No seu estilo sem papas na língua, o deputado estadual Theodorico Ferraço, presidente de fato do DEM no Espírito Santo, concedeu à coluna uma entrevista recheada de informações importantes sobre o processo eleitoral em Vitória. A mais importante delas: o DEM quer apoiar a candidatura de Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB) a prefeito da Capital, se o ex-prefeito realmente conseguir se viabilizar. “Esse é o caminho natural”, resume o deputado.
A segunda revelação de Theodorico é que ele delegou ao filho, o ex-senador Ricardo Ferraço, a coordenação das articulações eleitorais do DEM na Grande Vitória, principalmente na Capital. Isso significa que, “em nome do pai”, embora filiado ao PSDB, Ricardo é quem dará a palavra final sobre as alianças do DEM nas eleições a prefeito.
Mais importante ainda: o ex-senador não só está fechadíssimo com Luiz Paulo como tem trabalhado nos bastidores para ajudar a viabilizar a candidatura do ex-prefeito dentro do partido de ambos, o PSDB. “Ricardo tem uma ligação muito forte com o Luiz Paulo”, condensa Theodorico.
O primeiro óbice foi removido na semana passada: por força de uma decisão liminar assinada pelo desembargador José Paulo Calmon Nogueira da Gama, Luiz Paulo voltou a se tornar, tecnicamente, “elegível”, isto é, habilitado a disputar a eleição.
Além do DEM, Luiz Paulo, se entrar mesmo no páreo, poderá contar com o apoio do PP, cujo cacique no Estado, Marcus Vicente, está envolvido desde o início na articulação dessa pré-candidatura do ex-prefeito tucano, assim como Theodorico e, principalmente, Ricardo Ferraço.
Já no início de março, em entrevista à coluna, Ferração dizia que gostaria de apoiar Luiz Paulo em eventual candidatura a prefeito e, àquela altura (com o ex-prefeito ainda no Cidadania), chegou a convidá-lo para se filiar ao DEM.
Quanto a Ricardo Ferraço, atualmente atua na iniciativa privada, mas, como se vê, não abandonou a política estadual (longe disso). Atuando com muita discrição, ele colabora assiduamente com o governo Casagrande, de quem está próximo politicamente, assim como o próprio Luiz Paulo, presidente do Instituto Jones dos Santos Neves até o começo de abril.
Transcrita na íntegra a seguir, a reveladora entrevista de Theodorico Ferraço ainda conduz a duas conclusões:
1) Fortemente cogitado em certo ponto do processo, eventual apoio do DEM a Lorenzo Pazolini (Republicanos) em Vitória está cada vez mais distante. Theodorico se mostra bem desanimado com a candidatura do deputado estadual e, destacadamente, com o que vê como falta de engajamento do deputado federal Amaro Neto na campanha do candidato do seu próprio partido (o Republicanos). De fato, Amaro está eleitoralmente pouco ou nada atuante.
“Amaro nada decidiu, nem sequer foi ao lançamento da candidatura do Pazolini”, sublinha Theodorico.
2) Oficialmente, o DEM até tem seu próprio pré-candidato a prefeito de Vitória. É o atual presidente da Câmara, Cleber Felix. Mas Theodorico dá a entender que isso é só um detalhe neste jogo. Clebinho, como é conhecido, está sustentando a condição de pré-candidato a prefeito pelo DEM, só para valorizar o “câmbio” do partido numa negociação de apoio a outro candidato, em setembro.
Apesar de Clebinho oficialmente ser o presidente do DEM em Vitória (colocado ali por Theodorico), quem manda mesmo no partido são os Ferraços. E o que pai e filho querem mesmo é levar o partido a apoiar eventual candidatura de Luiz Paulo, caso ele consiga se viabilizar dentro do PSDB. Se isso ocorrer, o DEM pulará na mesma hora para a coligação do tucano.
O partido, assim, espera a definição da situação de Luiz Paulo (isto é, a concretização ou não da candidatura do tucano) para poder decidir o que fazer em Vitória. Enquanto isso não ocorre, Clebinho seguirá guardando a posição, como pré-candidato a prefeito para todos os efeitos.
Leia abaixo a entrevista de Theodorico:
Deputado, com a liberação judicial para que Luiz Paulo dispute a eleição, o DEM pode vir a apoiá-lo a prefeito de Vitória?
