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E eu com ismo?!?

“Comunismo”, “nazismo” e outros “ismos”: confusão ideológica no ES

Mais do que uma disputa, o Estado foi tomado por uma grande confusão ideológica que passa pela incompreensão ou pela mistura intencional de conceitos. É uma disputa requentada, do século passado, bem distante do interesse maior do cidadão capixaba em plena pandemia

Publicado em 29 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

29 jun 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Deputado Assumção imita gesto de saudação nazista a Adolf Hitler:
Deputado Assumção imita gesto de saudação nazista a Adolf Hitler: "Heil, Fidel Castro!" Crédito: Reprodução YouTube Assembleia Legislativa
A política do Espírito Santo está sendo consumida por uma guerra ideológica rasa, de baixa qualidade, conforme defendemos aqui neste domingo (28). Mas não é só isso. Mais do que uma disputa, temos assistido a uma verdadeira confusão ideológica, que passa pela incompreensão ou pela mistura deliberada de alguns conceitos básicos para o início de qualquer debate intelectualmente sério.
Tomemos, a título de exemplo, uma das falas do deputado estadual Capitão Assumção (Patriota) na sessão ordinária da Assembleia no dia 15 de junho. Para iniciar uma saraivada de ataques ao secretário de Estado da Saúde, o parlamentar disse o seguinte sobre Nésio Fernandes: “É um secretário que começa o dia em seu gabinete proclamando 'Heil, Fidel Castro!'”. A fala foi acompanhada pelo gesto característico da saudação nazista a Adolf Hitler, com o braço direito estendido para a frente.
Nésio Fernandes é filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Graduou-se na Escola Latino-Americana de Medicina (Elan), em Havana. Sempre que pode, Assumção usa isso para dizer que o secretário não é um médico de verdade, mas um “agente infiltrado de Cuba”. E o associa obsessivamente a Cuba, a Castro e ao comunismo condenado por ele.
Para além de sonhos românticos juvenis, o regime comunista implantado em Cuba por Castro e Ernesto “Che” Guevara após a revolução de 1959 realmente merece condenação. Nisso vamos concordar com o deputado. Basicamente, é uma ditadura, ruim e cruel como toda ditadura (civil ou militar, de esquerda ou de direita, aqui ou em qualquer parte), pelo simples fato de ser uma ditadura, com tudo o que isso significa: violência institucionalizada como política de Estado; violação sistemática de direitos humanos; extinção de direitos políticos; cassação de liberdades individuais, começando pela de expressão; censura feroz à imprensa; governo centralizado em um partido único, sem eleições; perseguição implacável e aniquilação de opositores. Aos dissidentes, a prisão. Nos tempos de Guevara, o paredão. Como um sistema de governo assim pode ser bom?
Feitas todas essas ressalvas, impera, contudo, deixar muito claro um ponto:
Não há lógica nem nexo histórico em qualquer tentativa, como a feita pelo deputado Assumção, de associação do nazismo (“Heil, Fidel!”) com Cuba, com o PCdoB, com o comunismo, com o socialismo... Simplesmente, não faz o menor sentido. Historicamente, são ideologias antagônicas. Nazistas e comunistas são inimigos históricos. Bastaria dizer que, na Segunda Guerra Mundial, o país mais decisivo para o início da derrota da Alemanha nazista foi a União Soviética. Por extenso: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
A confusão conceitual se faz ainda maior porque, nos últimos tempos, quem tem se aproximado ostensivamente da simbologia neonazista não é outro senão o próprio deputado Assumção. Na sessão seguinte, do dia 16, o parlamentar ostentou com orgulho uma bandeira utilizada, na atualidade, por movimentos neonazistas na Ucrânia e em outras partes do mundo (vide foto abaixo).
Capitão Assumção exibiu a bandeira ucraniana durante a sessão da Assembleia nesta terça-feira (16)
Capitão Assumção exibiu a bandeira ucraniana durante a sessão da Assembleia nesta terça-feira (16) Crédito: Reprodução/Instagram
Trata-se, sim, de uma bandeira secular do país do leste europeu, um símbolo nacional ucraniano, associado a valores patrióticos. Ao longo da história, já foi apropriada e utilizada com diversas finalidades e conotações. No século XX, quando a Ucrânia foi anexada pela Rússia e pertenceu à URSS, virou símbolo da luta nacionalista por independência (que viria em 1991, com o desmantelamento do bloco soviético) e contra a imposição violenta do regime socialista ao povo ucraniano pelo governo central de Moscou.
Mas estamos em 2020. E, no século em que estamos, como atestam os historiadores e como sabe qualquer pessoa atenta ao que se passa no mundo hoje, a mesma bandeira foi adotada e ressignificada por grupos radicais e ultranacionalistas de direita naquele país, alguns deles paramilitares, tal como o Pravy Sektor. Virou símbolo do extremismo de direita, que anda de mãos dadas com o neonazismo, que por sua vez ganha simpatizantes mundo afora, inclusive no Espírito Santo.
“Queremos ucranizar o Brasil”, dizem os adeptos dessa ideologia por aqui, dos quais o deputado tem se aproximado. Ora, o que significa “ucranizar” o Brasil? Sob inspiração de um grupo como o Pravy Sektor, seria defender uma ruptura institucional e a implantação de um governo autoritário, o nacionalismo exaltado com altas doses de ódio ao estrangeiro (ufanismo + xenofobia), supressão de liberdades democráticas, perseguição implacável a qualquer foco de oposição...
Soa vagamente familiar com a definição da Cuba de Fidel lá no início? Pois é. Quem pede a “ucranização” do Brasil poderia estar pedindo a nossa “cubanização” que, no fundo, não faria lá grande diferença... Como eu disse, todo regime autoritário, de direita ou de esquerda, é, em essência, ruim. Simbolicamente, exibir uma bandeira como aquela pode ser lido como: compactuo com isso.
De todo modo, pelas manifestações do deputado Assumção, supõe-se que, apesar de sua aproximação com grupos e símbolos neonazistas, ele também considera o nazismo algo negativo, depreciativo. Do contrário, por que usaria referências ao nazismo para depreciar terceiros? Assim como vinculou uma saudação nazista ao secretário da Saúde (um adversário politico), chamou um repórter de A Gazeta de “jornazista”, com a intenção de ofendê-lo, em live na última sexta-feira (26).
Mas aí voltamos ao ponto: se o nazismo é tão ruim para ele, a ponto de usar alusões ao nazismo para hostilizar terceiros, por que então ele mesmo tem flertado com grupos e símbolos de caráter neonazista?
É um nó conceitual, que nos leva a duas conclusões:
1) No Brasil e no Espírito Santo, a confusão ideológica está tão grande (e sem sentido) que se está conseguindo misturar até comunismo com nazismo;
2) Em todo caso, essa discussão é completamente inócua, fora de tempo e fora de lugar. Enquanto o Estado atravessa a pior crise sanitária em um século, não bastasse a polarização também rasa entre “direita” e “esquerda”, agora nos vemos mergulhados em uma luta requentada, lá do século passado, entre “nazismo” e “comunismo”.
Essa discussão não cria mais leitos, não diminui o contágio pelo novo coronavírus, não gera renda para quem está perdendo com a crise. Ficar discutindo “ismos” e esticando a polarização neste momento só interessa aos envolvidos, mas passa longe do interesse maior da população.
Cubanos, ucranianos, marcianos etc. etc. devem estar rindo de nós neste momento.

VANDINHO LEITE: FORA OU DENTRO? 

Na já citada sessão do dia 15, o deputado Vandinho Leite (PSDB), aliado de Assumção, afirmou que, após a visita de deputados de oposição ao Dório Silva, no dia 12, o secretário Nésio Fernandes, ao acusá-los de “invasão”, “tentou o tempo todo a guerra ideológica”. “Essa discussão ideológica não faz sentido algum”, disse o tucano. E ainda: “Estou pouco preocupado com guerra ideológica”. Que bom!
Mas vamos lá: não existe briga ideológica “unilateral”. Quando um não quer, dois não polarizam. O experiente deputado pode até acredtar sinceramente no que diz, mas, se não quer se meter em “guerra ideológica”, tem que combinar primeiro com Assumção. Na mesma sessão, minutos antes de Vandinho dizer isso, o colega fizera aquele já mencionado discurso afogado em ideologia, também para rebater o secretário, e não parou de falar de Cuba, Cuba, Cuba...
Além disso, Vandinho também tem investido nessa polarização “direita versus esquerda”. Um exemplo quase pueril, mas eloquente. Sobre as acusações do governo, de “invasão” ao Dório Silva, um trecho da nota do deputado dizia: “Enquanto isso, o Governo do ES mente a torto e a esquerda para criarem uma narrativa da nossa fiscalização para enganar você”.

DE PRECONCEITOS E PREJUÍZOS

Em muitas línguas, incluindo inglês, espanhol e italiano (não conheço ucraniano), a nossa palavra “preconceito” pode ser traduzida, literalmente, como “pré-juízo”. Ou seja, um pré-julgamento. Como secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes deve ser julgado e, se for o caso, criticado, por seu desempenho no cargo. Ponto. Julgar e condenar antecipadamente um secretário por pertencer a determinado partido ou por ter estudado em determinado país não passa de preconceito bobo.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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