O destaque maior da pesquisa Ibope/Rede Gazeta publicada neste sábado (17) sobre a eleição a prefeito de Cariacica vem a ser um realce negativo. Em 12º lugar, encontramos ninguém menos que o candidato do partido do governador Renato Casagrande: o Professor Saulo Andreon, do PSB. Hoje marcando somente 2% na intenção de voto estimulada, ele só está à frente de Ivan Bastos (um pastor) e de Bia Biancardi (empresária transexual que acusou pastores de discriminação). O líder é Euclério Sampaio (DEM), com 13%, seguido por Sandro Locutor (PROS), com 10%, e Dr. Helcio (PP), com 9%.
Na intenção espontânea, pasmem: o candidato do PSB, a um mês do 1º turno, não atingiu 1% das menções, em mais de 400 entrevistas.
Ex-vereador de Cariacica, Saulo tem coligação respeitável, formada por PSB, PV e PDT. Mas, nitidamente, não engrenou. A prosseguir assim, sua candidatura passará a representar uma batata quente para o próprio governo e, também, para a pessoa do governador.
Se o candidato do partido do próprio governador fizer um papelão eleitoral, chegando nas últimas posições, o vexame respingará sobre o governo Casagrande também. Por mais que tentem, não dá para dissociar completamente o PSB do governo (nem do governador). E a vice-governadora, Jaqueline Moraes (PSB), está mergulhada até os cabelos na campanha de Saulo. Então, com esse desempenho do candidato socialista, o Palácio Anchieta corre o risco de ficar com um mico na mão.
Mesmo que o governador mantenha distância protocolar do processo e mesmo que seja eleito outro aliado do governo, como Euclério (DEM) ou Sandro Locutor (PROS)… é o nome do partido do governador que está em jogo. Uma derrota acachapante em Cariacica mostrará fraqueza política. E enfraquecerá, principalmente, Jaqueline – o que na certa também não interessa a Casagrande, pensando em eleições futuras.
Ninguém forçou o partido, mas os dirigentes do PSB insistiram em lançar e manter a candidatura de Saulo. Casagrande, se o quisesse, poderia ter chamado todos para uma “conversa dissuasória” e colocado um freio nisso. Não o fez enquanto pôde. No lançamento da candidatura de Saulo, com ou sem o consentimento de Casagrande, Jaqueline e o PSB de Cariacica puseram uma cara do governador, de todo o tamanho, do lado da cara de Saulo, no background da mesa (foto acima). Agora, a candidatura está aí, não tem mais volta, e virou um potencial rojão.
Ainda em ponto morto, Saulo precisa ter um desempenho minimamente decente. Por ora, o governo Casagrande não está querendo entrar na campanha, mantendo o discurso de que a candidatura é do PSB. Mas, com índices péssimos como esses de Saulo, ou o governo entra um pouco na campanha para ajudá-lo a chegar pelo menos a um patamar mediano, ou corre o risco de vê-lo chegar na rabeira. E, nesse caso, por mais que Casagrande e seus escudeiros tentem lavar as mãos, vai ficar feio também para eles.
INSISTÊNCIA QUE PODE CUSTAR CARO
A candidatura de Saulo é legítima, como o é a de qualquer partido que dispute democraticamente um espaço de poder. Mas o fato é que ela nunca fez muito sentido, pelo prisma da geopolítica estadual, senão por certa teimosia de dirigentes do PSB e da “voracidade” do partido de Casagrande por espaços, recorrentemente destacada aqui.
No Espírito Santo, com quase 40 nomes, a sigla que hoje governa o Espírito Santo é a que mais lançou candidatos próprios a prefeito. Só na Região Metropolitana, o partido já tinha candidato a prefeito de Vitória (Sérgio Sá), Serra (Bruno Lamas), Guarapari (Gedson Merízio) e, por pouco, não lançou também um candidato em Vila Velha (sondaram Edmar Camata e Ted Conti, que não toparam).
A pergunta que todo o mercado político capixaba se fazia, especialmente aliados do PSB no governo, era: por que o partido de Casagrande há de querer lançar um candidato próprio também em Cariacica, contrariando aliados do governo e colocando o próprio governador em uma sinuca de bico? A presença de Saulo nesse páreo em Cariacica gera, desde sempre, uma situação delicada para Casagrande, na medida em que pode afetar o bom relacionamento que ele tem (e que precisa cultivar) com outros atores nesse processo.
Vale sempre lembrar: os dois candidatos que lideram a estimulada nessa primeira pesquisa Ibope, Euclério e Sandro Locutor, são aliados importantes para o governo Casagrande – destacadamente o primeiro, deputado estadual e presidente da Comissão de Finanças na Assembleia. Para completar, Euclério conta com o apoio do atual presidente da Assembleia, Erick Musso (Republicanos), e do vice-presidente da Casa, Marcelo Santos (Podemos), que chegou a ser cotado por agentes governistas para suceder Erick no comando da Mesa Diretora em 2021.
Por mais que tentem manter as aparências, aliados do Palácio não conseguem disfarçar a insatisfação com a presença de Saulo nesse pleito. E esse irreprimível descontentamento, sobretudo com movimentos da vice-governadora em Cariacica, já “vazou” e chegou à superfície. Foi exteriorizado, por exemplo, no movimento de bastidores de Euclério, revelado aqui na coluna, de pedir formalmente ao governo que mande para seu gabinete a lista de servidores comissionados nomeados e exonerados na Vice-Governadoria desde o início do mandato, em 23 de setembro.
Não por acaso, o governador está mantendo distância obsequiosa da eleição em Cariacica até agora – diferentemente do que já fez, por exemplo, em Guarapari. A questão é: talvez não possa mais fazê-lo, deixando à própria sorte o candidato do seu partido.
Entrar pessoalmente na campanha, ele não vai. Mas, com esses números tão sofríveis de Saulo, se o governador não mover seus pauzinhos para discretamente dar um impulso ao candidato nas próximas semanas, arrisca-se a também, por tabela, lidar com o mico de ver o candidato do seu próprio partido chegar na zona de rebaixamento no 3º maior colégio eleitoral do Estado governado por ele. Não é pouco.
LANTERNA TAMBÉM NOS REPASSES...
Um dado concreto e aritmético indica que talvez a campanha de Saulo não esteja sendo tomada como prioridade nem pela direção estadual do PSB. Até a noite deste sábado, a cúpula estadual havia repassado R$ 500 mil, retirados do Fundo Eleitoral, para a campanha do vice-prefeito Sérgio Sá em Vitória. Da mesma fonte, foram repassados R$ 350 mil para o deputado Bruno Lamas na Serra. Para Saulo, foram R$ 200 mil.