Atrás de cada candidato a senador, há um primeiro e um
segundo suplente. A importância dessas posições na chapa é diretamente
proporcional à desatenção que elas em geral despertam. Mas elas importam, ô, se
importam... Se o senador eleito não puder cumprir até o fim o longo mandato de
oito anos (em caso de morte, afastamento, eleição para outro cargo etc.), é
ele, o suplente, quem assume um lugar no Senado Federal, sem ter recebido um só
voto dirigido à sua pessoa.
Candidatíssimo à reeleição pelo PT, o senador Fabiano
Contarato está com a escolha da sua primeira suplente muito bem encaminhada. Segundo
dirigentes do partido ouvidos pela coluna, a tendência é que a escolhida seja a
também petista Evani dos Santos Reis. Profissão: gari.
Sem nunca ter disputado um mandato eletivo, Evani é uma
completa desconhecida pelo eleitorado capixaba, mas não pelos profissionais do
seu ramo, que a chamam pela alcunha de Baiana.
Ela é a presidente do Sindilimpe-ES, o sindicato que reúne,
no Espírito Santo, trabalhadores de empresas prestadoras de serviços de limpeza
urbana a privada, além de jardineiros, coletores, auxiliares de serviços
gerais, porteiros e recepcionistas – todas, profissões de baixa remuneração.
Mulher e negra, Evani é descrita como alguém com espírito
combativo, bastante atuante na defesa dos interesses da categoria representada
por ela, como melhores salários e melhores condições de trabalho. Combinados, todos
esses atributos contaram para o fortalecimento do nome da sindicalista nas
conversas internas, travadas nos últimos dias entre dirigentes petistas.
No dia 11 de maio de 2026, Evani chegou a ser detida pela
Ronda Ostensiva Municipal (Romu) da Guarda Municipal de Vila Velha, cidade onde
vive, durante uma manifestação pacífica de trabalhadores terceirizados da
limpeza pública e coleta de lixo no pátio de uma empresa do setor, sob a
alegação de crime de desacato.
Ela foi liberada no mesmo dia, e a prisão rendeu uma enxurrada de notas de repúdio de entidades sindicais e de defesa dos direitos dos trabalhadores, que falaram em truculência e abuso de autoridade.
Caminho livre (e
limpo) para Evani
Em reunião do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT na
última terça-feira (14), o nome de Evani ganhou força para ser indicado pela
direção estadual do partido.
A indicação tende a ser referendada na próxima segunda-feira
(20), em reunião da Executiva Estadual do PT com o GTE. Hoje, Evani não tem
concorrência interna: é o único nome aventado pelo partido para a vaga de
substituta imediata de Contarato no Senado de 2027 em diante, caso o senador
petista se reeleja.
O PT na verdade faz parte da Federação Brasil da Esperança
(Fe Brasil), também composta pelo Partido Verde (PV) e pelo Partido Comunista
do Brasil (PCdoB). Contarato é o candidato ao Senado dessa federação. Mas o PT
faz questão de preencher também a primeira suplência na chapa do senador.
Internamente, Evani pertence à corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), a mesma do presidente Lula. No Espírito Santo, é a corrente da deputada federal Jack Rocha e do ex-secretário estadual de Esportes José Carlos Nunes. A CNB tem fortes vínculos com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), à qual é filiado o Sindilimpe-ES, e com o movimento sindical de modo mais amplo.
Precedentes
Se há quem eventualmente duvide da importância do posto de
suplente, basta lembrarmos, por exemplo, o caso de Ana Rita Esgário (PT).
Primeira suplente de Renato Casagrande (PSB) na eleição de 2006, a assistente
social assumiu a vaga dele em janeiro de 2011, com a eleição do então senador
para seu primeiro mandato no governo do Espírito Santo. A petista foi senadora da
República por quatro anos, até janeiro de 2015.
De 2017 para 2018, na reta final do mandato do então senador
Ricardo Ferraço (hoje no MDB, então no PSDB), o atual governador do Estado
tirou uma licença não remunerada para se reaproximar de suas bases, pensando na
própria reeleição (não lograda por ele naquela oportunidade). Naqueles meses,
Ricardo foi substituído pelo seu primeiro suplente, o empresário Rogério de
Castro (que era do PDT).
De igual modo, o empresário Luiz Osvaldo Pastore, suplente de Rose de Freitas (MDB), chegou a ser senador da República por alguns meses, tendo substituído a titular do mandato durante licenças médicas da então senadora. Eleito como suplente na chapa de Rose em 2014, Pastore era um empresário com negócios em São Paulo. Naquele pleito, foi um dos financiadores da campanha de Rose (doações eleitorais de empresas ainda eram permitidas). Não tinha ligação alguma com o Espírito Santo e com a pauta capixaba no Senado.