Uma vez mais estamos às portas da Semana Santa, e diante de duas tradicionais fotografias: a de Jesus sendo aclamado com “hosanas” e acenado por ramos de oliveiras, e outra Dele diante do tribunal, frente à cruz, aos gritos de “Crucifica-o”. Essas duas fotografias, antagônicas, resumem todo o seu caminho, seu projeto e sua pregação – elogiado e reconhecido por uns, odiado e condenado por outros. A dualidade do Domingo de Ramos é a dualidade da vida e de todo aquele que faz a opção pelo caminho da luta, da verdade, da crítica, e do amor indiscriminado.
É curioso que lendo os dois relatos que originam essas duas fotografias tradicionais é possível perceber o contraste em muitos detalhes: se entrando em Jerusalém Jesus recebe um jumentinho, no caminho do calvário ele recebe uma cruz. Se entrando em Jerusalém ele foi aclamado e reconhecido como Rei, no caminho do calvário ele foi humilhado por ser Rei (blasfêmia). Se entrando em Jerusalém lhe foram dadas roupas “estendidas” pelo chão, no caminho do calvário ele foi despido. Se no caminho de Jerusalém ele ouviu gritos de hosanas, no do calvário ele ouviu crucifica-o.
O caminho do “Cara de Nazaré” foi marcado por "hosanas" e "crucifica-o". Seu caminho começa com hosanas, elogios, aclamações, mas termina com crucifica-o, “ele é bandido”, “ele é falso”, ele é “criminoso”, ele é isso ou é aquilo. E assim é marcado no dia de hoje, o caminho de todo aquele que faz a opção pelo seu mesmo modo de vida. Os que lutam pelos indígenas, os que dão comida aos que tem fome, os que falam dos milhões de famintos, os que abraçam os descartados, os que protestam por trabalho digno, os que questionam a justiça, os grandes e os poderosos que inclusive se dizem cristãos.
Os retratos da Semana Santa ajudam e muito a compreender, por exemplo, a religião que se diz cristã. Ao mesmo tempo faz questionar e sugere que o Cristianismo não pode ser reduzido a cultos e orações que se resumem a “Hosanas nas Alturas”, “Glórias a Deus”, louvores e aclamações adocicadas, o cristianismo de fato é aquele que vai além de tudo isso e se mistura com a vida, com os pobres, com a luta de um povo, que dá de comer a quem tem fome, que veste quem está nu, que dá água ao que tem sede e visita o que está na prisão e não o trata como criminoso ou outra coisa. Apesar dos motivos de condenado, visita-o como irmão, ainda que fazendo tudo isso termine crucificado pelo julgamento e opinião dos outros.
Em tempos sombrios como esse que estamos vivendo, onde cuidado, amor, fraternidade e solidariedade são coisas de comunista, Jesus está a nos mostrar que todos esses gestos são de cristianismo e não ideológicos. E a partir disso é importante que tenhamos em mente: Jesus não morreu “pelos nossos pecados”, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, foi assassinado pelo Estado, pela ganância religiosa, e pelo incômodo que ele gerou no poder do seu tempo, a partir do seu jeito de viver, de pensar e de amar.
O amor que ele pregou foi uma ameaça ao poder. Seu jeito de ser Deus não estava no script mental e nem na crença de parte do seu povo. A morte de Jesus não foi e nem pode ser romantizada. Isso seria anular o fato e o sentido que dividiu a história. Isso seria anular tudo que se repete ao mesmo modo por aqueles que optaram pelo seu mesmo jeito de agir e viver.