A gestão da prefeita de Vitória, Cris Samorini (PP), quer a
abertura de um processo por quebra de decoro parlamentar em face do vereador
Professor Jocelino (PT), opositor da administração municipal. Para isso, o
procurador-geral da prefeitura, Tárek Moussalem, pediu formalmente ao
presidente das Câmara, Anderson Goggi (Republicanos), que apresente uma
representação contra o vereador do PT junto à Corregedoria da Casa.
Em outras palavras, por uma questão de prerrogativa (quem pode ou não pode processar), a
prefeitura está pedindo ao presidente da Câmara que peça à Corregedoria para
instaurar um processo disciplinar contra o Professor Jocelino, a fim de que ele tenha o mandato cassado ou, no mínimo, suspenso por 30 dias.
O cerne da questão é um post e um pronunciamento feitos por
Jocelino, relacionados à Operação Colosso de Areia, da Polícia Federal e da
Controladoria-Geral da União (CGU). Deflagrada no último dia 8, no Espírito
Santo, a operação apura indícios de um suposto esquema voltado à prática de
fraudes a licitações e lavagem de dinheiro por meio da execução de contratos
públicos.
O post feito por Jocelino no Instagram, no último dia 9, foi assim intitulado: “Empresa com contrato milionário, ligada à educação de Vitória, entra na
mira da Polícia Federal”. No texto da publicação, o parlamentar afirmou que, “de
acordo com as investigações, empresas ligadas ao esquema mantiveram contratos
com diversos municípios capixabas, incluindo a Prefeitura de Vitória, por meio
da Secretaria Municipal de Educação”.
Ele completou: “Aqui em Vitória, o mandato do Professor
Jocelino já havia apresentado denúncias e levantado questionamentos sobre
contratos relacionados com empresas que atuam na educação do município”.
A prefeitura entende que o petista abusou de suas
prerrogativas parlamentares ao fazer tais afirmações, vinculando a administração
da Capital ao esquema investigado.
“A Polícia Federal e a CGU, de fato, divulgaram a existência
da Operação Colosso de Areia. [...] Contudo, as notas oficiais não
individualizam, publicamente, a Secretaria Municipal de Educação de Vitória
como alvo da investigação nem apontam agentes públicos municipais de Vitória
como responsáveis por fraude, lavagem de dinheiro ou ocultação de recursos”, registrou
o procurador-geral do município, signatário da peça.
“Ainda assim, o Vereador Professor Jocelino utilizou imagem
de órgão público municipal específico, expressão de urgência e frase de alto
impacto para sugerir ligação direta da Secretaria Municipal de Educação de
Vitória com fatos graves, sem apresentar, na publicação, documentação oficial
mínima que sustentasse a imputação”, emendou o representante jurídico da
prefeitura.
Jocelino, por sua vez, reafirmou à coluna: “A Secretaria de Educação tem contrato com a empresa investigada, assim como a empresa do PA”.
No entendimento do parlamentar, a prefeitura tomou a medida por estar incomodada com o trabalho de fiscalização do seu mandato. A nota completa do vereador está no fim desta coluna.
Agora, a bola está com Anderson Goggi, chefe do Legislativo
municipal, que precisa decidir o que fazer.
Ele pode simplesmente não dar seguimento ao pedido (o qual,
neste caso, será inócuo), contrariando a gestão da qual é aliado; ou pode
atender ao pedido da Prefeitura de Vitória e propor ao órgão disciplinar da
Câmara uma denúncia em face do vereador de oposição, por quebra de decoro.
Se Goggi tomar o segundo caminho, caberá ao corregedor-geral
da Câmara, Leonardo Monjardim (Novo) – líder da prefeitura no plenário –, avaliar
a representação. Em exame preliminar de admissibilidade, ele poderá arquivá-la, se entender que é
inepta. Mas poderá também decidir pela instauração de um processo disciplinar
por quebra de decoro em face de Jocelino. Então, será designado um relator e terá início a instrução processual.
