Partido de Evair de Melo não endossa suas críticas a Casagrande
Repercussão
Partido de Evair de Melo não endossa suas críticas a Casagrande
“Respeitamos a opinião do deputado, mas pensamos exatamente o contrário”, diz Marcus Vicente, presidente estadual do PP. Evair afirmou que “de boca fechada, governador ajudaria mais o Estado”
Publicado em 09 de Março de 2021 às 02:00
Públicado em
09 mar 2021 às 02:00
Colunista
Vitor Vogas
vvogas@redegazeta.com.br
Evair de Melo critica Casagrande, enquanto Marcus Vicente está com ele e o aprovaCrédito: Amarildo
“Estamos alinhados com o governador e apoiando o projeto político do governo estadual. O PP aqui do Espírito Santo, combinado com o PP nacional, tem uma posição no governo Renato Casagrande, e o deputado Evair tem a dele”, completa o dirigente.
Evair está se consolidando como a voz mais crítica ao governo Casagrande entre os políticos com mandato pelo Espírito Santo. Mas o PP é um dos partidos mais importantes da coalizão de Casagrande, e o próprio Marcus Vicente é grande aliado do governador, além de secretário estadual de Desenvolvimento Urbano desde o início da atual administração, em 2019.
Na citada entrevista à coluna, escolhendo palavras fortes, Evair afirmou que Casagrande mostra falta de humildade por não reconhecer o que o governo Bolsonaro faz pelo Espírito Santo e que o governador fica o tempo todo “jogando para a galera” só para “ficar bem com seus eleitores e com seu partido”. Também afirmou que, ao criticar Bolsonaro, Casagrande “não ajuda em nada o Espírito Santo” e que, “de boca fechada, ajudaria muito mais”. Disse, ainda, que o governador “não entrega o que promete”, “coopta adversários” e que “no Estado ruge como um leão, mas em Brasília é um gatinho”.
As declarações de Evair geraram uma situação insólita, pois as mais duras falas sobre Casagrande no atual cenário político estadual partem justamente do único membro da bancada federal capixaba filiado ao PP, partido que vem a ser um dos principais apoiadores da gestão de Casagrande no Estado. Como presidente estadual da sigla, Marcus Vicente registra sua discordância:
“Não vou entrar no teor do que o Evair falou. A responsabilidade da fala é dele. Agora, politicamente falando, eu não concordo com o que ele falou. O partido tem o caminho nacional dele. Fez uma opção. E essa opção nós respeitamos. Mas também, da mesma forma, nós temos o nosso caminho aqui. E não vamos mudar a nossa posição em relação ao governo Casagrande. Inclusive, é bom enfatizar que o apoio político do PP ao governo do Estado é respaldado pela Executiva nacional do partido e pelo nosso presidente nacional, o senador Ciro Nogueira (PP-PI).”
LEGENDA GARANTIDA PARA EVAIR
Em contrapartida, o presidente estadual do PP salienta: não haverá nenhum tipo de censura a Evair por suas declarações. “Não, não, não. Mesmo discordando, o partido se posiciona respeitoso à opinião dele. Ele tem um mandato parlamentar. É legítimo que ele use a tribuna e a sua fala para criticar aquilo de que discorda.” O tema, segundo Vicente, nem será discutido internamente. “Não vamos fazer nenhuma abordagem em relação a isso. Nada.”
A relação com Evair está tão normal que, segundo Vicente, se o deputado for candidato à reeleição no ano que vem, terá legenda garantida no PP, assegurada por ele (por acaso, 1º suplente de Evair na Câmara). “Vai sempre haver espaço para o Evair. Sempre. Há cerca de 60 dias, ele me disse pessoalmente que é candidato a deputado federal.” E se realmente for? “Ele terá legenda no PP.”
O DUPLO CAMINHO DO PP
A sobreposição dos tabuleiros políticos nacional e estadual produz hoje uma situação ainda mais inusitada no que se refere ao PP.
Sócio de carteirinha do Centrão no Congresso, o partido apoiou Lula, Dilma, Temer e, desde o ano passado, apoia Bolsonaro. Um dos caciques nacionais da sigla, o deputado Arthur Lira (PP-AL), chegou à presidência da Câmara em fevereiro com apoio explícito do presidente da República.
Enquanto isso, no Estado, o PP é sócio de carteirinha do governo Casagrande, em nada alinhado e em quase tudo divergente à administração de Bolsonaro. Marcus Vicente comenta esses caminhos paralelos do partido e faz questão de reiterar que a posição do PP aqui tem pleno respaldo da direção nacional:
“O PP nacional tem um caminho de apoiar o governo Bolsonaro. Hoje chegou à presidência da Câmara Federal. Esse é um caminho político que a direção nacional traçou e que dá ao partido hoje a posição de terceira pessoa na hierarquia da República. Essa é a visão que a gente tem daqui para lá. De lá para cá, a nossa direção estadual teve autonomia, e isso foi combinado com o presidente Ciro Nogueira, de nós fazermos parte do governo Casagrande. Da mesma forma que o PP nacional ajuda na governabilidade do Brasil, o PP estadual também ajuda na governabilidade do Estado.”
O QUE DIZ EVAIR SOBRE ISSO?
Questionado sobre suas posições destoantes das do próprio partido, Evair afirma que isso não causa nenhum problema nem mal-estar no relacionamento dele com a sigla e que a direção estadual o respeita e lhe garante autonomia no exercício do mandato. Ele confirma que pretende se candidatar novamente a deputado federal em 2022. Mas já se especula que seu real projeto possa ser um cargo maior.
O QUE NÃO DIZ O GOVERNO?
Procurado pela coluna, o governo Casagrande preferiu não se manifestar sobre as declarações de Evair.
Dirigente do PP também defende ações de Casagrande na pandemia
"Não vou comentar o que disse o Evair, mas a gente tem outro pensamento. O governo está indo bem. Seguidamente, desde 2012, tem letra A do Tesouro Nacional. Quer dizer, tem uma administração fiscal rígida, com as contas rigorosamente em dia. Tem uma atuação em face da pandemia que é reconhecida por todo o Brasil, na transparência, na divulgação dos dados, pensando no legado do que o Espírito Santo continuará tendo após superar este momento. Teremos um legado de hospitais, de leitos de UTI e de enfermaria em muito maior quantidade, para continuar atendendo o Espírito Santo na área geral da saúde. Na contramão da crise brasileira, o Espírito Santo está fazendo muitíssimas obras. Falando pela minha secretaria, já iniciamos a macrodrenagem, já estamos tocando 140 obras em 68 municípios e colocamos o programa de regularização fundiária de pé."
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo