Erick não é o candidato de Casagrande à presidência da Assembleia
Disputa no Legislativo
Erick não é o candidato de Casagrande à presidência da Assembleia
Governo trabalha para emplacar ou Marcelo Santos (num acordo com Erick) ou Dary Pagung (numa demonstração de força). De todo modo, não apoia a reeleição do atual presidente
Publicado em 09 de Janeiro de 2021 às 06:05
Públicado em
09 jan 2021 às 06:05
Colunista
Vitor Vogas
vvogas@redegazeta.com.br
Casagrande não apoia reeleição de ErcCrédito: Amarildo
Premissa 1: Erick Musso não é, nem será, o candidato do governo Casagrande à presidência da Assembleia Legislativa, na eleição a ser realizada em 1º de fevereiro. Premissa 2: o governo está convencido de que possui maioria folgada e que, quando chegar a hora certa, conseguirá eleger o seu candidato à presidência da Assembleia (tal como, historicamente, todos os últimos governos fizeram no Espírito Santo desde o primeiro de Paulo Hartung). Somando as duas premissas, a conclusão não pode ser outra: para não dizer que Erick está fora do páreo (o que seria subestimá-lo), diremos que, desta vez, sua reeleição é um projeto muito difícil, caso ele “peite” o governo e insista nisso.
No Palácio Anchieta, a 23 dias da eleição, todos têm certeza da vitória do “candidato oficial”, cabendo dúvida apenas quanto a quem ostentará esse título: Marcelo Santos (Podemos) ou Dary Pagung (PSB). Essa vitória poderá ser do jeito mais fácil (se Erick aceitar o acordo já oferecido pelo Palácio e retirar-se voluntariamente do páreo, abrindo caminho para uma chapa de consenso) ou do jeito mais difícil e politicamente traumático (se ele for para o enfrentamento). Vai depender da disposição do atual presidente, a quem Casagrande já convidou para compor o governo e deseja transformar em secretário de Estado.
Erick tem “base” na Assembleia? Tem sim, é claro que tem. Mas quase todos os deputados “fechados” com ele também fazem parte da base de Casagrande e estão só aguardando o sinal do Palácio Anchieta. Erick tem poder de barganha? É claro que tem. Mas o governo tem mais.
Erick é bem articulado, bem-quisto pela maioria dos colegas, habilidoso no trato com eles e sempre soube fazer muito bem aquele tradicional jogo interno de partilha dos mais de 300 cargos comissionados diretamente vinculados à Mesa Diretora (a ele, no caso). Mas, na mesa de negociação com os deputados, seus trunfos não vão muito além disso. E o governo? Bem, o governo é a máquina. É o orçamento anual de quase R$ 20 bilhões. É quem executa (ou não) as emendas dos deputados, no ano pré-eleitoral (e o foco de quase todos eles já está voltado para a própria reeleição, no ano que vem).
Neste momento, enquanto Casagrande realiza reuniões individuais com cerca de 22 deputados (os 100% integrados à base governista) de modo mais diplomático, seus principais operadores políticos (Davi Diniz entre eles) estão se sentando com quase todos os 30, para ter aquela conversa muito mais prática e pragmática: “A vontade do governo é essa. Do que é que você precisa?”
E, afinal, por que “a vontade do governo é essa”? Por que o governo prefere a não reeleição de Erick Musso? Eu dividiria essa resposta em três fatores.
O primeiro deles é uma questão de confiança. Como já disse à coluna um interlocutor da coluna, a condição sine qua non para o governo é que o próximo presidente do Legislativo estadual seja alguém em quem “o governador possa confiar cegamente”. Marcelo e Dary oferecem isso a Casagrande. Erick também oferece?
Entre colaboradores do governador, ainda paira certa dúvida, não inteiramente superada desde o Novembro Sangrento, em 2019, quando Erick resolveu antecipar em mais de 400 dias exatamente essa eleição interna, em benefício próprio e à revelia do governador, que então protestou publicamente.
De lá para cá, aquela eleição foi revogada, Erick se desculpou com o governador, fez atos públicos de expiação e, efetivamente, foi um grande aliado do governo na presidência da Assembleia, pautando todos os projetos mais importantes, como, bem recentemente, o novo Código de Ética da Polícia Militar. Conforme repete à saciedade, ele tem garantido ao Executivo a estabilidade política para governar e promete seguir fazendo isso. Mas é aquela história: quando você cola um vaso quebrado, a rachadura fica ali para lembrá-lo.
O segundo fator tem a ver com a conjuntura nacional, tendo em vista a eleição geral de 2022. Como já afirmou em entrevistas, para a próxima disputa presidencial, Casagrande defende a tese de lançamento de uma frente ampla e unificada, em torno de uma só candidatura, que enfrente Bolsonaro e o PT e que agregue da centro-esquerda (PSB, PDT etc.) à centro-direita (DEM, PSDB etc.).
