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Entrevista: Tyago Hoffmann

Reabertura de shoppings pode ser revogada em caso de risco extremo

Respondendo à coluna desta segunda, secretário de Governo afirma que não há "luta de discurso" na condução da pandemia e que o governo Casagrande vai na mesma direção: "Tanto é que o secretário de Saúde assinou a portaria dos shoppings"

Publicado em 02 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

02 jun 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Tyago Hoffmann
Tyago Hoffmann Crédito: Amarildo
Declarações e medidas recentes deixaram a impressão de falta de coordenação, além de aparente incoerência, por parte do governo Casagrande, na condução da crise sanitária e econômica gerada pela pandemia do novo coronavírus. Foi o que sustentamos aqui nesta segunda-feira (1º): “Ora o governo sinaliza uma tendência de endurecimento das regras de isolamento social; ora indica afrouxamento dessas regras. Num dia, determinado secretário aponta na direção do enrijecimento; no dia seguinte (ou até no mesmo dia), vem outro e aponta na direção contrária”.
Foi assim, por exemplo, na última sexta-feira (29): o secretário de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), voltou a abordar, como possibilidade real, a ideia de um lockdown; quatro horas depois, a secretária de Gestão e Recursos Humanos, Lenise Loureiro (Cidadania), anunciou a reabertura dos shopping centers, válida desde esta segunda-feira.
O secretário estadual de Governo, Tyago Hoffmann (PSB), discorda da análise do signatário e afirma: não existe “disputa de teses” nem “luta de discursos” entre secretários. Na tarde desta segunda-feira, ele entrou em contato e deu à coluna a entrevista abaixo, que esclarece na mesma medida em que preocupa. Esclarece, de fato, muitos pontos que geraram dúvidas nos últimos dias entre os capixabas. Mas o teor de tais esclarecimentos inspira ainda mais preocupação: “Não estamos longe do risco extremo não”, alerta Hoffmann.
Segundo ele, o governo estadual não quer que se chegue a esse ponto, e trabalha para evitar que isso ocorra, mas, se municípios entrarem em “risco extremo” (sempre com base na matriz de risco adotada para nortear as decisões), o governo está pronto para adotar medidas mais restritivas. E isso inclui, se for o caso, até revogar o decreto recém-assinado que autorizou a reabertura dos shoppings na Grande Vitória.
Confira a entrevista na íntegra:

Está havendo disfonia no governo?

Não. Quero manifestar a minha discordância em relação a essa análise. Não tem luta de tese interna no governo. O governo, para tomar suas decisões, se baseia na matriz de risco, que já vem sendo adotada há praticamente trinta dias. O secretário Nésio, da Saúde, na minha opinião, usou uma frase que foi, não por maldade, mas por interpretação descontextualizada, para indicar como se ele falasse em… E acho até que ele se expressou mal mesmo, tá? O que o secretário Nésio quis dizer, na minha opinião, que é o que eu estou dizendo também, por isso insisto que não há discordância nas teses, é que as medidas mais restritivas que decorrem de chegarmos ao risco extremo em alguns municípios estão previstas no modelo e podem, sim, acontecer. Isso está claro. A nossa comunicação com a sociedade visa deixar isso muito claro. O elemento central hoje, e você já registrou isso em colunas anteriores, é a questão dos leitos. Se nós chegarmos a um indicador geral acima de 90% de ocupação dos leitos, chegaremos ao risco extremo para uma parte dos municípios. E, chegando ao risco extremo em uma parte dos municípios, vamos ter medidas mais restritivas. Isso é algo previsto na matriz de risco. Mas não vamos tomar nenhuma medida que não seja indicada pela matriz de risco. E nós estamos nos esforçando com um volume grande de abertura de leitos para que nós não tenhamos que chegar a isso. Agora, que de fato há o risco, há. Nós estamos alertando a sociedade o tempo inteiro sobre isso: da necessidade do isolamento social. Que de fato esse risco existe, isso é claro. E nós estamos numa luta, numa corrida, como você mesmo expressou, para abrir leitos, para evitar que cheguemos a isso, insistindo com as pessoas quanto à necessidade do isolamento social. O que nós estamos adotando como premissa básica da nossa visão dentro da matriz de risco é que o isolamento social é responsabilidade de todos. E estamos tentando, num modelo de compensações, deixar que todo mundo tenha um pouco de autorização para funcionamento de atividades econômicas. Afinal de contas, você tem aí um conjunto de famílias, seja de trabalhadores, seja de donos de negócios, que também dependem da abertura desses negócios para a sua sobrevivência. Então nós temos que tentar buscar, dentro do que chamamos de “plano de convivência”, uma tentativa de conciliação das atividades econômicas com a questão dos leitos, sempre deixando claro que a prioridade é a vida, é a saúde. É por isso que o modelo é gradativo.
"O isolamento social é responsabilidade de todos. E estamos tentando, num modelo de compensações, deixar que todo mundo tenha um pouco de autorização para funcionamento de atividades econômicas."
Tyago Hoffmann (PSB) - Secretário de Estado de Governo

