O ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas voltou oficialmente para o PSDB nesta semana, por determinação expressa do presidente nacional do partido, Bruno Araújo. Antes disso, a (re)filiação de Luiz Paulo havia sido literalmente barrada pela Executiva da legenda em Vitória – presidida pela vereadora Neuzinha de Oliveira e ligada ao presidente estadual do PSDB, o deputado estadual Vandinho Leite. O veterano tucano, então, voou por cima da cabeça dos dirigentes locais e garantiu seu retorno via Brasília. Isso a três dias do fim do prazo para filiação de quem quer ser candidato nas eleições municipais de outubro (hoje).
Luiz Paulo volta ao PSDB dizendo que quer se candidatar a prefeito da Capital de novo (seria a 4ª vez). Tanto a afirmação como a data em que ele faz tal movimento sinalizam mesmo essa intenção. Minha tese é outra, porém. Posso estar enganado, mas tenho para mim que Luiz Paulo dificilmente será mesmo candidato a prefeito. Minha apuração indica que ele volta ao ninho agora para cumprir um propósito mais complexo.
Acho difícil a candidatura de Luiz Paulo não só pelas complicações jurídicas – condenado em 2º grau numa ação, ele tenta reverter a sentença no STJ, mas, mantida a situação atual, pode perfeitamente ter a candidatura barrada pela Justiça Eleitoral caso peça registro em agosto, em virtude da Lei da Ficha Limpa. Mas há outro fator: reconhecido por seu conhecimento técnico e sua capacidade de formulação política, Luiz Paulo, há muitos anos, demonstra estar “em outra vibe”, cansado daquela coisa de pedido de votos e tapinhas nas costas.
Em 2016, ele retirou a pré-candidatura para apoiar Luciano Rezende (contra o grupo de Paulo Hartung). Em 2018, já no Cidadania de Luciano, até se candidatou a deputado federal, mas teve baixa votação. Integrado ao polo político capitaneado pelo governador Renato Casagrande (PSB) – e do qual também faz parte o Cidadania, onde ele estava –, assumiu em 2019 a presidência do Instituto Jones dos Santos Neves, cargo do qual acaba de ser exonerado, para se manter apto a lançar candidatura.
As respostas sobre os porquês de Luiz Paulo me parecem passar muito mais por este fator: onde se posiciona o ex-prefeito, hoje, na “geopolítica estadual” (termo, por sinal, cunhado por ele próprio, em entrevista dada há mais de dez anos)? E onde (pelo menos até seu retorno) está o PSDB estadual, sob a direção de Vandinho?
Luiz Paulo atualmente é do grupo que agrega Casagrande e Luciano, grupo esse que tem pelo menos dois pré-candidatos a prefeito: o deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) e o vice-prefeito Sérgio Sá (PSB). Não se pode excluir dessa conta Sergio Majeski, que, pelo menos por ora, continua filiado ao PSB e tecnicamente habilitado a disputar essa eleição pelo partido do governador.
Luiz Paulo tem excelente relação com Majeski. Foi por intermédio dele que o então professor de Geografia filiou-se ao PSDB anos atrás, para chegar a seu primeiro mandato na Assembleia, na eleição de 2014. O ex-prefeito, inclusive, chegou a tentar convencer Majeski a voltar ao PSDB agora com ele para buscar viabilizar candidatura a prefeito de Vitória pelo partido. Majeski não topou, entre outros fatores, justamente por causa de Vandinho (os dois se odeiam).
Já Vandinho situa-se, hoje, num campo político praticamente oposto ao de Luiz Paulo. Na Assembleia, pratica oposição sistemática ao governo Casagrande, em parceria fina com outros dois deputados que são pré-candidatos a prefeito de Vitória: Capitão Assumção (recém-filiado ao Patriotas) e Lorenzo Pazolini (recém-filiado ao Republicanos). É nesse outro polo que está Vandinho e, com ele, o PSDB da Capital. Sob sua influência, o partido em Vitória jamais apoiará um candidato que faça parte do movimento político de Casagrande e/ou de Luciano. Ao contrário.
Vandinho hoje trabalha com duas possibilidades. A primeira, bem menos provável, é lançar Neuzinha no 1º turno, com perspectiva de apoiar Pazolini no 2º. A segunda é já apoiar no 1º turno Pazolini – com quem tem estreita relação pessoal, independentemente do recente desentendimento que ele teve com Amaro Neto (também do Republicanos), devido à decisão do deputado federal de se deslocar oficialmente para o território eleitoral da Serra.
No entanto, esses planos podem mudar com Luiz Paulo de volta com tudo à política interna do PSDB do Estado e, particularmente, de Vitória. Com sua história no partido, suas credenciais de prefeito por dois mandatos e sua ponte direta com o tucanato em Brasília (melhor que a de Vandinho, mais conectado com João Doria), é provável que ele trabalhe, internamente, para promover, no mínimo, uma disputa de teses.
Pragmaticamente, o que isso significa? Não ficar de braços cruzados assistindo ao “seu” PSDB ir, sem questionamentos, para os braços de Pazolini. Provocar um debate na convenção. Se for necessário lançar candidatura própria, o ex-prefeito é capaz até de ir para o sacrifício (como já foi, por exemplo, na eleição ao governo do Estado em 2010).
Mas também é possível que ele trabalhe internamente para “puxar” o PSDB para outra coligação que não a encabeçada por Pazolini. Pode ser uma daquelas identificadas com a aliança PSB/Cidadania (leia-se com o governo Casagrande). Ou, em última análise, pode até ser a de Majeski (que continua no PSB, ainda que mais independente do governo).
Em resumo, Luiz Paulo pode acabar ajudando o Palácio Anchieta no processo eleitoral em Vitória, cumprindo, para o governo Casagrande e para si mesmo, um papel estratégico: bloquear ou pelo menos dificultar o apoio do PSDB à candidatura de Pazolini, o qual já era dado como certo... até o regresso do ex-prefeito ao ninho.