No embalo da “onda bolsonarista” de 2018 e do anseio dos cidadãos em geral por segurança pública, uma quantidade sem par de candidatos com origem em forças militares concorreu a prefeituras nestas eleições municipais, inclusive no Espírito Santo. A grande maioria deles, sobretudo bombeiros e policiais militares, filia-se ao bolsonarismo e representa o chamado “militarismo político”, um dos eixos da “política por Jair Bolsonaro”. Além da ligação com o presidente, vieram para essa disputa, em sua maior parte, com foco na agenda do combate à violência e do conservadorismo nos costumes. Faltou combinar com o eleitor capixaba, que não comprou o discurso de tais candidatos.
Nesse dia D que poderia ter sido para eles o último domingo (15), essa “invasão militar” morreu na praia. Nos dez maiores municípios capixabas, nenhum dos muitos candidatos militares teve êxito na disputa pelo cargo de prefeito. A lista de postulantes com tal perfil era longa, assim como agora é extensa a de representantes dessa tropa derrotados nas urnas:
Em Vitória, ficaram para trás o capitão da reserva da PMES e deputado estadual Lucínio Castelo de Assumção (Patriota), que teve como candidato a vice-prefeito o capitão da ativa Helinho Tristão (PTB). A chapa mais bolsonarista na Capital teve 7,22% dos votos válidos.
O eleitor também não foi generoso com o coronel Nylton Rodrigues (Novo), com a ressalva de que, diferentemente dos demais, não encampa o discurso bolsonarista e apresentou-se para a disputa como alguém muito mais próximo ao ex-governador Paulo Hartung (sem partido), muito crítico ao presidente. Teve 1,68% dos votos.
Em Vila Velha, o tenente-coronel Wagner Borges, dos Bombeiros Militares, ex-presidente do Projeto Político Militar (PPM) no Espírito Santo, teve 6,73%. Já o tenente-coronel Foresti (PSL) foi vice de Amarildo Lovato, também filiado ao ex-partido de Bolsonaro. A chapa teve 3,75%.
Em Cariacica, o subtenente dos Bombeiros Militares Sérgio de Assis Lopes (PTB) obteve 11,48%, enquanto o vereador Joel da Costa (PSL), cabo da reserva da PMES, ficou com 7,11%.
Em Viana, o vereador Max Daibert (PP), cabo da PMES, obteve 18,79% (o melhor desempenho de um militar na Grande Vitória). Mas o vencedor, Wanderson Bueno (Podemos), atingiu 66,36%.
Em Guarapari, o coronel da ativa da PMES Daltro Ferrari (PSD) não passou de 1,33% dos votos.
Em Aracruz, o major Wallace Vieira (PRTB) chegou em 3º lugar, com 18,84%.
Em Cachoeiro, o subtenente Paulo Sergio Alemães (PTB) não foi além de 1,31%. E, dos três policiais militares que concorriam ao cargo de vice-prefeito, dois fracassaram clamorosamente: o capitão José Tadeu da silva (PSDB), com 2,2% dos votos válidos, e o capitão Vinicius de Sousa (Rede), com 2,16% – este, na verdade, numa linha antibolsonarista. A ressalva é que o vice na chapa do prefeito Victor Coelho (PSB), reeleito com ampla votação (53,25%), também vem da PMES: O coronel Ruy Guedes (Podemos).
Saindo do círculo das cidades com mais de 100 mil habitantes, o prefeito de Iúna, Coronel Welinton Pereira (Podemos), não conseguiu se reeleger.
MMMM: MAGNO E MANATO MUITO MAL
As urnas também deram uma resposta muito negativa a dois políticos muito experientes do Estado que, embora não militares, também estão relacionados a esta análise. Estamos falando da dupla “Magnato”. O ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido) e o ex-senador Magno Malta (PL) não foram candidatos pessoalmente nestas eleições. Mas apoiaram muitos nomes, inclusive muitos desses militares. E, acima de tudo, são fiéis praticantes do bolsonarismo, que, repita-se, tem como um dos pilares a militarização da política.
Entre civis e militares, nem Magno nem Manato conseguiu eleger nenhum dos principais candidatos que tiveram o apoio declarado deles na disputa, considerando as maiores cidades do Espírito Santo.