E o secretário de Saúde, Nésio Fernandes, pensa assim também, exatamente do modo que o senhor acaba de me expor? Ele pensa como o senhor e como, por exemplo, a secretária Lenise Loureiro?

É fácil a gente comprovar isso. Inclusive, falei com ele que conversaria com você. E ele me falou assim: “É muito simples você provar isso, Tyago. É só você dizer para o Vogas quem é que assina a portaria que libera shoppings". A liberação dos shoppings consta da portaria da matriz de risco, que é assinada exclusivamente pelo secretário de Saúde. E ele, inclusive, durante o processo de discussão, deixou claro que, se fosse necessário, ele mesmo faria o anúncio da possibilidade de reabertura dos shoppings. Isso não exclui a visão de que hoje nós estamos caminhando para o risco extremo. Estamos, é verdade: está lá colocado. Agora, se nós vamos chegar a esse risco extremo… O que deixei claro no vídeo que gravei na quinta-feira (28) foi que, nesta semana, os números já indicavam que nós não chegaríamos ao risco extremo. Teria que na sexta (29) ter acontecido um desastre para chegarmos a 90% de ocupação dos leitos. Então meu vídeo foi nessa direção. Me referi à “semana que vem”: esta semana em que estamos agora. E aí, na sexta, o Nésio fez uma fala que dava para interpretar nessa direção, de que nesta semana nós poderíamos chegar ao risco extremo em alguns municípios. Mas na minha opinião é aquela coisa que você está dando uma entrevista, ela é ao vivo, às vezes você não refletiu exatamente na frase que você vai usar… Na minha opinião é isso. Mas não há divergência de teses.
"A liberação dos shoppings consta da portaria da matriz de risco, que é assinada exclusivamente pelo secretário de Saúde. Isso não exclui a visão de que hoje nós estamos caminhando para o risco extremo. Estamos, é verdade: está lá colocado. Agora, se nós vamos chegar a esse risco extremo…"
Tyago Hoffmann (PSB) - Secretário de Estado de Governo

Não há uma luta de discursos?

Nenhuma luta interna de discursos. Tem um comando único. E este é outro ponto que quero reforçar: o governador parou as suas agendas, diminuiu a sua carga de trabalho, para acompanhar o tratamento da mãe dele e da dona Virgínia, mas em nenhum momento ele abandonou o comando do combate à pandemia. Ele continuou tratando as coisas comigo, com o secretário Nésio, com o secretário Álvaro [Duboc, de Planejamento], que participa muito ativamente do Centro de Controle, com o secretário [de Justiça, Luiz Carlos] Cruz, que comanda o Centro de Controle, com o comandante do Corpo de Bombeiros... Ele continua falando com todos e dando as orientações. E as orientações também não se modificaram, porque há um modelo, que é o modelo que vamos seguir até descobrirmos que há um modelo melhor.
"Tem um comando único. E este é outro ponto que quero reforçar: o governador parou as suas agendas, diminuiu a sua carga de trabalho, para acompanhar o tratamento da mãe dele e da dona Virgínia, mas em nenhum momento ele abandonou o comando do combate à pandemia."
Tyago Hoffmann (PSB) - Secretário de Estado de Governo

O governo, através de seus vários representantes, tem reiterado a todo instante (e o senhor volta a bater nessa tecla) a importância do isolamento social, conclamando as pessoas a ficarem em suas casas a não ser em caso de extrema necessidade. E, ao mesmo tempo, tem tomado essas medidas de reabertura gradual do comércio e, agora, o decreto dos shoppings. Essas medidas, na sua avaliação, podem ter o efeito contrário, isto é, podem acabar desestimulando as pessoas a cumprirem as medidas de isolamento e levá-las a saírem mais despreocupadamente às ruas?

