O tema de hoje tem tudo a ver com aquilo que comemoramos nesta data, e estamos comemorando neste ano, pelo marco de 200 anos, a “Independência do Brasil”. Eu me atrevo a colocar "independência" entre aspas, não somente para destacar, mas justamente para provocar em nós e a partir de nós o que a data representa. Aliás, é uma data muito aquém da história, ela equivale a uma celebração sempre atual, pelo impacto e pelos efeitos que produz.
Com honras e ricas iguarias, recebemos em tapete estendido o coração de Dom Pedro I. O coração daquele que gritou “Independência ou morte?”. Independência de quem? Há controvérsias. Dizem os críticos e estudiosos da história que a independência tinha o objetivo de garantir a unidade territorial do Brasil. No entanto, D. Pedro I se interessava apenas por Rio, São Paulo e Minas. E as outras províncias? Aqui parece morar a razão dos muitos enfrentamentos de revoltas regionais contra o governo imperial, como Farroupilha, Cabanagem, Sabinada, entre outras.
O escritor Frei Betto realça: “Entre o fato e a versão do fato, a história oficial tende à segunda. Ainda hoje se discute se o grito decorreu do sonho de uma pátria independente ou da ambição de um império tropical. Ficou o grito parado no ar, expresso nos rostos contorcidos das figuras de Portinari, no romanceiro de Cecília Meireles, no samba agônico de Chico Buarque, no coração desolado das mães brasileiras que enterram, todo ano, recém-nascidos precocemente tragados pelos recursos que faltam à área social e são canalizados para abastecer o pantagruélico orçamento secreto. Mães que choram, inconsoladas, seus filhos mortos por balas 'perdidas' ou vítimas do belicismo policial que sacrifica Genivaldos sem que os assassinos sejam incriminados pela Justiça”.
Pelo que parece, independência não foi algo que conquistamos há 200 anos, mas é aquilo que seguimos em busca, 200 anos depois. Neste ano, seguimos reféns de atentados à democracia, às instituições. Seguimos dependentes de gritos não mais às margens do Ipiranga, mas na rampa do Planalto, gritos de "salvadores da pátria". Seguimos dependendo da educação transformadora, promessa de tantos e realidade distante para muitos. Seguimos dependentes do capital estrangeiro, do comando das grandes potências, da tecnologia estrangeira, da mentalidade bajuladora com que ambicionamos os países promissores.
Por outro lado, temos gritos de excluídos, de pobres, de famintos e miseráveis, vítimas da inflação famigerada e corrosiva. Gritos de quem não tem trabalho, gritos dos pacientes da desigualdade. Gritos dos indígenas e dos negros. Gritos dos enfermeiros e educadores, gritos, e gritos e gritos.
Se ainda há gritos, não há independência.