OS CANDIDATOS DE MANATO
Além de Assumção em Vitória e de Assis em Cariacica, Manato apoiou, por exemplo, Vandinho Leite (PSDB) na Serra, Luciano Merlo (Patriota) em Colatina e Jonas Nogueira (PL) em Cachoeiro. Todos perderam.
Mesmo derrotado por Renato Casagrande (PSB) na eleição para o governo do Estado em 2018, o ex-deputado federal e ex-presidente estadual do PSL havia saído daquele pleito com capital político turbinado: além de conseguir eleger a mulher, Soraya Manato (PSL), como sua “sucessora” na Câmara Federal, o seu então PSL fez a maior bancada na Assembleia Legislativa e ele mesmo atingiu votação muito maior do que se esperava na véspera, por pouco não passando para o 2º turno (de novo: efeito da “febre bolsonarista”).
Essa “boa fase” de Carlos Manato claramente acabou. E, agora, com esse conjunto de péssimos resultados colhidos por seus aliados no último domingo, ele volta algumas casas no tabuleiro do jogo político-eleitoral capixaba (cuja chegada deve ser em 2022).
OS CANDIDATOS DE MAGNO MALTA
Quanto a Magno Malta, na fase de definições de chapas e candidaturas, chegou a dizer à reportagem de A Gazeta que, onde o PL não fosse cabeça, seria pescoço. E assim foi. Mas o partido presidido pelo ex-senador no Espírito Santo não elegeu ninguém em nenhuma das maiores cidades capixabas.
Em Vitória, Halpher Luiggi não chegou 1.000 votos (0,58% dos válidos). Em Vila Velha, o PL deu legenda a Wagner Borges, cujo resultado já vimos. Na Serra, também recém-filiado à sigla, Alexandre Xambinho não foi além de 5,62%. O próprio Magno pediu votos expressamente para todos eles, assim como o pastor Silas Malafaia, amigo e aliado dele (também bolsonarista). Em Cariacica, o PL apoiou o Dr. Motta (DC), cuja votação ficou em 4,55%.
Em Cachoeiro, onde começou a vida pública como vereador, Magno perdeu com o vice-prefeito Jonas Nogueira. Em Linhares, a candidata do PL, Renata Nunes, não passou de 4,19%.
A última vela acesa para Magno (uma vela bem potente, a bem da verdade) é a possível eleição do deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) à Prefeitura de Vitória, já que o PL, portanto Magno, está apoiando a vitória do delegado contra João Coser (PT) no 2º turno, ainda que não de modo declarado e formalizado, até para poupar o candidato do desgaste.
OS CANDIDATOS DE EVAIR DE MELO
Outro grande pé-frio nestas eleições municipais foi o deputado federal Evair de Melo (PP), um dos vice-líderes do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados e o mais ardoroso defensor do presidente na bancada do Espírito Santo (ao lado de Soraya Manato).
Evair apoiou muitos candidatos a prefeito, sobretudo no interior, onde tem mais força política (mas, pelo jeito, não muita capacidade de transferir votos). A lista de derrotados que receberam manifestações de apoio do deputado inclui Renata Fiório (PSD) em Cachoeiro, Iracy Baltar (Republicanos) em Montanha, Edimar dos Cavalos (Republicanos) em Santa Teresa, Carlim Kubit (PSB) em Águia Branca, Cimá Fubá (PSDB) em Marilândia, Geovane Meneguelle (Avante) em Anchieta, João Belisário (PV) em Afonso Cláudio, Edson Fosse Bodinho (Republicanos) em Jerônimo Monteiro, e o candidato do partido dele, Pimenta (PP), em Venda Nova do Imigrante. Para todos esses aliados, o deputado chegou a fazer fotos e gravar vídeos com falas de apoio, como provam as publicações nas respectivas redes sociais.
Outros aliados de Evair também foram derrotados nos respectivos municípios, como Edson Marquiori (PSB) em Nova Venécia e Dr. Carlinhos (PROS) em Muniz Freire, além do já citado Coronel Welinton (PV) em Iúna.
OS CANDIDATOS DE MARCOS DO VAL
Como adendo à nossa relação, o senador apoiou publicamente Wagner Borges em Vila Velha e Adilson Avelina (PSC) em Cariacica. Este último é ex-assessor parlamentar de Do Val e obteve 2,75% dos votos válidos, tendo chegado em 11º lugar (na zona de rebaixamento).