Pensando na eleição estadual, Casagrande pretende reproduzir essa ampla frente no Espírito Santo, liderando uma ampla coligação de centro para fazer frente aos candidatos ao governo do Estado que certamente serão lançados aqui pelo PT e pelo bolsonarismo. Para isso, quer atrair, oficialmente, para dentro da sua base e do seu governo, o Republicanos de Erick, partido que cresceu bastante no Estado em 2020. Levando para seu governo o grupo político alojado no Republicanos, Casagrande afasta esse grupo definitivamente do bolsonarismo.
Para levar o Republicanos para o governo, Casagrande oferece a Erick Musso uma secretaria com muitas entregas pela frente (que pode ser a de Esportes, cujo orçamento será turbinado). Mas, para ir para o governo, Erick obviamente tem que aceitar abrir mão da presidência da Assembleia. Senão nada feito.
O terceiro fator é o mais importante: como escrito acima, o Republicanos “cresceu bastante no Estado em 2020”, tendo saltado para 10 prefeituras capixabas, incluindo a mais importante: Vitória, com Lorenzo Pazolini, parceiro de Erick. Casagrande e seus diletos aliados não querem pagar para ver, de jeito nenhum, o Republicanos acumular a Prefeitura de Vitória e o controle da Assembleia Legislativa (como ocorre agora em janeiro, pelo menos por um mês). Isso representaria um “agigantamento” do Republicanos, preocupante para o movimento político liderado pelo governador.
Trata-se, antes de tudo, de uma questão de imagem. Para além de medidas concretas, a política é feita de símbolos e de sinais. Na correlação de forças da política estadual, quando um grupo se fortalece, isso significa que outro grupo se enfraquece na mesma proporção. É como uma grande balança. Assim, se o grupo de Erick, que já saiu fortalecido das eleições de novembro, sair ainda mais forte desse processo eleitoral da Assembleia, o governo Casagrande pode começar a ser visto como um governo politicamente fraco.
Mais ainda porque podemos considerar que o governo Casagrande também foi derrotado por Pazolini (leia-se Erick e o Republicanos) na eleição de Vitória. Ainda que não tenha colocado suas digitais nas candidaturas de Gandini e de Coser, era notória a preferência do governador por esses dois candidatos.
Assim, assumir completamente o controle do Legislativo estadual no 2º tempo do mandato virou questão de honra para o governo Casagrande num momento em que ele precisa dar uma resposta e mostrar força política para o mercado, emplacando o próximo presidente da Assembleia no lugar de Erick, o qual pode ser tanto Marcelo quanto Dary Pagung.
Se Erick se reeleger de novo, sob as barbas de Casagrande e contra a vontade do governador, como é que o Palácio Anchieta vai explicar isso? Em janeiro de 2019, o governador apoiou a primeira reeleição de Erick – ou no mínimo nada fez para impedi-la (o que equivale a um “siga em frente”). Desta vez o sinal é vermelho e o governo não ficará passivo – ou melhor, já não está. Os deputados da base só esperam para ver para onde o governador vai soprar.
Se for para Marcelo, é sinal de que os dois lados desta história terão chegado a um entendimento. O atual vice-presidente da Assembleia é uma solução conciliatória, pois, embora muito leal a Casagrande, é um deputado com maior autonomia que Dary e, o que é mais importante, também muito próximo a Erick Musso. Já se o escolhido for Dary, atual líder do governo e deputado altamente subordinado ao Palácio Anchieta, não caberá a menor dúvida: será o governo dando ao mercado político uma demonstração de força.
Nessas rodadas de negociação da Casa Civil com os deputados, além dos já citados cargos e emendas, entra também um fator novo, inédito para os deputados estaduais que tentarão a reeleição no ano que vem: o fim das coligações nas eleições de deputados. Pela primeira vez, eles buscarão se reeleger sem a possibilidade de formar coligações. Na prática, isso dificulta muito a vida dos muitos que são “ilhas de votos” dentro do próprio partido.
Exemplo claro, só para ilustrarmos a ideia: Janete de Sá.
Reeleita há muitos mandatos, Janete é a “dona” do nanico PMN no Espírito Santo, mas é a única que tem votos na sigla. Até hoje, com sua votação média boa (mas nada extraordinária), ela tem conseguido se eleger graças à ajuda dos votos dos candidatos de outras siglas que se coligam com o PMN. Mas sozinho, hoje, sem outros puxadores de voto, o PMN dificilmente atingiria o quociente eleitoral, de tal modo que Janete, mesmo sendo bem votada individualmente, ficaria de fora da Assembleia.
Como é que, no ano que vem (mas firmando compromisso desde já), o governo Casagrande poderá ajudar Janete e tantos outros deputados em situação parecida? Ajudando-os, com a influência do governo e o baralho de partidos que compõem a coalizão governista, a criar para cada um as condições mais favoráveis para ele ou ela se reeleger, seja ajudando o(a) deputado(a) a montar uma chapa forte no próprio partido, seja acomodando-o(a) em outra legenda governista onde ele(a) encontre mais chances de êxito nas urnas.
Sem influência sobre outras siglas, Erick não tem isso a oferecer.
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo