Por mais que evite, desde que se
lançou pré-candidato a governador, dar a si mesmo uma definição ideológica,
Ricardo Ferraço (MDB) pode tranquilamente, por sua própria biografia, ser
considerado um político de direita. Não tem nada de esquerda, muito menos que o
vincule ao PT. Ao contrário, alguns militantes mais apaixonados do PT poderiam
até considerá-lo um antipetista.
Como governador, preferiu não ter o
PT em seu governo. Como candidato a governador, preferiu não ter o PT em sua
coligação.
No começo deste ano, ainda como
presidente do MDB no Espírito Santo, assinou uma carta, com outros presidentes
estaduais, pedindo à direção nacional para liberar os diretórios nos estados
para cada um poder decidir sua posição na eleição presidencial. Foi um
manifesto contra a verticalização. Nacionalmente, o MDB acabou se mantendo
neutro, não entrando na coligação de Lula e de nenhum outro candidato à
Presidência – o que facilitou as coisas para Ricardo.
Pouco antes de ele tomar posse no
lugar de Casagrande, no dia 2 de abril, a Executiva Estadual do PT, que
estivera nos primeiros escalões do governo do PSB, decidiu não participar do
governo de Ricardo. Assim, também facilitou a vida do governador entrante, que
tampouco fazia questão de ter o PT em seu governo. Resolveu-se um problema para
as duas partes.
No fim de maio, quando o presidente
Lula esteve em solo capixaba – para um evento do Ministério da Cultura em
Aracruz –, Ricardo, após certa relutância, até foi ao encontro do presidente.
Limitou-se, porém, a recebê-lo protocolarmente no Aeroporto de Vitória. E nem
sequer houve registro fotográfico do breve e frio encontro.
O fogo cruzado
com Helder
Agora, durante a campanha a
governador, o genuíno candidato do PT, Helder Salomão (atrás de Ricardo,
segundo a Quaest, entre os lulistas e a esquerda não lulista) não se tem feito
de rogado. Criticando Ricardo em sabatinas, debates e na propaganda eleitoral,
o deputado federal tem apresentado o emedebista como uma espécie de “inimigo
dos trabalhadores”.
No debate A Gazeta/CBN Vitória, por
exemplo, no último dia 22, Helder lembrou, logo no primeiro embate entre ambos,
que Ricardo foi o relator da reforma trabalhista do governo Temer (MDB) no
Senado, em 2017, e o acusou de ter permitido que trabalhadoras lactantes
amamentassem em ambientes insalubres, ao rejeitar emenda ao projeto.
Ricardo não mordeu a isca: na
resposta, passou longe de responder sobre a reforma trabalhista. Não pode
desagradar aos eleitores de esquerda.
Ao mesmo tempo, Helder tem acusado
Ricardo de “esconder” não só Lula (como no episódio da visita em maio) como os
feitos do governo do PT em benefício do Espírito Santo, desde a (realmente
importantíssima) antecipação de royalties de petróleo no primeiro ano do
primeiro governo Lula, em 2003, para que o Governo do Estado pudesse honrar a
folha de pagamento atrasada.
Helder também tem dito que, se
Ricardo e Lula forem reeleitos, o primeiro vai isolar o Espírito Santo,
com sua postura refratária ao PT. Ricardo responde que não fará oposição ao
presidente, quem quer que seja eleito.
Em debate anterior, promovido por
outra emissora, Helder foi um pouco além: sugeriu envolvimento de Ricardo na
crise financeira da Apex Partners, chamando o caso de “Master Capixaba”. Na
resposta, o governador também pode ter passado um pouco do ponto, para alguém
que precisa dos votos da esquerda: disse a Helder que o governo do partido dele
é que entende do assunto, pois “está todo enrolado no caso Master”...
E é nessa linha muito tênue que
Ricardo e Helder agora precisam se equilibrar...
Helder não pode exagerar na
artilharia contra Ricardo, pois isso, em última análise, pode beneficiar
indiretamente Pazolini não só no 1º como até no 2º turno (afinal, o print e a imagem são eternos...).
E, no 2º turno, do ponto de vista do
PT, acredito que a reeleição de Ricardo soe “menos ruim” que eventual chegada
do bolsonarismo ao Palácio Anchieta, na esteira de Pazolini.
Por sua vez, Ricardo não pode
exagerar nos contra-ataques a Helder e ao PT, pois isso poderá afugentar
eleitores dos quais ele muito necessita agora no 1º turno e necessitará mais
ainda no 2º.
O que os dois
lados farão?
Em caso de confirmação do 2º turno
entre Ricardo e Pazolini, será muito interessante observar os movimentos a
serem realizados logo nos primeiros dias. A Quest indica que, a priori, a
maioria dos eleitores de Lula e de Helder tendem a migrar para Ricardo... mas
isso não é ciência exata.
Também será interessante observar se
Helder e a direção estadual do PT farão anúncio oficial de “apoio crítico” a
Ricardo, por rejeição a Pazolini, ou se apenas “liberarão” a militância.
Mais importante ainda: será preciso
observar se Ricardo aceitará ou mesmo se buscará algum tipo de apoio formal do
PT, ou se apenas acenará para o eleitorado de esquerda, esperando que este se
desloque naturalmente para o seu lado.
É delicado para ele tomar qualquer
iniciativa nesse sentido, pois aí poderá desagradar a seus eleitores de
direita... Mas, em sua sabatina para A Gazeta e CBN Vitória, o governador entreabriu uma porta para receber e "agradecer" um possível apoio do PT.
Por fim, será muito importante o peso
que a disputa nacional poderá jogar na estadual, em caso de confirmação também
de um 2º turno entre Lula e Flávio. Nesse caso, Ricardo não será o candidato de
Lula (nem de nenhum candidato à Presidência), enquanto Pazolini será oficialmente
o de Flávio.
A ver também, é claro, se Pazolini assumirá essa condição, passando a usar de verdade a carta Flávio e sua aliança com o PL na campanha.
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