Em Vitória, a segurança pública já seria, naturalmente, um tema muito importante no debate eleitoral. Ganhou ainda maior importância a partir dos recentes episódios que aumentaram a sensação de insegurança na cidade, como a chacina que vitimou quatro jovens em uma ilha da Baía de Vitória, na região de Santo Antônio, no último dia 28, e a execução de duas pessoas, dentro de um carro, no Centro, em plena luz do dia, na tarde do último domingo (4).
De algum modo, os planos de governo dos 13 candidatos a prefeito, apresentados à Justiça Eleitoral, tocam no assunto segurança pública, dedicando maior ou menor espaço. O de Fabrício Gandini (Cidadania) chama a atenção em relação aos demais por dois pontos: além de ser o que dedica o maior espaço ao tema (17 páginas com ações detalhadas), o programa de governo do deputado é o único que estabelece, de saída, metas numéricas de redução da violência urbana. E não são metas quaisquer.
Basicamente, Gandini entra na campanha prometendo reduzir pela metade todos os crimes comuns, incluindo homicídios, nos próximos quatro anos. “Sim. É uma promessa de campanha”, confirma o candidato, em entrevista à coluna.
De fato, logo na primeira página do capítulo Segurança, o leitor encontra três compromissos de campanha. Os dois primeiros são reduzir à metade, em um intervalo de quatro anos, os crimes contra o patrimônio e contra os costumes na cidade. A terceira meta é ainda mais específica: reduzir o índice de homicídios em Vitória dos 19,7 por 100 mil habitantes registrados em 2019 para menos de 10 por 100 mil habitantes até o fim de 2024. Tudo assim: “Estamos hoje em X, vamos chegar a Y até o fim do mandato”.
Por um lado, Gandini mostra ousadia, planejamento e comprometimento. Por outro, a estratégia é altamente arriscada, para não dizer suicida. Politicamente, o candidato pode estar criando uma armadilha para si mesmo, uma vez que essa promessa tão específica pode se voltar contra ele em caso de não cumprimento.
Se Gandini se eleger, a imprensa e a população cobrarão o atingimento dessas metas do dia 1 de governo até o último. E ele terá que responder se eventualmente não as atingir, por qualquer que seja o motivo. Na verdade, não faltam fatores que podem conspirar contra isso, incluindo alguns imponderáveis, que não podem ser controlados por nenhum prefeito do Brasil.
Exatamente por isso, candidatos em geral costumam fugir de metas numéricas em planos de governo (como os demais, nesse caso, em Vitória). Gandini, porém, mostra segurança (sem trocadilho) na matéria: “É totalmente factível”. Confira suas explicações nesta entrevista exclusiva:
Suponho que esses números não tenham sido lançados no papel aleatoriamente. Como o senhor chegou a eles?
Em todo plano, quando é bem estruturado – e eu venho dessa área, de gestão –, você coloca ações para atingir alguma meta. É óbvio isso, mas nem todos têm o costume de estruturar isso de forma correta. Já fizemos o plano dentro de uma construção metodológica que vai nos permitir já chegar jogando. Quem assumir a Secretaria de Segurança já vai entrar sabendo como proceder: quais são as metas e quais as ações para chegar a elas. Nos últimos oito anos, percebemos que houve uma redução de 33,9 homicídios por 100 mil habitantes em Vitória para 19,7 em 2019, que é a nossa referência. Antes da greve da Polícia Militar [em fevereiro de 2017], esse índice na cidade já chegou a 16. Esperamos que 2020 fique perto disso. Então é totalmente factível levar Vitória a uma meta ousada, pois formulamos diversas ações com as quais acreditamos que vamos conseguir atingir essas metas. Na verdade, a grande meta é tornar Vitória a capital mais segura do Brasil.
O senhor se compromete, de fato, se for eleito, a transformar Vitória na capital mais segura do Brasil em apenas quatro anos? Na prática, o que isso significa em termos estatísticos?
Esse é o meu propósito. Hoje temos São Paulo como a capital mais segura do país. Mas na realidade eles estão subindo, enquanto nós estamos descendo. São Paulo já foi mais segura. E não estou falando em Vitória ser a capital mais segura baseado no número de homicídios nas outras cidades crescer. Estou falando baseado na gente diminuir o nosso número para menos de 10 por 100 mil habitantes em Vitória. Essa é minha meta.
Como o senhor mesmo diz, é uma meta ousada, para dizer o mínimo. O senhor está basicamente falando em reduzir à metade os índices de todos os tipos de crimes comuns na cidade, tomando 2019 como ano-base, em um intervalo curto, de quatro anos. O senhor considera realmente que se trate de metas realistas e alcançáveis?
Totalmente.
E o que o leva a ter tanta certeza?
