Sérgio Meneguelli e sua bicicleta são inseparáveis. O
veículo de duas rodas virou marca política do deputado estadual e ex-prefeito
de Colatina. “Não tenho como ficar sem bicicleta. Quando fico sem ela, sinto
falta. Pedalo todo dia e te garanto: quando me eleger senador, vou levar minha
bicicleta dobrável e tomar posse de bicicleta. Vou chegar pedalando à
Chapelaria do Senado”.
É bom mesmo pedalar em Brasília, cidade cheia de longas
retas, ao contrário da acidentada Colatina. Mas talvez Meneguelli não chegue
lá. O pré-candidato ao Senado parece muito perto de cair da bicicleta eleitoral.
Ou melhor, ser derrubado. Mais uma vez, derrubado, quatro anos depois de ter
sofrido uma dolorosa queda, justamente quando vivia auge de sua popularidade.
Meneguelli está atado ao Partido Social Democrático (PSD),
ao qual se filiou em março. Não pode ser candidato neste ano por nenhuma outra
sigla. Presidido nacionalmente por Gilberto Kassab e no Espírito Santo por
Renzo Vasconcelos, o PSD já declarou apoio a Lorenzo Pazolini para governador e
está na coligação do Republicanos. O ex-governador Paulo Hartung também está no
PSD e incentivou a filiação de Meneguelli.
O partido de Pazolini, por sua vez, está na iminência de
atrair, para a mesma coligação, o Partido Liberal (PL), liderado no Estado pelo
senador Magno Malta. Nos termos do acordo bem avançado do PL com o Republicanos,
o PSD só poderá indicar o candidato a vice-governador de Pazolini. A princípio,
nessa composição, não sobrará ao partido de Meneguelli espaço para ter
candidato a senador. Logo, se o PSD ficar aí, Meneguelli vai sobrar.
O deputado se recusa a crer nessa possibilidade:
Não acredito que será feita a mesma sacanagem comigo, porque estou
lidando com pessoas que não puxam o tapete. Até o momento, não posso duvidar de
Paulo Hartung, Kassab e muito menos de Renzo. Tenho totais garantias dele de
que serei candidato a senador”
Sergio Meneguelli, deputado estadual
Na entrevista a seguir, Meneguelli afirma que não pediria votos
para Maguinha Malta (PL), diz que não depende de Magno Malta e defende que o PL
se desgarre dessa coligação, lançando uma chapa puro-sangue, com ele candidato
ao Senado e Hartung ao Palácio Anchieta. É o gol de bicicleta sonhado pelo
deputado, mas hoje a ideia soa mesmo como um sonho, distante e irrealizável.
Se a queda do colatinense se confirmar, estaremos diante de
um déjà-vu: reedição do enredo de
2022. Naquela oportunidade, Meneguelli estava no próprio Republicanos. A
semanas do início da campanha, os dirigentes do partido, hoje presidido no
Estado por Erick Musso, decidiram barrar a candidatura dele ao Senado. Ele precisou
se contentar em se candidatar a deputado estadual, enquanto o próprio Erick foi
candidato a senador pela legenda.
Magno venceu aquele pleito e voltou para o Senado.
Meneguelli sempre o acusou de ter se articulado em Brasília com a cúpula
nacional do Republicanos, a fim de lhe barrar a candidatura. Agora, Magno e
Erick protagonizam as articulações que culminarão com a aliança local entre PL
e Republicanos...e que podem resultar na nova queda.
Confira abaixo a entrevista de Meneguelli:
Como o senhor avalia
as recentes articulações do PL com o Republicanos?
Só tenho tomado conhecimento através das notícias. Saiu na imprensa que o PL e Magno Malta exigiram de Pazolini a mesma linguagem, o apoio a Flávio Bolsonaro, a defesa da anistia e essas coisas. O PSD ficaria com a vaga de vice e sem senador. Isso foi um acordo entre eles lá que conversaram, se é que houve mesmo isso. O PSD não participou. Dentro do meu partido, não abro mão da minha candidatura. Tenho a palavra final do Kassab a do Renzo, e isso continua. Pelo Renzo e pelo Kassab, acredito 100% que serei candidato. Ainda mais diante da pesquisa de ontem [a pesquisa Quaest, divulgada por A Gazeta na quinta-feira]. E ainda nem estou fazendo campanha! Meu nome é competitivo.
O senhor confia,
então, na manutenção da palavra empenhada por Renzo Vasconcelos de que o senhor
terá legenda para ser candidato a senador pelo PSD?
