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Plenário renovado

Esquerda x Direita: a divisão e as disputas na nova Câmara de Vitória

Muito quentes, as primeiras sessões de 2021 deram um belo indicativo do que podemos esperar dessa Câmara renovada pelos próximos anos: muita disputa e uma clara divisão com corte ideológico entre vereadores de polos antagônicos

Publicado em 10 de Janeiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

10 jan 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

A nova Câmara de Vitória
A nova Câmara de Vitória Crédito: Amarildo
A segunda sessão extraordinária da Câmara de Vitória, na última segunda-feira (4), foi aberta com a leitura de um salmo da Bíblia pelo vereador Armandinho Fontoura (Podemos): “Eu, porém, como um surdo, não dou ouvidos. E, como um mudo, não abro a boca. Amém”. Mas ninguém ali começou o ano e o mandato disposto a se fazer de surdo não, muito menos a permanecer mudo. Muito quentes, as sessões convocadas para a votação da reforma da Previdência municipal deram um belo indicativo do que podemos esperar dessa Câmara renovada pelos próximos anos. Muita disputa e uma clara divisão com corte ideológico (algo inexistente na legislatura passada).
De um lado, as vereadoras bem de esquerda e de oposição ao governo Pazolini: Karla Coser (PT) e Camila Valadão (PSOL); do outro, vereadores bem de direita e apoiadores de Pazolini, como Luiz Emanuel Zouain (Cidadania) e Gilvan do Patriota.
A divisão emana dos discursos. Gilvan tem subido assiduamente à tribuna e fala sim, fala também, refere-se criticamente a “esse pessoal do PT e do PSOL” (quase sempre assim mesmo, com essa expressão), como se os dois partidos fossem, por assim dizer, “uma coisa só”. Também tem afirmado a todo instante que “esse pessoal do PT e do PSOL” é “do contra” e só procura “criar divisão”. Cabe aqui uma ponderação:
No plano político-ideológico, a divisão já existe, já está posta, já está estabelecida no plenário a partir do momento em que eles foram eleitos. É um fato, um fato natural, próprio do Parlamento e não necessariamente ruim, aliás pelo contrário. Os dois lados representam pensamentos, bandeiras e até visões de mundo completamente diferentes. Estranho seria se todos os 15 vereadores pensassem igual e votassem sempre juntos.
A “divisão”, nesse sentido, quando no campo das ideias e do Parlamento, não representa propriamente um problema, mas algo não somente salutar como natural à atividade política e ao exercício da democracia em qualquer casa parlamentar. É das posições divergentes e do confronto de ideias que costumam nascer os consensos, bem como as melhores soluções.
Isso, é claro, a depender das reais motivações dos vereadores em questão. Se ficarem só naquele debate raso “direita boa, esquerda ruim” e vice-versa, serão quatro anos só dessa arenga ideológica, e logo isso vai cansar a todos. Se só quiserem discordar por discordar e se o tensionamento for um fim em si mesmo, ficarão quatro anos dançando em círculos no plenário.
Mas, se levarem a discussão para um bom nível, de disputa de argumentos, programas e ideias relacionados aos temas em debate, coisas boas e quem sabe interessantes poderão surgir desse “choque” entre Gilvan, Camila e companhia no novo plenário.
Para isso, é preciso maturidade política das duas partes.

“ESQUERDA” É UMA COISA SÓ?

Sobre o “pessoal do PT e do PSOL”, vale lembrar que dentro do campo da esquerda há profundas diferenças, assim como dentro do hemisfério político direito (Paes não vai com Crivella, que não vai com Maia, que não vai com Bolsonaro, que não vai com Doria, que não vai com Zema, e por aí vai…).
PSOL e PT nutrem divergências, tanto que nem sequer se coligaram na eleição a prefeito de Vitória em 2020. E tanto que o PSOL na verdade nasceu em 2004 de uma dissidência do PT, formada por uma ala que não aceitava a política econômica austera e nem um pouco “socialista” do governo Lula sob o comando de Antonio Palocci (PT).
Não existe essa unidade, ou seja, PT e PSOL não são uma coisa só, assim como a “esquerda” não é uma coisa só. Seria mais ou menos, por exemplo, como aglutinar o tempo todo “o Gilvan e o Leandro Piquet” só porque os dois são de direita, ou “esse pessoal do Patriota e do Republicanos”, invertendo-se a valência. Os dois vereadores e as duas siglas são de direita, mas certamente mantêm diferenças entre si. 
Da mesma forma, é interessante notar como os 13 vereadores do sexo masculino têm tratado em plenário as duas colegas em geral com deferência, mas também como se estivessem sempre “juntas”, citando uma sempre acompanhada da outra, provavelmente por serem as duas únicas mulheres em plenário. Karla chegou a chamar a atenção para isso logo após a posse, no dia 1º: diplomática, disse ser legal esse reconhecimento da presença feminina pelos pares, mas que gostaria que as duas fossem vistas e tratadas na individualidade de cada uma.

LUIZ EMANUEL: "DEFENESTRADOS"

À parte os embates com Gilvan, o discurso mais duro endereçado a Camila e Karla durante a votação da Previdência na verdade partiu de Luiz Emanuel Zouain (Cidadania). O ex-líder de Luciano em plenário foi meio ambíguo, aliás: chegou a fazer elogios às duas e enalteceu o papel democrático a ser desempenhado pela oposição nesse novo plenário (o que, segundo ele, fortalecerá a Câmara e as decisões ali tomadas); mas também fez uma fala que chegou muito perto de tripudiar de ambas, ou que, pelo menos, foi assim interpretada por muitos:
“Aqui é assim: na democracia, quem ganha governa e quem perde faz oposição. E, dentro do Parlamento, tem uma lógica: ganha a maioria. [...] Em muitos momentos nós podemos estar coincidindo com os nossos pensamentos e votando juntos. Nesse caso não tem jeito. Só faltava agora o prefeito eleito ter que pedir ao PSOL e ao PT uma informação sobre o que ele deveria fazer neste momento. Isso não procede. Vocês acabaram de perder a eleição, pô…. Foram defenestrados nas urnas. Não tem cabimento pedir isso aí.”
Com todo o devido respeito ao muito preparado e experiente vereador, que adentra o seu terceiro mandato, o uso do verbo “defenestrar”, além de exagerado, parece-me incorreto nesse contexto. Defenestrar (do francês fenêtre e do italiano finestra) significa, literalmente, atirar alguém pela janela, uma prática que remete à Idade Média. Olha, para alguém poder ser defenestrado, essa pessoa precisava se encontrar no recinto, no cômodo, na “torre” etc.
Ora, quem estava na “torre de comando” em Vitória não era o PSOL nem o PT nem João Coser, mas o grupo político do próprio Luiz Emanuel, com Luciano Rezende, Gandini etc. Até abril de 2020, Luiz foi secretário de Meio Ambiente de Luciano.
Por sinal, Luiz Emanuel, Denninho e todos os vereadores do Cidadania embarcaram na campanha de Pazolini apenas no curtíssimo 2º turno de duas semanas, contra Coser (e certamente o ajudaram, mas aí, convenhamos, Pazolini já era o favorito, até por sua maior votação no 1º turno). Neste, Gandini é quem foi o candidato de Luiz Emanuel, Denninho, Maurício Leite (Cidadania), Dalto Neves (PDT) e tantos outros que se realinharam com Pazolini no 2º turno e que assim se posicionam hoje na Câmara.
Não é demais frisar isto: o candidato da situação, de Luciano, de Luiz Emanuel e do Cidadania, com toda a máquina na mão, não chegou sequer ao 2º turno. E nem por isso está se ouvindo alguém dizer que os eleitores de Vitória “defenestraram” Luciano, Gandini, o Cidadania etc.
Então...

CONTRADIÇÕES NA BANCADA DO CIDADANIA

A propósito, um detalhe que tem chamado a atenção geral é como os vereadores do Cidadania têm se portado como sócios majoritários da candidatura de Pazolini e entre os “grandes vencedores”, ao lado dele, da eleição majoritária em Vitória (o que é bastante questionável, já que estiveram no 1º turno com Gandini, precisamente o maior adversário de Pazolini no pleito).
Isso tem gerado algumas grandes contradições, a exemplo do que se viu no pronunciamento de Denninho logo após a posse, no dia 1º de janeiro: “Não adianta querer falar mal de Pazolini, como falaram. Tentaram falar que ele era do crime organizado. Não adianta ir com essa política nojenta, passada e ultrapassada”, disse ele, em tom de desabafo.
Ok, mas quem passou quase todo o 1º turno associando Pazolini a José Carlos Gratz e ao crime organizado não foi outro senão Gandini, o candidato de Denninho e do Cidadania, com uma insistência que beirou a obsessão – diga-se de passagem, uma estratégia de campanha claramente forçada e equivocada, que o eleitorado não “comprou” e na qual Gandini se excedeu. Não só errou como insistiu no erro de estratégia (um dos maiores de sua campanha) quando já estava claríssimo para todos que isso não havia colado.
Dessa forma, a "política" tachada por Denninho com os adjetivos que ele usou foi adotada pelo partido dele mesmo e por seu candidato original. E, se Gandini tivesse ido ao 2º turno no lugar de Coser contra Pazolini, é lógico que os vereadores do Cidadania teriam permanecido com Gandini, endossando tacitamente esse discurso. 
Então…

NEM SEMPRE “DO CONTRA”

Talvez numa demonstração de boa vontade e num sinal de que não pretende mesmo fazer oposição sistemática e incondicional, após ter votado contra a reforma da Previdência, Karla Coser votou a favor do projeto de Pazolini que extinguiu 90 cargos comissionados e elevou o salário dos subsecretários municipais. Camila Valadão votou não, alegando, novamente, falta de tempo para o devido debate.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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