Como o leitor na certa percebeu, são vários “se”... Mas, se chegarmos a esse
ponto, o vereador do PT, no limite, poderá até ser condenado à cassação pelos
próprios pares. É exatamente o que requer a prefeitura, na notícia de fato endereçada a Goggi:
“Caso Vossa Excelência formule a Representação ora
requerida, nela seja postulada, ao final, após regular instrução e análise de
mérito, a aplicação da penalidade de perda do mandato ao Vereador representado,
[...] caso reconhecido o abuso das prerrogativas parlamentares e a prática de
conduta incompatível com a ética e o decoro parlamentar”.
Mas essa não é a tendência inicial, muito pelo contrário.
Protocolado no último dia 13, o pedido da prefeitura –
tecnicamente, uma “notícia circunstanciada com pedido de providências
institucionais e de formulação de representação por quebra de decoro parlamentar”
– foi incluído no expediente da sessão desta terça-feira (21) e lido em plenário
pelo presidente da Câmara, Anderson Goggi.
Conforme o relato de um vereador, a iniciativa da prefeitura
“caiu como uma bomba” no plenário. Na sua maior parte, os vereadores foram
pegos de surpresa e reagiram enfaticamente contra a medida – incluindo parlamentares
que pertencem à base da prefeita Cris Samorini e que não estão no mesmo campo
ideológico de Jocelino.
Em protesto, os vereadores derrubaram o quórum da sessão,
esvaziando o plenário. O detalhe é que a pauta previa a votação de um projeto
importantíssimo do Poder Executivo, de interesse da prefeitura e dos munícipes:
a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), essencial para a elaboração do orçamento de Vitória para o próximo ano.
Visivelmente tenso, logo após anunciar o encerramento da sessão por
falta de quórum, Goggi levantou-se abruptamente da cadeira e proferiu alguns palavrões para os assessores ao redor,
captados pelo sistema de som e audível na transmissão da sessão pelos
canais da Câmara:
“Eu quero é que se ****! Vai todo mundo tomar no ** e que meu *** cresça!”
Logo em seguida, os vereadores se dirigiram ao gabinete do
presidente, para uma reunião de emergência. Nenhuma decisão foi tomada. Mas o
sentimento predominante é contrário à abertura de um processo disciplinar
contra um colega, por vontade da prefeitura.
Apuramos que Goggi propôs que todos os vereadores assinem um manifesto contra o pedido da prefeitura. A proposta não obteve consenso. Esbarra em resistências, por exemplo, de alguns vereadores de direita ou extrema-direita que, às vésperas das eleições, não querem ficar com a imagem de que “ajudaram um colega do PT”.
Para outros, para se livrar do fardo da decisão, Goggi quer dividir uma responsabilidade que na verdade é só dele (ossos da presidência...).
A provocação da Prefeitura de Vitória chega em um momento
especialmente tenso para a Câmara de Vitória, que acaba de instaurar processo
por quebra de decoro em face do vereador Baiano do Salão (Podemos), condenado
pela Justiça, em primeiro grau, em processo no qual é acusado de ter abusado
sexualmente de uma criança.
Pré-candidato a deputado estadual pelo partido do
ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) – por sua vez, pré-candidato a
governador e aliado de Cris Samorini –, Goggi se vê de repente entre a cruz e a
espada:
Atender aos aliados e levar adiante o pedido do Executivo, contrariando
os próprios pares e lançando a Câmara em dias de tensão ainda maior do que já
se encontra, ou aliviar a tensão da Casa e ficar bem com os colegas, mas “chamuscado” com seus mais importantes aliados a menos de um mês de adentrar a campanha a uma vaga na Assembleia?
A bola, enfim, segue com Goggi, e resta saber
para onde ele a chutará.
Até a publicação deste texto, o presidente e a assessoria da Câmara não responderam qual será o próximo passo.
Já o corregedor-geral, Leonardo Monjardim, declarou que aguardará as providências de Goggi e, se o presidente decidir provocar a Corregedoria, avaliará o caso para se pronunciar.
Prefeitura quer que
vereador prove o que afirmou
A prefeitura pede que o processo seja aberto na Corregedoria
e, no curso das investigações, seja apurada “a existência ou inexistência de
lastro documental para as imputações divulgadas; a eventual vinculação formal
da Secretaria Municipal de Educação de Vitória à Operação Colosso de Areia; o
eventual uso de estrutura pública de gabinete ou recursos da Câmara na produção
e divulgação do conteúdo; e a extensão do dano institucional provocado à
Administração Municipal”.
