O deputado estadual Vandinho Leite, presidente do PSDB no Espírito Santo, enviou para a imprensa, na última segunda-feira (6), uma nota intrigante. Em essência, a nota tem a ver com o retorno, ainda fresco, do ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas ao partido. Se a intenção do presidente estadual era calar especulações e tranquilizar o clima no partido a poucos meses da eleição municipal, a redação da nota sugere o contrário: recheada de farpas em Luiz Paulo, a nota fornece elementos que reforçam a expectativa de reabertura de uma ferida interna no PSDB até hoje mal cicatrizada e aberta na convenção estadual do partido em 2017.
De acordo com os termos da nota, Luiz Paulo precisa trabalhar na “reconstrução da sua reputação partidária, muito abalada internamente”, “afastou-se da genética tucana nos últimos anos” e “não contribuiu com sequer um filiado” para o PSDB na atual fase de construção de chapas de candidatos a vereador. Ainda assim, sempre de acordo com a nota, os dirigentes do partido no Estado optaram por aceitá-lo, “já que o perdão é uma virtude cristã e faz parte da vida política”.
QUEM ASSINA A NOTA?
Vandinho apresentou o documento em questão como “nota conjunta do PSDB nacional e estadual”. Mas a nota não é assinada, nominalmente, por ninguém. Há duas aspas atribuídas ao ex-deputado federal Bruno Araújo, o presidente nacional da legenda. Mas também há as alfinetadas em Luiz Paulo. E foi o próprio Araújo, com seus poderes de presidente nacional, quem determinou ao PSDB de Vitória a filiação do ex-prefeito, após a Executiva do partido na Capital, politicamente ligada a Vandinho, ter se negado a filiá-lo, em “primeira instância”.
Questionado pela coluna, Vandinho afirmou que quem assina a nota é ele mesmo, “com trechos de Bruno Araújo”. Também informou que a redação da nota foi submetida à Executiva Nacional e endossada pela instância máxima do partido antes de ser divulgada por ele.
Mas a coluna apurou que, na verdade, a nota não foi coproduzida nem chancelada pela Executiva Nacional do PSDB, e a assessoria de Araújo nem sequer conhecia o teor do documento. Quer dizer, “a nota conjunta” não só não passou pelo crivo de Araújo como nem sequer passou pela Executiva Nacional.
TRECHOS DA NOTA
“PSDB nacional: é Vandinho quem coordena a eleição no ES e decisões serão coletivas”. Esse é o título da nota – segunda Vandinho, uma frase de Bruno Araújo. A nota é, antes de tudo, uma forma de Vandinho reforçar a mensagem de que, hoje, no PSDB-ES, a palavra final é dele. De fato, o deputado tem legitimidade para isso. Foi eleito presidente estadual da sigla, sem concorrentes internos, em 2019. E a Executiva Estadual do PSDB não é provisória. O presidente estadual é Vandinho. Ponto.
Aí vêm as farpas em Luiz Paulo:
“Na questão específica do ex-prefeito citado acima, o partido esclarece que ele está filiado em comum acordo com o diretório estadual. Porém é importante citar que especialmente nas últimas semanas, o PSDB teve um árduo trabalho de filiações para construção de chapas competitivas, do qual o ex-prefeito não contribuiu com sequer um filiado”.
Vandinho faz menção à desfiliação de Luiz Paulo, em 2018, após o ex-prefeito ter perdido, ao lado de Max Filho, a convenção estadual do PSDB realizada em novembro de 2017, vencida pela chapa liderada pelo então vice-governador César Colnago (a qual também contava com Vandinho).
"Entendemos que nos últimos anos ele [Luiz Paulo] se afastou da genética tucana ao deixar o partido por ser contrariado diante de uma decisão referendada pela maioria partidária. Mas optamos por aceitá-lo já que o perdão é uma virtude cristã e faz parte da vida política."
E prossegue:
“Esperamos que se por acaso os rumos para 2020 forem diferentes daquilo que deseja individualmente o ex-prefeito, que dessa vez ele mantenha o espírito republicano e contribua para um projeto maior, visando à reconstrução de sua reputação partidária, muito abalada internamente.”
Ainda há este trecho um tanto quanto enigmático (mas cumpre lembrar que Luiz Paulo, hoje, é aliado do governador Renato Casagrande, ao contrário de Vandinho):
“Um partido forte é feito por pessoas que acreditam em sua gênese ideológica e trabalham coletivamente por uma sociedade melhor. Não aceitaremos decisões individuas visando a interesses duvidosos e estimulados por terceiros.”
