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Religião

A voz do conservadorismo contra a Campanha da Fraternidade

Tema deste ano propõe “fraternidade e diálogo” e aponta que relações de classe, gênero, raça e etnia estão interligadas. Isso levantou críticas de quem ainda está mais enraizado no tradicionalismo do que no evangelho

Publicado em 11 de Fevereiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 fev 2021 às 02:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

viniciusfigueira18@gmail.com

Vista da Praça de São Pedro, no Vaticano, nesta quarta-feira, 01, dia da   tradicional  audiência geral semanal celebrada por Papa Francisco.    01/04/2020 - Foto: ANDREW MEDICHINI/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Vista da Praça de São Pedro, no Vaticano Crédito: Andrew Medichini/ AP/ Estadão Conteúdo
O título do artigo desta quinta-feira (11) vai ao encontro da polêmica ao redor de um vídeo veiculado pelas mídias sociais, originário do Centro Dom Bosco (RJ), em que um “fulano” por 26 minutos debate, questiona e aponta com preconceitos alguns objetivos que tecem a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é “diálogo e fraternidade”. Ao que parece, o “fulano” não digeriu a proposta da campanha, razão que o levou a colocar para fora as indigestões e, ainda assim, regou entre os católicos a divisão.
Por alguns lados, começaram a sair iniciativas de boicotes à campanha, negacionismo e por aí vai. Na mesma hora, os salesianos, discípulos de Dom Bosco, disseram que o vídeo carregado de preconceitos não representava a Igreja e nem os salesianos. Depois vieram bispos e cardeais reforçando e lançando luz às falas desgovernadas do jovem. Mas por que a Campanha da Fraternidade deste ano incomodou tanto aos grupos dos conservadores da Igreja? O que ela tem de errado? O que está por trás dessa onda de interrogações à CNBB? É sobre isso que vamos conversar agora.
Bom, o tema da Campanha da Fraternidade deste ano propõe, em harmonia com as Igrejas Cristãs (CONIC), a “Fraternidade e diálogo” e o lema “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade”. A propósito, o teor versa sobre o ecumenismo e introduz a todos a conversa com as diferenças do tempo presente. Mas a polêmica, encharcada de preconceitos, ganhou “relevância” a partir dos conservadores.
O texto base afirma em um de seus trechos que “é importante salientar que as relações sociais de classe, de gênero, de raça, de etnia estão historicamente interligadas”. Em seguida, afirma que um “grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos é a população LGBTQI+”, e cita dados do ‘Grupo Gay da Bahia’ apresentados no Atlas da Violência 2020 para falar sobre a violência contra essas pessoas.
Qual o “erro do texto”? A priori, a Igreja, sob o cajado de Francisco, vem se aproximando cada vez mais dos temas reais e vigentes. E isso tem sido causa de repugno e de alergia para alguns que ainda estão mais enraizados na doutrina, no tradicionalismo, do que no evangelho. A afeição desses grupos a um estilo de Igreja “de costas” para o povo, para as realidades, para o presente da história, revela um perfil desconfigurado da sociedade, dos costumes e da realidade. Nem a Igreja, nem tampouco a Campanha da Fraternidade têm o papel de juízo, mas de diálogo. O problema é que, para alguns, conversar, dialogar, representa uma anulação de crenças, magistério e tradições.
Por fim, então, o que está por trás desses pontos de interrogações, sentenças e afins? Está aquilo que nós mais estamos vendo nos tempos presentes, e não foi à toa que a Campanha da Fraternidade toca nesse ponto: a polarização, a ideologia famigerada e o cancelamento do outro que pensa diferente, que se comporta diferente. Sim, a polarização é um vírus bem pior do que o coronavírus, pois ela nos isola nas nossas bolhas, nos segrega, divide, e gera aquilo que chamamos de sociedade fragmentada. De um lado, os mais católicos, os mais cristãos, os mais perfeitos, e do outro os menos, os incoerentes, os escandalosos e por aí vai.
A polêmica da Campanha da Fraternidade foi, nada mais, nada menos, do que um curto circuito. Contudo, muitos só despertam com um choque, choque de realidade, choque que é fruto de correntes de energias diferentes, que nos levam a arregalar os olhos e sentir por um tempo os efeitos do embate. Se não tocar na ferida, ela aumenta e, às vezes, até mata. A Campanha da Fraternidade deste ano precisa gerar polêmica. Se ela não gerar, não produziu os efeitos iniciais de conversão. A Campanha da Fraternidade precisa incomodar, porque para muitos ela é/será espelho de muita gente e, quem sabe, muitos se verão e se incomodarão com si próprios.
A Campanha da Fraternidade precisa “dividir” para produzir os efeitos necessários. Jesus de Nazaré já chegou a dizer que ele era sinônimo de divisão. Portanto, a Campanha só evidenciou um problema que ela deseja “atacar”, a divisão, a intolerância e a falta de sensibilidade, para nos ligar, unir ao diferente. Será uma campanha para causar... sobretudo espantos, transformação e unidade.
Os artigos assinados não traduzem, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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