Na semana passada falamos das redes sociais como incubadoras de irracionais. Por ora, falamos do seu papel nas manifestações do dia 8 de janeiro às instituições democráticas brasileiras. Hoje, pretendo seguir no assunto, entrando na incubadora para entender o que acontece dentro dela. Segundo apurações, todos os golpistas que estavam presentes nas invasões atenderam a convocações de grupos de redes sociais.
É bom sabermos, primeiramente, que 99% dos smartphones brasileiros possuem WhatsApp. Estimativa que se difere de outros países, por exemplo, dos Estados Unidos. Esses canais de Telegram e WhatsApp são como "câmaras de eco", bombardeadas de informações justamente para levarem os participantes a acreditarem numa realidade, por vezes, desconecta, descabida e irreal. Quais são as características desses grupos e da desinformação?
Primeira característica: se cria uma desconfiança e uma deslegitimação da grande mídia, compreendida em redes de TV, rádios, emissoras, canais tradicionais. Por ora, o grande meio de informação (o verdadeiro) passa a ser esses grupos, o canal legítimo para ver a realidade. Detalhe: segundo o pesquisador David Nemer, professor de estudos de mídia na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e pesquisador na Universidade de Harvard, “a grande mídia, para os residentes nos grupos e nos aplicativos são as fake news”.
Segunda característica: esses grupos são orquestrados, planejados e moldados por cabeças pautadas em algum interesse, que pode ser político, ideológico ou econômico. Desse modo, os grupos são uma espécie de acampamento digital, onde várias tendas que pensam igual se instalam para conviver apenas com a realidade irreal e de interesse.
Terceira característica: tanto os vídeos quanto as imagens são, dedicadamente, montadas para ludibriar. Quase sempre são usados vídeos, com resoluções baixas, editados, e com áudios dublados e acrescidos, de modo a não ser possível fazer uma leitura labial. Mas a crença na narrativa é superior a toda técnica. Em alguns casos, imagens e posts são colocados com manchetes sensacionalistas com recursos de persuasão mais fortes.
O que sabemos é que WhatsApp e Telegram já se tornaram parte integrante dos nossos dias, cotidianos e trabalhos. Então, como evitar os efeitos nocivos das notícias falsas? Já existem vários recursos disponíveis na plataforma como por exemplo: ter o consentimento na hora de ser incluído num grupo, limitar as formas e as vezes que uma mensagem for encaminhada, além de outras atitudes como a verificação de links.
O fenômeno da desinformação sempre existiu e sempre vai existir, mas o que precisamos fazer é tirá-lo do centro e colocá-lo à margem.
É tempo de coibir, punir e levantar o acampamento do mundo digital da fantasia.