Como derradeira alfinetada, Vandinho ressalta que “tanto o ex-prefeito, bem como qualquer outro filiado, poderá inserir seu nome com a intenção de ser candidato. A decisão será tomada coletivamente, basta o propenso candidato garantir a maioria dos votos e estar devidamente elegível em acordo com a Lei da Ficha Limpa”.
Com uma condenação em segundo grau, Luiz Paulo hoje pode ser considerado inelegível com base na Lei da Ficha Limpa, o que o deixa virtualmente fora do páreo pela Prefeitura de Vitória. Ele tenta reverter a sentença com um recurso no STJ.
A HISTÓRIA DE LUIZ PAULO NO PSDB
Além dos dois mandatos seguidos como prefeito, de 1997 a 2004 – sucedendo Paulo Hartung, que já governara Vitória pelo PSDB de 1993 a 1996 –, Luiz Paulo Vellozo Lucas foi deputado federal pelo partido, de 2007 a 2010. Nesse mesmo ano, concorreu a governador, contra Casagrande, contra toda a máquina do governo estadual, contra Hartung, contra Ricardo Ferraço, contra um então fortíssimo PT etc.
Perdeu de lavada, no 1º turno, mas era uma candidatura suicida e ele na verdade só se lançou para que o então candidato do PSDB à Presidência, José Serra, tivesse um palanque no Espírito Santo, em uma de suas muitas demonstrações de lealdade ao partido. Também apoiaria fortemente Aécio Neves contra Dilma Rousseff (PT) em 2014. Sempre foi muito bem relacionado com os grãos-mestres do PSDB no país, sobretudo Serra.
Desde janeiro de 2011, Luiz Paulo não exerce mandatos eletivos. Perdeu, no 2º turno, uma renhida eleição contra Luciano Rezende em 2012. Foi a última vez que concorreu a prefeito de Vitória. Em julho de 2016, após ensaiar pré-candidatura, ele desistiu e apoiou a reeleição de Luciano, para ajudar a derrotar Lelo Coimbra (MDB) e Amaro Neto (então no Solidariedade) – por extensão, para derrotar o então governador Paulo Hartung. Para muitos, entre os quais me incluo, aquela eleição foi decidida antes de começar, nesse movimento arriscado feito por Luiz Paulo.
Desde então o ex-prefeito se afastou ainda mais de Hartung. No Espírito Santo, aliás, há dois políticos de renome que já foram muito próximos ao ex-governador, mas que não compõem mais com ele de jeito nenhum: Luiz Paulo e o ex-senador Ricardo Ferraço, também do PSDB.
FOGO NO NINHO: A TRAUMÁTICA CONVENÇÃO DE 2017
A disputa “já contratada” de Luiz Paulo com Vandinho Leite nesse seu retorno ao PSDB na verdade deita raízes na traumática convenção estadual do partido em novembro de 2017, a qual colocou em choque o “PSDB hartunguista” (César Colnago, Vandinho Leite, Octaciano Neto, Paulo Ruy Carnelli) e o “não hartunguista” (Max Filho, Luiz Paulo, Sergio Majeski, entre outros).
A vitória, apertada, foi da chapa encabeçada por Colnago. E assim começou a ascensão de Vandinho no PSDB. Em 2019, ele sucedeu na presidência a Colnago, que se tornou o vice-presidente estadual da agremiação. Hoje, além da própria candidatura a prefeito na Serra, Vandinho quer levar o PSDB a apoiar a candidatura do também deputado estadual Lorenzo Pazolini a prefeito de Vitória, pelo Republicanos, partido do deputado federal Amaro Neto.
Bem relacionado com Hartung, Vandinho foi secretário estadual de Ciência e Tecnologia, já dentro do ninho tucano, em parte do governo passado (2015-2018). Já Amaro também teve o seu naco de influência: seu grupo ocupou a Secretaria de Esportes na mesma administração. Tanto Vandinho como Pazolini se encontraram pessoalmente com Hartung em 2019, para falar de política.
Peixe pequeno nessa briga de tubarões, a vereadora Neuzinha de Oliveira, presidente do PSDB em Vitória, prefere levar o partido a de fato apoiar o candidato do partido de Amaro a prefeito. Ela conta com o apoio e a influência de Amaro para facilitar a sua reeleição na Câmara de Vitória.