Não tenho motivo para desconfiar da palavra do Kassab, nem da
palavra do Renzo. Só estou esperando a convenção para confirmar. Inclusive
acredito que temos força para irmos sozinhos. Não precisamos estar atrelados. Temos
tamanho para termos candidaturas próprias e, a meu ver, o Hartung deveria ser o
nosso candidato a governador.
Então o senhor defende
que o PSD lance uma chapa majoritária avulsa, puro-sangue, com Hartung
candidato a governador e o senhor a senador? É isso?
Veja o resultado da pesquisa que vocês deram na quinta. O
Paulo Hartung ganha sem estar fazendo campanha. O PSD hoje tem candidato a presidente
da República [Ronaldo Caiado]. Se eu tivesse o poder de fazer isto, lançaria já
hoje a candidatura de Hartung ao governo. Amenizaríamos essa polarização que
acho que não faz bem à democracia.
E o PSD tem condições
práticas de bancar esse movimento solo? Tem condições financeiras, políticas,
estruturais, aliados nos municípios?
Claro que tem!
O partido terá chapa
para a Câmara dos Deputados?
Acredito que sim. Hoje o PSD tem toda a estrutura para ser
protagonista. Não precisa ser coadjuvante. Sem falar que hoje temos o nome mais
forte para ganhar o Governo do Estado, que é o Paulo Hartung.
Deputado, em minha
apuração, ouvi agentes políticos do PL e do Republicanos. Os dois lados dão
conta de que a aliança está selada nos bastidores e que o anúncio é iminente. O
PSD também já anunciou aliança com o Republicanos, e Renzo já declarou o apoio
do partido a Pazolini. Mas, nos termos do acordo do PL com o Republicanos, o
PSD só poderá ocupar a vice de Pazolini...
Então o PSD seria só para apoiar?
Teria a vice, mas não
espaço, nessa coligação, para sua candidatura ao Senado...
Mas quem registra candidatura do PSD a senador não são eles.
É o presidente do PSD. Essa é a vontade deles, não é a vontade do PSD. Eu sou
candidato a senador. Eles não podem fazer isso. Não é dessa forma, eliminando
alguém para ganhar... Não acredito que será feita a mesma sacanagem comigo,
porque estou lidando com pessoas que não puxam o tapete. Até o momento, não
posso duvidar de Paulo Hartung, Kassab e muito menos de Renzo. Tenho totais
garantias dele de que serei candidato a senador. Para ser candidato, não dependo
deles, de PL, de Magno, como nunca dependi... Até porque não os vejo como meus
apoiadores, e sim como meus opositores, meus adversários políticos. Como diz o
ditado, “caititu fora da manada leva tiro”...
Como é?
“Caititu fora da manada leva tiro”. Eu sou um caititu que
não anda em manada, mas não vou levar tiro dessa vez. Tenho tradição de, na
época da campanha, não andar com grupo. Não estou contando com o apoio de uma
coligação, mas com o apoio do povo capixaba. Acredito que vou ser lançado e vou
ser competitivo. Você sabe o que fizeram da outra vez... Não preciso repetir. Inventaram
mil desculpas para retirar minha candidatura, mas todos sabem que foi para
beneficiar quem foi eleito. Teve interferência da direção nacional do partido
em que eu estava. Desta vez, não tem. Confio na palavra do Renzo. Ele declarou
que, enquanto a caneta estiver na mão dele, sou candidato a senador. E não tenho
dúvidas disso. Quem está botando dúvida são meus adversários.
O senhor apoiaria a
Maguinha Malta?
Não. Eu sou o melhor candidato a senador. Por que vou apoiar
outro se tenho condições de ser? Só conheço a Maguinha de nome. Só a conheço
como a filha do Magno que será candidata. Nunca conversei com ela e não me
lembro de já a ter visto. Não posso falar bem nem mal dela. Ela é minha adversária
em termos de disputar, mas não tenho nada contra ela.
Basicamente, então, o
senhor defende que o PSD se retire dessa coligação liderada pelo Republicanos e
lance um movimento eleitoral próprio no Espírito Santo?
Particularmente, acho que nós temos condições. E defendo uma
chapa puro-sangue. Kassab, Paulo Hartung e Renzo: desses três eu não duvido. Agora,
se aqueles de lá exigirem, aí, sim, defendo que a gente saia sozinhos, pois não
precisamos da bengala deles. Nunca passou pela minha cabeça ter o apoio do
Republicanos ou do PL.