiro - invasão e ameaça a partir de uma denúncia de que uma pessoa semelhante ao suspeito teria tentado invadir uma residência em Meaípe. Havia informações de que populares já o identificavam como o autor do esfaqueamento do dia anterior
27 de janeiro - Willian foi preso ao ser abordado por policiais militares em Meaípe após denúncia de invasão. Foi constatado que contra ele havia um mandado de prisão da Bahia
Na terça-feira (10) as equipes decidiram ouvir Willian, detido no Centro de Detenção Provisória de Guarapari (CDPG).
“Foram quase nove horas de depoimento. Começamos por volta das 12h30 e lá pelas 21h ele confessou o crime e se dispôs a mostrar o local onde havia descartado a cabeça da vítima”, relata o delegado Franco Malini, chefe da Divisão Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa de Guarapari.
Na mesma noite, o delegado e sua equipe retornaram ao sítio, mas a falta de iluminação impediu o trabalho, que foi retomado na manhã desta quarta-feira (11). No mesmo dia também foi obtido um mandado de prisão temporária contra o apontado como autor do crime.
Na conversa com os policiais, aos poucos Willian foi revelando detalhes da dinâmica do crime, de que forma entrou e saiu do sítio, como matou a vítima e onde havia descartado a cabeça decepada.
“A cada relato que fazia era possível confirmar que estava falando com conhecimento. Deu detalhes sobre a casa que só quem esteve no local sabia. Apontou o local exato do descarte da cabeça, entre outros pontos”, acrescentou Malini.
No sítio, disse ter golpeado a vítima que, inconsciente, foi alvo de uma “agressão sexual” com o uso de um equipamento agrícola manual. Situação que não pode ser confirmada pela Polícia Científica em decorrência do estado em que o corpo foi encontrado, já em decomposição. Contou ainda que tentou retirar parte do órgão sexual de Dante, com as mãos, mas não conseguiu.
Para a decapitação, que foi a causa da morte, foi usado um tipo de canivete com soco inglês para perfurar a região do pescoço e, na sequência, cortar a cabeça. As armas que usou estavam na casa, assim como o isqueiro que lançou mão para incendiar a casa.
Havia entrado pelos fundos da propriedade, onde cortou uma cerca. Mas saiu pela porta da frente, com uma sacola na mão onde transportava a cabeça. Era noite. Na rua conseguiu uma bicicleta em troca de maconha e com ela foi até o canal de Guarapari, onde arremessou a sacola na água. Porém, precisou repetir o processo porque ela boiou.
“Quando ele fez o relato, parecia pouco provável o que contava, mas quando foi localizada pelos bombeiros, a cabeça estava como ele descreveu: com um arame amarrado a uma lajota, artifício para evitar que boiasse”, relata o delegado Malini.
No dia seguinte ao crime ele retornou ao sítio. Sentou ao lado do corpo, fumou maconha e conversou com a vítima. Estima-se que o crime possa ter sido cometido entre os dias 19 e 20 de janeiro.
E jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi reporter nas editorias de Politica, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como reporter especial com foco em materias investigativas em diversas areas.