Pena alternativa: no
mínimo, um cartão amarelo
A prefeitura pede à Câmara que, no mínimo, condene o Professor
Jocelino à suspensão do mandato por 30 dias.
“Na eventualidade de não ser aplicada a penalidade de perda
do mandato, o que sinceramente não se espera, que seja postulada,
alternativamente, a aplicação da penalidade de suspensão temporária do
exercício do mandato do Vereador representado, pelo prazo de 30 (trinta) dias,
ou outra sanção disciplinar que a Corregedoria-Geral e o Plenário da Câmara
Municipal entendam proporcional à gravidade dos fatos”.
Se Goggi não
quiser...
Se Goggi não quiser fazer nada, a prefeitura espera que
outro vereador ou partido político com representação na Câmara assuma tal
iniciativa.
“Caso Vossa Excelência entenda não ser o caso de formular a
representação, que seja dada ciência formal dos fatos aos parlamentares e
partidos políticos com representação na Câmara Municipal de Vitória, para que,
na condição de legitimados pelo art. 24 da Resolução nº 2.070/2023, avaliem a
adoção das providências disciplinares cabíveis”.
Por que a própria
prefeitura não propôs a representação?
O Código de Ética da Câmara de Vitória (Resolução nº
2.070/2023) não dá ao Executivo municipal competência para propor abertura de
processo contra um vereador na Corregedoria do Legislativo. Mas qualquer
parlamentar ou partido político com representação na Câmara Municipal pode
fazê-lo.
“Assim, embora diretamente atingido pelas manifestações
públicas ora noticiadas, o Município de Vitória não pretende substituir os
legitimados expressamente indicados no Código de Ética, tampouco provocar a
instauração de procedimento disciplinar em desconformidade com as regras internas
dessa Casa Legislativa”, explicou Moussalem.
Por isso, a prefeitura apelou para Goggi (e passou a batata
quente para suas mãos), “evitando que a ausência de legitimidade ativa direta
do Município sirva como obstáculo à apuração de conduta potencialmente lesiva à
dignidade do mandato parlamentar, à imagem da Câmara Municipal e à honra
institucional da Administração Pública Municipal”.
Nota na íntegra do Professor Jocelino
“Não temos medo perseguição ou de intimidação política”
Recebemos hoje com surpresa e indignação o pedido de cassação do nosso mandato, apresentado pela Prefeitura de Vitória. O que está em curso é uma clara tentativa de silenciar um mandato que tem cumprido seu papel de fiscalizar, denunciar e cobrar transparência na gestão dos recursos públicos. A fiscalização da Administração Pública não é um capricho do vereador, mas uma atribuição institucional inerente ao exercício do mandato. Em 1 ano e 7 meses, somos o 2º mandato com maior produtividade na Câmara e o único que visitou mais de 90 equipamentos públicos da cidade. Isso incomoda.
Desde o início da nossa legislatura, realizamos o acompanhamento permanente de contratos, investimentos e da aplicação dos recursos públicos, com especial atenção às áreas da saúde e da educação, que concentram as principais demandas apresentadas diariamente pela população. O que causa incômodo é o fato de estarmos apurando contratos firmados com empresas que são alvo de investigações conduzidas pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU) e que continuam mantendo contratos milionários com a Prefeitura de Vitória.
Não temos medo de perseguição ou de intimidação política. A Prefeitura, ao tentar silenciar a voz do vereador, também tenta silenciar a voz do povo de Vitória, quer atingir a democracia e inviabilizar o trabalho legislativo que temos cumprido com responsabilidade, sabedoria e ouvindo a população. Não vamos deixar de fazer o nosso dever constitucional, continuaremos de olho, firmes na defesa do interesse público, e cumpriremos o dever de fiscalizar com seriedade, coragem e exigindo transparência.
Na certeza que estamos atuando na defesa do interesse da população de Vitória. Vereador
Professor Jocelino
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