Os episódios vão se acumulando. Os constrangimentos, idem. Além do próprio, os filhos de Bolsonaro e a ala olavológica do governo tornaram obsoletos alguns adjetivos, reatualizando as definições de “surreal”, “inacreditável”, “absurdo”. A linguagem já não é suficiente. É preciso encontrar novas palavras, pois a loucura se banalizou. O absurdo se normatizou.
Como disse o próprio Bolsonaro no último dia 18, que ninguém se surpreenda se o vir em um metrô lotado em São Paulo, “com seu povo”, em plena crise de propagação do coronavírus. Três dias antes, chegou perto disso, ao interagir com manifestantes em Brasília.
Com efeito, nada mais surpreende, nada mais é inverossímil. Nada mais é digno do status de “impossível na vida real”. Situações que seriam difíceis de conceber até em filmes de humor nonsense tornaram-se parte do nosso cotidiano político. Roteiristas precisam se esforçar em dobro para criar algo novo naquelas esquetes com paródias da realidade política.
Nada mais deve ser considerado absurdo o bastante. O antes inverossímil ganhou verossimilhança. O impossível foi içado ao status de perfeitamente plausível. O que outrora seria logo descartado como hipótese delirante agora é fato e notícia do dia a dia, estampada em todos os jornais e sites. E chega a ser analisado aqui, por este colunista a quem nada mais é capaz de gerar alguma incredulidade, neste Brasil distópico do banho (dourado) de insensatez no poder. Vamos lá:
1. TWITTER É LEVADO A PODAR MINISTRO DA FALTA DE NOÇÃO
Em um inexplicável desserviço em parceria com o senador Flávio Bolsonaro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, fora do núcleo federal de enfrentamento ao coronavírus, posta no fim de semana em sua conta oficial no Twitter, sem a devida contextualização, três vídeos antigos do médico Drauzio Varella, com orientações do conhecido doutor relacionadas à doença. Nele, Varella afirma que não havia razão para as pessoas mudarem o seu ritmo de vida no país.
Os vídeos são do fim de janeiro. Já tinham sido apagados por Varella. Aquela mensagem caducou. Fazia sentido no Brasil de janeiro. Era pertinente em janeiro. Agora, além de errado, o teor da mensagem é um perigo: joga contra a campanha de conscientização da qual o próprio médico é parte. A mensagem certa agora é ficar em casa.
A equipe de Varella contata Salles e, em outras palavras, lhe diz: “Ministro, apague essa postagem. Não endossamos mais esses vídeos. Esse post agora só atrapalha”. Salles nada faz. A mensagem estava lá até esta segunda (23). O Twitter precisa intervir: apaga, na marra, os posts de Salles e de Flávio, por considerar que a mensagem poderia colocar a vida de pessoas em risco. Sim, desinformação mata. Mais ainda quando é deliberada. Do episódio, a pergunta que não cala: o que leva um ministro de Estado a agir com esse grau de irresponsabilidade? Pergunto: fato ou fake? Real ou surreal?
2. “BANANINHA”: BANANAS PARA A DIPLOMACIA
Enquanto isso, como se não tivéssemos mais problemas, o filho 02 de Bolsonaro, ex-futuro embaixador brasileiro em Washington, desencadeia uma crise diplomática com a China (a mesma da qual agora estamos adquirindo testes de coronavírus), sem paralelo e sem consonância com a tradição pacifista da nossa diplomacia.
Mais um dos muitos choques com nações amigas completamente desnecessários que têm marcado o atual governo. Foi assim com a Argentina, com a Alemanha, com a França – cuja primeira-dama, que nada tinha a ver com a história, chegou a ser gratuitamente ofendida por nosso ministro da Economia.
Para tornar tudo ainda mais bizarro, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, coloca involuntariamente um apelido que jamais descolará no filho 02 do presidente: “Eduardo Bananinha”. Fato ou fake? Real ou surreal?
3. BANANAS, TAMBÉM, PARA ORDENS MÉDICAS
Enquanto isso, o pai de Eduardo (o mesmo que há um ano chamou de “idiotas úteis” quem se manifestava contra ele) cai nos braços dos apoiadores que se manifestaram a seu favor no dia 15, desrespeitando a ordem do Ministério da Saúde de isolamento social para casos como o dele (suspeitos de infecção por coronavírus) e contrariando a recomendação dada por ele mesmo três dias antes: evitar aglomerações humanas. Fato ou fake? Real ou surreal?
4. AS MORDIDAS EM OUTROS PODERES
A referida manifestação foi abertamente contra o Congresso e contra o STF, cujos ministros, ao que tudo indica, não passam de hienas no entender do presidente. Assim ele mesmo indicou em um vídeo postado em sua conta oficial no Twitter, no fim de 2019. O chefe de um Poder atacar de maneira tão grosseira os representantes de outro: fato ou fake? Real ou surreal?
5. PEÇA NEONAZISTA: A EMULAÇÃO DE GOEBBELS
Quem não está rindo nem um pouco é Roberto Alvim, o Goebbels tupiniquim, substituído no cargo pela atriz Regina Duarte, após, literalmente, imitar Joseph Goebbels, num vídeo em que expunha suas ideias para a gestão da cultura no país, com palavras, entonação, enquadramento, fundo musical e toda a estética inspirados no ministro da Propaganda de Hitler no Terceiro Reich. Fato ou fake? Real ou surreal?
6. QUEM QUER SEXO?
Regina lembra a novela “Por Amor”, e amor remete a sexo. Segundo o próprio presidente brasileiro, se você mora no exterior e quiser sexo com mulheres no Brasil, venha já fazer turismo em nossas terras. Se for gay, é melhor nem vir. Foi o que indicou em 2019. Exploração sexual não é o problema. O presidente não quer é que o Brasil se torne o “paraíso do turismo LGBT”. Muito menos que homens gays fiquem urinando na cabeça um do outro em público durante o carnaval. Fato ou fake? Real ou surreal?
7. GROSSERIAS E ESCATOLOGIAS
Em março de 2019, o presidente chegou a publicar, em seu Twitter oficial, um vídeo com uma cena apresentando ao Brasil o “golden shower”. Também já disse a um repórter que, se ele quer proteger o meio ambiente, deve passar a defecar a cada dois dias. Para intimidar uma jornalista, declarou que ela queria muito “dar o furo” contra ele. Fato ou fake? Real ou surreal?
Tudo fato. Tudo muito real. Mas quem acreditaria em um só desses episódios há algunas anos? E poderíamos seguir aqui por mais tempo nessa retrospectiva de incríveis polêmicas ideológicas/escatológicas protagonizadas pelo próprio presidente, seus filhos políticos e seus ministros da ala olavista. Definitivamente, a marcha da insensatez apoderou-se da República.