É porque houve um avanço muito grande de tecnologia. Quando estive na Secretaria de Gestão, Planejamento e Comunicação, estive à frente de um movimento que culminou com a instalação do Cerco Inteligente em Vitória. As pessoas acham que o Cerco Inteligente é um mecanismo para recuperar carro. E não é. É um mecanismo para evitar o crime, tanto que a gente começa a ter uma diminuição muito grande do roubo de veículos na cidade, mas isso também ajuda a impedir diversos outros crimes que são motorizados. Nós temos agora, numa segunda onda de tecnologia que queremos implantar na cidade, a possibilidade de avançar para outras ações super importantes. A principal ação de prevenção é a criação de um sistema de informações para entender as vulnerabilidade das pessoas. Em médio prazo, vamos começar a colher efeitos disso. Temos informações da rede de saúde, da rede de educação, da rede de assistência social, temos diversos dados públicos disponibilizados pela Secretaria de Estado de Justiça. Nós temos inúmeras informações. Quando começamos a cruzar isso tudo e a criar um mecanismo de inteligência artificial, conseguimos descobrir onde está a maior vulnerabilidade, onde há uma criança ou uma mulher, por exemplo, que está sofrendo algum tipo de violência. E, com inteligência, acredito que vamos conseguir reduzir muito esses crimes. Me arrisco a dizer que vamos conseguir até mais. Nos quatro anos, a gente consegue. Outra ação muito forte que faremos são as câmeras que vamos utilizar para reconhecimento facial, para identificação de armas, e também integrar as câmeras particulares à rede pública. Então isso tudo vai criar uma grande rede de informações que vai nos ajudar muito a reduzir todos esses tipos de crimes na cidade. Estou propondo uma rede de proteção fantástica com informação.
Certo. Mas, se o senhor for eleito, por melhor que seja o trabalho da prefeitura nessa área nos próximos quatro anos, a redução dos índices de violência também estará sujeita a múltiplos fatores externos, alguns deles imponderáveis, como a situação econômica estadual, uma crise na economia nacional que gere uma onda de desempregados, o próprio grau de eficiência do trabalho da PM, que não estará subordinada ao senhor, mas ao governo do Estado... Como o senhor pode garantir o cumprimento dessas metas levando em conta essa gama de fatores que não estarão sob o seu controle?
Primeiro, eu tenho certeza que nós teremos um diálogo muito forte com o governo estadual. Isso é uma garantia que talvez nem todos os candidatos possam apresentar. A boa relação com o governo estadual está garantida. Em relação à economia, eu não vejo conexão direta entre crise econômica e violência, até porque nesse caso os nossos dados de violência estariam aumentando desde 2013. E, na verdade, estão diminuindo: de 33 para 16 por 100 mil habitantes hoje, é uma grande diminuição. Acho que essa rede, protegendo as nossas crianças e adolescentes, disputando eles com o crime nas áreas de maior vulnerabilidade, além de uma série de outras ações, como 100% de ensino em tempo integral nessas áreas, urbanismo inteligente, iluminação pública com luz branca, ocupação dos espaços públicos... Enfim, não é uma ação única, mas tudo isso vai nos permitir chegar a esse número, que é totalmente factível. Eu estou falando de 19 assassinatos por 100 mil habitantes tomando por base 2019. Mas, se fecharmos o ano com 15, essa meta fica ainda mais factível.
Então, de modo bem direto, o senhor está mesmo se comprometendo a atingir isso?
Estou.
É uma promessa de campanha?
É uma promessa de campanha. E tudo isso está dentro do meu conceito maior, que é transformar Vitória na melhor cidade para se viver no país. Estamos entre as primeiras, mas segurança é um dos itens básicos para atingirmos a meta final do plano.
A partir do momento que o senhor coloca no papel um número a ser atingido e reforça isso como compromisso de campanha nesta entrevista, o senhor tem consciência de que, se vencer a eleição, será cobrado pela imprensa e pela população a atingir esses números do 1º ao último dia de governo?
Claro! Nós vamos trabalhar para ela acontecer e, se possível, antes do fim dos quatro anos. Essa e com certeza uma ação prioritária do meu governo. O problema das eleições no nosso país é que os candidatos têm que apresentar um plano de governo à Justiça Eleitoral, mas um plano sem metas é muito inconsistente. Quando apresentamos um plano com metas, você pode até discutir se a meta é factível ou não. O problema é apresentar um plano sem metas.
Por outro lado, a razão pela qual candidatos costumam fugir de metas objetivas nos respectivos planos de governo é muito clara: isso pode se voltar contra eles, a depender da evolução do quadro. O senhor não teme estar montando uma armadilha política para si mesmo? Não teme frustrar a expectativa do eleitor, caso a promessa não seja cumprida e a meta não seja atingida em quatro anos?
Estou me preparando para este momento desde 1997. Fiz formações diversas, cheguei agora ao doutorado, tenho um conhecimento profundo da cidade, dos números da cidade, do que está disponível em tecnologia e do que pode ser complementado. Então, me sinto extremamente preparado para esse desafio. Então eu não me conformaria em fazer um plano água com açúcar. Não consegui fazer algo mais ou menos para apresentar à sociedade. E quero me destacar pelo plano. Fizemos uma discussão ampla com a cidade, discutimos esse número. Temos que ter compromisso. Você pode ter certeza: essa meta não tem nenhuma semelhança com nenhum metrô de superfície nem nada nesse estilo.