Nós estamos sempre deixando claro, desde que passamos a adotar a matriz de risco, que o isolamento social não pode ser colocado exclusivamente na conta do comércio. O comércio está funcionando com menos de 50% da sua capacidade. E ficou praticamente dois meses sem funcionar, pagando a conta do isolamento social. Não é razoável querermos o comércio fechado, enquanto as pessoas, num sábado e num domingo de sol, estão indo para a praia. Não é razoável. É preciso que todo mundo, individualmente, coloque a mão na consciência e entenda que o isolamento social é uma responsabilidade de cada um de nós conosco e com as nossas famílias. Não é algo que a gente possa depositar na conta de um segmento econômico porque senão nós vamos quebrar os comerciantes do Espírito Santo. Na minha opinião, é simplismo da sociedade imaginarmos que vamos colocar toda a conta do isolamento social num segmento econômico, porque nós vamos quebrar muitos pais de família. Então é preciso que nós encontremos um mecanismo de convivência e de compensações. Por exemplo, nós abrimos os shoppings na Grande Vitória, porque no interior eles já estavam liberados, mas, em compensação, a mesma matriz de risco adota o fechamento do comércio nos fins de semana em 50 municípios, que são os de risco moderado. Estes estão funcionando normalmente durante a semana, então é justo que eles façam algum sacrifício no final de semana, para que possamos colocar para funcionar os shoppings na Grande Vitória. A preocupação não é com o shopping em si nem com o dono do shopping, mas com os 1,8 mil lojistas que tem dentro deles e que também precisam de um respiro e de alguma capacidade de gerar renda para suas famílias.
"Não é razoável querermos o comércio fechado, enquanto as pessoas, num sábado e num domingo de sol, estão indo para a praia. Não é razoável. É preciso que todo mundo, individualmente, coloque a mão na consciência e entenda que o isolamento social é uma responsabilidade de cada um de nós."
Tyago Hoffmann (PSB) - Secretário de Estado de Governo

O senhor acaba de reiterar que, no momento, os cinco municípios da Grande Vitória são considerados em risco alto, de acordo com a classificação dada pela matriz de risco, e que “estamos caminhando para o risco extremo”. E, agora, vem o decreto dos shoppings. Vamos pegar, por exemplo, o município de Vila Velha, que tem três grandes shoppings. Se daqui, digamos, a duas semanas, o município entrar tecnicamente em risco extremo, o governo está pronto para revogar esse decreto dos shoppings, e outros mais que forem necessários, de reabertura de comércio, academias etc., e decretar o lockdown nessa cidade especificamente?

Eu reafirmo que nós não vamos fugir do modelo da matriz de risco: se chegarmos ao risco extremo, nós teremos que tomar medidas mais restritivas. Nós não estamos usando a expressão lockdown, porque, além de ter um simbolismo de que eu particularmente não gosto e o governador também não gosta, a expressão lockdown significa um fechamento total e irrestrito. Então, chegando ao risco extremo, a matriz prevê que deveremos tomar medidas mais restritivas às atividades econômicas e à circulação de pessoas. E aí, nas atividades econômicas, por óbvio, se incluem shoppings também. Sem sombra de dúvidas, nós estamos prontos para tomar essas medidas. Estamos dialogando sobre essas medidas. Terminamos essa construção. Nesta segunda-feira, teremos uma reunião com o Fórum das Federações, e com certeza será abordado esse ponto das medidas mais restritivas. E nós devemos discutir isso mais amplamente com a sociedade de uma forma geral, mostrando que essa é uma realidade possível. Acho que foi você que, numa conversa comigo, usou esta expressão: é igual seguro de carro: você tem, mas não quer usar nunca. Então nós queremos ter essas medidas desenhadas, porque não estamos longe desse risco extremo não.
"Chegando ao risco extremo, a matriz prevê que deveremos tomar medidas mais restritivas às atividades econômicas e à circulação de pessoas. E aí, nas atividades econômicas, por óbvio, se incluem shoppings também. Sem sombra de dúvidas, nós estamos prontos para tomar essas medidas. "
Tyago Hoffmann (PSB) - Secretário de Estado de Governo

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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