É preciso prestar muita atenção às palavras escritas pelo empresário Léo de Castro em seu último artigo, publicado em A Gazeta no dia 7 de março. Ex-presidente da Findes e atual vice-presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Castro (nada a ver com Cuba) é uma voz respeitada no meio empresarial capixaba. Seu texto, intitulado “A indignação diante de uma crise contratada no Brasil”, foi interpretado por alguns observadores da cena política estadual como um indicativo dado pelo empresário quanto a seu possível ingresso na atividade política, podendo disputar algum mandato já no pleito do ano que vem. O empresário sempre negou ter essa propensão e mantém a negativa.
Mas, para além de eventuais aspirações eleitorais deixadas nas entrelinhas, o texto também ganha importância porque pode ser lido, antes de tudo, como um desabafo e uma confissão do autor de que nem ele, um eleitor assumido de Jair Bolsonaro em 2018, aguenta mais as trapalhadas do presidente e do governo liderado (ou não) pelo capitão reformado, inclusive na área econômica.
O tom indignado antecipado pelo título acompanha todo o texto, que assim começa: “Não é fácil para mim escrever este artigo. Por natureza, sou otimista. Procuro achar sempre o lado positivo dos fatos, mas o atual momento da política no Brasil tem abusado do meu otimismo e gerado uma profunda indignação. Vem aí uma ressaca, uma grande crise. Não sei exatamente quando nem com qual intensidade, mas, por tudo que se vê, me arrisco a dizer que já ela está contratada”.
Na sequência, sem citar Jair Bolsonaro, o empresário enumera uma série de problemas sobrepostos que não podem ser lidos sem pensarmos na responsabilidade direta do presidente da República, destacadamente “a ausência de uma liderança equilibrada para conduzir e unificar o país neste momento de desafios gigantescos”. O autor também cita, entre outros pontos, o “recrudescimento da pandemia, com sucessivos recordes de mortes”; “intervenções populistas em empresas estatais que há tempos deveriam ter sido privatizadas”; “tentativas de tabelamento dos preços dos fretes, contrariando a lei da oferta e da procura”; “desconstrução de movimentos relevantes para reduzir a corrupção”; “líderes globais olhando para o próprio umbigo em vez de pensar globalmente”.
Pode ser traduzido assim: sentado à cadeira de presidente, temos um governante sem equilíbrio que não lidera o país para nada e que só gera conflitos no momento em que o mais necessitamos de união nacional. Já a agenda liberal reformista de Paulo Guedes agoniza, atrapalhada pelo próprio presidente.
Na conclusão do artigo, Léo de Castro defende que “quem tem a solução neste momento é a política e os(as) políticos(as)”. O que levou alguns a interpretar o texto do empresário como preparação do terreno para seu ingresso pessoal na vida pública é que, ora, quem nos conduziu a essa “crise contratada” foram os políticos que aí estão, de modo que deles é difícil esperar uma mudança radical que nos tire do fundo desse abismo.
Mas, falando em “mudança radical”, o artigo de Castro chama ainda mais a atenção se comparado ao que ele mesmo publicou dois meses antes: “O Brasil precisa de liderança”. Numa substancial transformação, a profissão de fé em Bolsonaro virou praticamente a confissão de perda dessa fé.
Em 10 de janeiro, o ex-presidente da Findes ainda manifestava uma esperança inquebrável no governo bolsonarista, resistente a todas as evidências de disfuncionalidade do governo, desorientação total na economia e inépcia pessoal do presidente para exercer o cargo ao qual foi alçado: “Como minha profissão exige otimismo, ainda acredito na capacidade do presidente de liderar o país, como tantos outros que votaram nele, entre os quais me incluo, também acreditam”. Em oito semanas, a esperança cedeu à indignação.
O que houve nesse interstício de 56 dias que justifique tal mudança de tom? Podemos arriscar: a pataquada de Bolsonaro em relação à mudança na presidência da Petrobras, que veio somar-se a tantos outros precedentes acumulados de perda de credibilidade.
Desse modo, o último artigo de Léo de Castro e, mais precisamente, a comparação desse último com o anterior, são um perfeito sintoma de um fenômeno maior que está em curso no país: o gradativo desembarque das tropas aliadas do governo Bolsonaro nos setores produtivo e financeiro; a corrosão do apoio social do presidente nas classes mais afortunadas – nas quais, segundo as mais recentes sondagens dos institutos de pesquisa, estão hoje seus maiores índices de reprovação.
Antes que se consume o naufrágio iminente (a tal “crise contratada”), investidores e empresários têm abandonado a fé e o navio conduzido (?) por Bolsonaro e pelo ministro Paulo Guedes. Um navio à deriva, cujo capitão, na dupla acepção do termo, nunca demonstrou saber bem para onde levar, até porque nunca teve efetivamente um plano de viagem nem uma carta náutica.
Mas foi a nave na qual embarcaram em peso os representantes do PIB do país em 2018. Por quê? Porque, do ponto de vista estritamente econômico, a aposta fazia pleno sentido, por mais pérfidas que fossem as opiniões e o histórico de declarações do então candidato em uma série de outras matérias igualmente importantes.
Primeiro porque, do outro lado do tablado, havia o representante do partido que, quatro anos antes, arremessara o país na maior recessão de nossa história, resultante das políticas econômicas e fiscais desastrosas aplicadas por Dilma Rousseff. Não inspirava a menor esperança de recuperação econômica, ao contrário. Segundo porque Bolsonaro – após três décadas expressando, como congressista, uma visão estatista na economia, herdada do regime militar –, apresentou-se ao eleitorado como um recém-convertido à cartilha do liberalismo econômico.
Para dar lastro a seu suposto compromisso com a agenda liberal, o então deputado escalou, já no início da campanha, o economista Paulo Guedes como seu futuro ministro da Fazenda – do mesmo modo que convidaria Moro para o Ministério da Justiça a fim de lastrear seu alegado compromisso com a agenda de combate à corrupção. Como no caso da agenda anticrime, a “conversão” do militar estatista à cartilha liberal era puro ilusionismo eleitoral. Mas, bem, lá estava Paulo Guedes, com suposta carta branca para agir e implementar suas reformas liberais modernizantes.
E assim, até por eliminação, o setor produtivo e o financeiro abraçaram em peso a candidatura de Bolsonaro. Mas a realidade do governo se impôs, assim como o autoritarismo e o intervencionismo congênito de Bolsonaro, que, bem disfarçado durante a campanha, tratou de sair do disfarce mal ele subiu a rampa do Planalto.
Empoderado durante as eleições, Guedes foi “desempoderado” ao longo do governo. Hoje o “superministro da Economia” é figura pálida, minguada na Esplanada, engolido pela sombra gigantesca do ego do presidente, a ponto de o deputado federal Felipe Rigoni (PSB), por exemplo, já defender publicamente sua substituição por Roberto Campos Neto – o mesmo Rigoni que se declara admirador de Léo de Castro e afirma que o empresário seria um “excelente candidato”.
Passada a metade do governo, não há mais fé inabalável que resista às evidências fáticas, concretas, objetivas… e à análise racional que costuma determinar as apostas políticas dos agentes econômicos que produzem, empreendem, investem, arriscam seu dinheiro e dependem de estabilidade política e solidez econômica para prosperar no país. A ilusão acabou.
O mercado e o empresariado não nutrem amor eterno por ninguém. Orientam-se pela razão pragmática, isto é, por resultados. O governo Bolsonaro não entregou os prometidos, mas uma “crise contratada”.
ADENDO: "GLOBALISMO" E DEMOCRACIA
Na relação de problemas que apontam para uma crise inevitável, Léo de Castro cita “líderes globais olhando para o próprio umbigo em vez de pensar globalmente”. Ora, no manual do bolsonarismo nacional-populista, “pensar globalmente” é uma heresia. Em seu artigo, o empresário exalta: “Somos uma democracia, graças a Deus”. Bolsonaro chegou ao poder através da democracia. Mas, nem antes nem depois de assumir a Presidência, pode ser considerado um exemplo de respeito a esse sistema de governo.