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Análise

Preço alto da carne: muitos continuarão sem um pedaço no prato

Em 2022 o cenário poderá permanecer no patamar que está. A fome impera, enquanto os grandes se abastecem de negócios promissores

Publicado em 11 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 nov 2021 às 02:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira

viniciusfigueira18@gmail.com

Quem costuma ir ao supermercado está sentido o peso do preço da carne. Muitos se perguntam o porquê disso. A resposta eminente seria: é a inflação. Só para a gente entender: inflação refere-se a um aumento contínuo dos preços em uma economia. É comum que se divida a inflação em três categorias: de demanda, de custos e inercial. No contexto da carne, nós precisamos ir além.
Pegando o gancho da demanda, e entendendo a sistemática, a gente precisa entender que nesse momento, sobretudo, há uma demanda internacional mais agressiva por carne, que faz com que as empresas prefiram exportar a vender a um preço mais baixo no mercado interno. Alguns chamam essa demanda de lógica perversa do capitalismo - um dos principais motivos pelo qual grande parte dos brasileiros está abandonando o salutar costume de comer carne.
Já existe uma previsão feita pelo Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) que poderemos fechar 2021 com um consumo de 26,4 quilos por habitante/ano, depois de batermos o recorde de 96,7 quilos por pessoa em 2013. No ano passado, foram 36 quilos per capita. É interessante trazer esse contexto porque pode nos ajudar a compreender o que estamos vivendo. Alguns podem ainda se perguntar: mas por que aumentou o consumo da carne fora do país?
Segundo dados de analistas do mercado agro, o ciclo pecuário entre 2016 e 2018 foi um período em que o Brasil abateu muitas fêmeas. Com isso, o preço do bezerro subiu muito e reduziu a oferta de gado pronto para entregar. Desde o final de 2019, com o preço dos chamados animais de reposição (bezerro, boi magro e garrote) em alta, os produtores passaram a reter as fêmeas nas fazendas para produzir novos animais. Com menos fêmeas sendo abatidas, a oferta de gado para abate ficou comprimida no ano passado e a tendência é que o preço do bezerro siga nas alturas.
O segundo elemento importante é a China, que padece das consequências da gripe suína. Em seguida, o coronavírus em 2020. Mas é essa epidemia que ainda repercute na forte demanda chinesa por carnes. Além disso, nos outros mercados compradores de carne brasileira — Egito, Rússia, Chile, Estados Unidos — retroagiu. Vale destacar o papel da alta do dólar nesse impulso às exportações para a China, o que reduz a oferta de carne no mercado interno, levando à alta de preços.
Vejam só: de janeiro a julho deste ano, as exportações totais registraram incremento de 8,5% no faturamento, que fechou o período em US$ 5 bilhões ante US$ 4,6 bilhões registrado nos sete primeiros meses de 2020.
A triste notícia é que em 2022 o cenário poderá permanecer no patamar que está. E aí, em meio a uma inflação, com um poder de compra diminuto, muitos pratos continuarão sem um pedaço de carne. A fome impera, enquanto os grandes se abastecem de negócios promissores. Capitalismo, desigualdade, política. A falta de um pedaço de carne no prato pode provocar muitas perguntas sobre essas três palavrinhas tão impactantes na vida do brasileiro.

Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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