Há cerca de 45 dias, nós tivemos uma reunião com o Luiz Paulo: eu, o Clebinho e o presidente do PP em Vitória, Marcos Delmaestro, com Marcus Vicente de acordo. Fizemos uma reunião apelando ao Luiz Paulo para ele ser candidato a prefeito. Dissemos que ele era um bom candidato e que o DEM e o PP estariam ali à disposição dele. E eu falei mais: que ele não devia nada, que ele havia sido prefeito por oito anos, lidando com milhões como ele lidou, com os problemas e com as obras da cidade, e não tinha uma acusação de desonestidade contra ele. Que seria desproporcional ele ficar impedido de disputar uma eleição por causa de um caseiro que dava assessoria para negócio de jardim e ia lá [na casa dele] uma vez ou outra. Então disse para ele que erguesse a cabeça, porque ele era um dos homens mais honestos que tinha e porque tinha sido um dos melhores prefeitos. Ali ele agradeceu muito. Ficou muito entusiasmado e até se emocionou, com lágrimas nos olhos diante das palavras. Ele disse que o advogado dele [Henrique Herkenhoff] ia fazer um recurso mostrando tudo isso. Eu até ofereci a ele vários pareceres jurídicos, mas ele tinha vários advogados. Nesse ínterim, o Clebinho se lança prefeito. E os outros candidatos a prefeito o procuraram para entendimento também. E o consenso tem sido um só: vamos aguardar a decisão do Luiz Paulo.
Chegou-se a cogitar um entendimento do Clebinho com o Lorenzo Pazolini, que poderia abrigar Clebinho como vice em sua chapa a prefeito…
Sim, por causa dessa indecisão do Luiz Paulo. Mas isso não foi à frente. O entendimento do DEM com Pazolini acabou não dando certo.
Então vocês já descartam uma composição do DEM com o Pazolini?
Vou chegar lá. Como não houve um entendimento de Clebinho com Pazolini, Clebinho me disse que se lançaria candidato a prefeito. Eu disse: “Então você se lança e, em sintonia com o diretório estadual e até o federal, aguardamos o momento oportuno para rediscutir qualquer entendimento com vários partidos”. E foi o que aconteceu. Nesse ínterim, surge a situação do Luiz Paulo, que se tornou apto a ser candidato. Então qual é a solução do momento? O Clebinho é candidato a prefeito e aguarda a decisão do diretório estadual do DEM, com o municipal, para o que for melhor em favor de Vitória. Há possibilidade de o Clebinho ser candidato independente, mas, se houver um entendimento hoje, caminha também para o Luiz Paulo.
Então o senhor, como principal líder e autoridade política do DEM no Espírito Santo, avalia que é possível, sim, uma composição do partido com o PSDB em Vitória, vindo a apoiar a candidatura do Luiz Paulo a prefeito se ele se viabilizar?
É possível. Tanto é que nós, em comum acordo com Clebinho, credenciamos o ex-senador Ricardo Ferraço para coordenar a articulação política do DEM na Grande Vitória: Vitória, Vila Velha, Guarapari e Cariacica, com a candidatura do Euclério Sampaio.
Então, o Ricardo, mesmo filiado oficialmente ao PSDB, é quem está encarregado das articulações do DEM?
Sim, por solicitação nossa, em sintonia com o Diego Libardi [presidente estadual do DEM em exercício] e com a deputada federal Norma Ayub [presidente estadual licenciada do partido].
E o Ricardo também está próximo do Luiz Paulo?
Eu acho que sim. Então tem acordos que podem sair agora, antes das eleições. Ou no 2º turno. Então o Ricardo aceitou o pedido que nós lhe fizemos para ele colaborar, com a coordenação em Vitória. Ele é eleitor de Vitória e tem uma ligação muito forte com o Luiz Paulo. E com o próprio PSDB.
O senhor pensa que o Ricardo pode ter alguma participação direta na campanha do Luiz Paulo, caso o ex-prefeito seja mesmo candidato? Se isso ocorrer, Ricardo pode ser, por exemplo, o coordenador da campanha do tucano?
Acredito muito. Inclusive o Clebinho já teve uma reunião com o Ricardo e eles ficaram de, a qualquer momento, tomar uma atitude em conjunto com o diretório estadual.
E o Pazolini?
A princípio nós tínhamos realmente conversado com ele, mas o Amaro [o deputado federal Amaro Neto, principal correligionário de Pazolini] nada decidiu, nem sequer foi ao lançamento da candidatura do Pazolini. Então a gente não sabe o que o partido deles está pensando. Então vamos cuidar da nossa vida, com a coordenação entregue ao Ricardo, que está conversando com o Clebinho, e os dois estão se entendendo bem.
Para resumir: se Luiz Paulo conseguir se tornar mesmo candidato a prefeito pelo PSDB, ele então poderá contar com o apoio do DEM?
O caminho natural é esse.
Então é por isso que o senhor disse que o DEM está em compasso de espera, não é? O partido está esperando a resolução da vida do Luiz Paulo no PSDB…
É. E, enquanto isso, o Clebinho não vai se articular com candidato nenhum e é o candidato a prefeito do DEM.
Entendi. Mas, caso lá em setembro Luiz Paulo se viabilize, vença convenção do PSDB etc., aí o DEM pode naturalmente caminhar com ele…
Pode, em entendimento com o Clebinho, comigo e, principalmente, com o nosso coordenador, que é o Ricardo Ferraço.
Então o título da minha coluna, deputado, é “Se Luiz Paulo for candidato, terá o apoio DEM”?
“Abrirá as portas para ter o apoio do DEM e do PP”. Nesses termos fica melhor. Ele tem que se consolidar lá no partido dele para a gente admitir todas as conversas e coordenações que estão em jogo.