Na surpreendente eleição ao Senado em 2018, Marcos do Val derrotou Magno Malta e ficou com uma das duas vagas de senador pelo Espírito Santo em disputa naquele pleito (a outra foi para Fabiano Contarato, o candidato mais votado para o cargo). Agora, a eleição a prefeito de Vila Velha gerou um fato imponderável.
Magno (PL) e Do Val (Podemos) têm simpatia pelo mesmo candidato a prefeito: o tenente-coronel Carlos Wagner Borges. Muito próximo politicamente de Do Val – um incentivador da candidatura –, o oficial do Corpo de Bombeiros também conquistou a predileção do ex-senador. Presidente estadual do Partido Liberal, Magno quer filiar Borges e lançá-lo a prefeito de Vila Velha pela sua legenda. Mas pode vir a apoiá-lo até se o tenente-coronel for candidato por outra sigla.
Assim, na eleição municipal, Borges pode ser apoiado, ao mesmo tempo, por Magno (o senador derrotado em 2018) e por Marcos do Val (o senador que o derrotou). Isso não quer dizer, obviamente, que o ex-senador e o atual tenham algum tipo de aliança ou de proximidade política. Mas, por uma dessas voltas que a política dá, os dois podem vir a encontrar na candidatura de Borges um “ponto de contato”, isto é, um candidato em comum, que de certa forma os agregue no pleito municipal.
Quanto a Marcos do Val, sua afinidade política com Borges é notória. Não é exagero dizer que, desde antes de se colocar para valer no processo eleitoral em Vila Velha, o oficial dos Bombeiros tem nele o principal parceiro e apoiador. A relação estreita entre os dois é reforçada pela presença e pela atuação de um terceiro personagem: o consultor Aldeci Carvalho, ponto em comum entre a campanha de Do Val em 2018 e a pré-campanha de Borges agora, a prefeito de Vila Velha.
Considerado o estrategista por trás da exitosa campanha do instrutor de segurança ao Senado em 2018, Aldeci também está coordenando a candidatura de Borges agora. Em entrevista a esta coluna, publicada no dia 22 de julho, o próprio Aldeci confirmou a conexão de Do Val com Borges: “Do Val apoia o Wagner, independentemente de qualquer coisa. Ele acredita na pessoa e no projeto do Wagner”.
Aldeci e o próprio Borges também reiteraram, na mesma coluna, algo muito comentado nos bastidores políticos: a possibilidade de, com um empurrão de Do Val, Borges se filiar ao Podemos, sigla do senador, para concorrer à Prefeitura de Vila Velha: “O senador Marcos do Val me disse que, a hora que eu quiser vir para o Podemos, serei candidato pelo partido”, disse, então, o pré-candidato a prefeito.
Por ser militar (dos Bombeiros), Borges não precisa estar filiado previamente a algum partido para poder disputar as eleições, mas apenas registrar a candidatura na convenção do partido pelo qual concorrerá à prefeitura. A data final para realização das convenções é 15 de setembro. Assim, Borges pode escolher até esse dia o partido no qual ingressará para ser candidato.
No Podemos, apesar das investidas, o presidente regional da sigla, Gilson Daniel, tratou de botar o pé na porta. Em Vila Velha, o partido já tem candidato próprio a prefeito: o vereador Arnaldinho Borgo, também em plena pré-campanha. E o prefeito de Viana deixou claro que não abre mão disso.
É aí que entra Magno Malta.
MAGNO COM BORGES: TUDO PARA DAR SAMBA
Existe hoje uma fila de partidos interessados em “contratar” Borges, mas Magno, digamos assim, pode furar essa fila. Magno e Borges conversaram pessoalmente, em Vila Velha, há cerca de duas semanas, na presença do presidente do PL em Vila Velha, Carlos Salvador. A conversa tem tudo para evoluir e dar samba (isto é, pagode gospel, especialidade musical de Magno).
Salvador conta que o ex-senador convidou formalmente Borges e que abriu as portas do partido para ele se filiar e se lançar à prefeitura pelo PL. “Estamos de comum acordo. O coronel Borges é muito bem-vindo por todas as vias do partido. As portas estão abertas para ele, nas palavras do próprio senador”, assinala o dirigente, em alusão a Magno.
O interesse em atrair Wagner Borges é tão grande que, segundo o presidente municipal da sigla, o PL hoje não tem um plano B para a eleição municipal de Vila Velha. A aposta plena é na candidatura de Borges, e o PL pode vir a apoiá-lo mesmo que ele seja candidato por outra legenda. Nesse caso, explica Salvador, o partido de Magno buscará uma composição com Borges, procurando emplacar o vice na chapa do bombeiro.
“Não tenho nenhum plano B com relação a Vila Velha. Mas o coronel Borges é um nome que nos agrada em qualquer situação. Como estamos em conversa, acredito nessa possibilidade de ele ser o nosso candidato a prefeito. Acredito muito nessa possibilidade. Caso ele não venha, vamos continuar as conversas e trabalhar para fazer uma composição com ele. Temos muitos quadros bons em Vila Velha [para a vaga de vice].”
O PL, afirma o dirigente, não tem chapa de vereadores em Vila Velha. Assim, a prioridade absoluta do partido de Magno no município é mesmo a eleição majoritária – daí o interesse ainda maior em um bom casamento com Borges, a quem Salvador rende muitos elogios:
“Nós estamos conversando com ele. É um nome muito interessante para Vila Velha. Tem muito boas intenções, diferenciadas. É uma pessoa nova na política. Está muito preparado para ser prefeito de Vila Velha. É um nome que nos agrada muito. Enfim, só depende dele. Se quiser vir, tem a legenda garantida por nós. Será candidato a prefeito de Vila Velha pelo PL.”
Outro fator que aproxima Borges do PL (e de Magno), também destacado por Salvador, é o “perfil conservador” enxergado no pré-candidato. Assim como Magno, o tenente-coronel é evangélico (frequenta a Igreja Batista em Vila Velha). E, na visão de Salvador, tem bandeiras semelhantes às do ex-senador.
“Ele [Borges] tem um viés bem conservador: defesa da vida, da família... Ele é muito bem-vindo ao PL, tendo em vista que trilhamos nessa linha.” Se isso pode ajudar na filiação? “Sim, com certeza. É o que nós defendemos: defesa da vida, contra as drogas, contra a legalização do aborto... Isso é um viés importante para nós”, responde Salvador, ele mesmo também evangélico – frequenta a Igreja Metodista em Vila Velha.
A FOME COM A VONTADE DE COMER
Além dos fatores expostos acima, a filiação e a candidatura de Borges pelo PL fazem bastante sentido até por eliminação. A esta altura, o assessor de Comunicação dos Bombeiros (licenciado) ainda busca um partido que lhe dê guarida e legenda.
No Podemos, como dito acima, o presidente regional não quer filiá-lo. O Patriota – outra opção bem-vista por Aldeci Carvalho – também já tem pré-candidato a prefeito, o deputado estadual Rafael Favatto, por acaso presidente regional da sigla. Com o PSB de Renato Casagrande, Borges chegou a conversar, mas a conversa não saiu do lugar, por incompatibilidade ideológica: o pré-candidato é de direita.
Ao mesmo tempo, o PL está livre, disponível e interessado. Não tem ainda candidato em Vila Velha. Magno já foi padrinho político de Neucimar Fraga (PSD) no passado, mas os dois se desentenderam. Ainda senador, apoiou o prefeito Max Filho (PSDB) no último pleito municipal, em 2016, mas os dois também se afastaram. Sobra quem para ele apoiar em Vila Velha?