A entrada em vigor provisória da parte comercial do acordo entre Mercosul e União Europeia marca um dos movimentos mais relevantes da inserção internacional brasileira nas últimas décadas. Depois de anos de negociação, impasses políticos, resistências ambientais, pressões setoriais e mudanças no cenário geoeconômico global, o acordo deixa de ser apenas uma promessa diplomática e passa a produzir efeitos concretos. Mas é importante compreender corretamente o momento. Não se trata de uma abertura instantânea e irrestrita dos mercados, nem de uma solução automática para os problemas de competitividade do Brasil. Trata-se do início de uma nova etapa, na qual oportunidades e riscos caminham juntos.
O que começa a valer é a parte comercial do acordo, de forma provisória. Na prática, isso significa que passam a ser aplicadas regras voltadas à redução gradual de tarifas, ampliação de cotas, maior previsibilidade para exportadores e importadores, facilitação de comércio, regras de origem, compras governamentais e compromissos regulatórios. A palavra central é gradual. Muitos produtos terão redução tarifária ao longo de vários anos, e setores mais sensíveis continuarão sujeitos a cotas, salvaguardas e exigências específicas. Portanto, o acordo não deve ser interpretado como uma abertura imediata de todas as fronteiras comerciais, mas como a criação de um novo ambiente de negócios entre dois blocos econômicos relevantes.
Para o Brasil, a principal oportunidade está na ampliação do acesso ao mercado europeu em áreas nas quais o país tem vantagens competitivas claras. O agronegócio, os alimentos processados, a celulose, alguns segmentos minerais, produtos de base florestal, café, carnes, frutas e outros bens associados à nossa base produtiva podem se beneficiar de melhores condições de entrada na Europa. No caso do Espírito Santo, há uma agenda evidente. O estado tem forte presença em café, celulose, rochas ornamentais, siderurgia, logística portuária e comércio exterior. Uma relação comercial mais previsível com a União Europeia pode favorecer empresas que já exportam, mas também estimular novos investimentos em qualidade, certificação, rastreabilidade, design, agregação de valor e inserção em cadeias internacionais.
Esse ponto é fundamental. O acordo não premia apenas quem produz barato. Ele tende a premiar quem consegue produzir com padrão, escala, regularidade, certificação e reputação. A União Europeia é um mercado sofisticado, com consumidores exigentes, regras sanitárias rigorosas, crescente preocupação ambiental e padrões técnicos elevados. A redução de tarifa ajuda, mas não substitui a necessidade de cumprir normas. O produtor ou a empresa que imaginar que o acordo, sozinho, abrirá o mercado europeu estará subestimando o desafio. A porta pode ficar mais aberta, mas passar por ela continuará exigindo preparo.
Também há oportunidades pelo lado da importação. A entrada mais competitiva de máquinas, equipamentos, insumos, medicamentos, produtos químicos, bens de capital e tecnologias europeias pode ajudar a reduzir custos e elevar a produtividade de empresas brasileiras. Esse ponto costuma receber menos atenção no debate público, mas talvez seja um dos mais relevantes. O Brasil é uma economia cara, com baixa produtividade média, logística deficiente, insegurança regulatória e custo de capital elevado. A possibilidade de importar melhores equipamentos e insumos a preços mais competitivos pode estimular a modernização produtiva, desde que as empresas tenham capacidade financeira e ambiente econômico para investir.
O risco para a indústria brasileira
Ao mesmo tempo, os desafios são expressivos. Setores industriais brasileiros que já enfrentam dificuldades de competitividade poderão sofrer maior pressão de produtos europeus. A indústria europeia opera com elevada sofisticação tecnológica, acesso a financiamento mais barato, cadeias produtivas integradas e padrões de produtividade superiores aos brasileiros. Isso significa que algumas empresas nacionais terão de se adaptar rapidamente. A competição pode ser positiva quando induz eficiência, inovação e melhoria de qualidade. Mas pode ser destrutiva quando encontra empresas estranguladas por carga tributária complexa, infraestrutura ruim, juros altos e excesso de burocracia.
Por isso, o acordo precisa ser lido menos como ponto de chegada e mais como um teste de realidade. O Brasil costuma discutir comércio exterior como se o principal problema fosse apenas abrir ou fechar mercado. A questão é mais profunda. O país precisa decidir se quer participar do comércio global apenas como exportador de produtos básicos ou se pretende construir uma inserção mais qualificada, com maior valor agregado, maior produtividade e maior capacidade tecnológica. O acordo com a União Europeia pode ampliar mercados, mas não corrige sozinho os gargalos internos que reduzem nossa competitividade.
O dever de casa da competitividade
O dever de casa é conhecido. O primeiro ponto é infraestrutura. Sem portos eficientes, ferrovias, rodovias integradas, armazenagem, energia competitiva e serviços logísticos de qualidade, a vantagem produtiva se perde no caminho até o cliente. Para o Espírito Santo, esse tema é ainda mais estratégico. O estado tem localização privilegiada, tradição exportadora e vocação logística, mas precisa transformar esses ativos em plataforma de integração produtiva. Portos, retroáreas, ferrovias planejadas, zonas industriais e serviços de comércio exterior devem ser pensados como parte de uma mesma estratégia.
O segundo ponto é qualificação empresarial. Exportar para a Europa exige inteligência de mercado, domínio de regras técnicas, certificações, rastreabilidade, contratos bem estruturados, regularidade de entrega e capacidade de adaptação. Pequenas e médias empresas podem se beneficiar, mas dificilmente conseguirão fazê-lo sem apoio técnico, associativismo, capacitação e políticas de promoção comercial. O acordo cria a oportunidade, mas a conversão dessa oportunidade em venda depende de organização.
O terceiro ponto é produtividade. Não há acordo comercial capaz de compensar indefinidamente uma economia que produz com custo elevado e baixa eficiência. Reforma tributária bem implementada, segurança jurídica, redução do custo burocrático, melhoria da educação técnica, inovação, crédito de longo prazo e estabilidade macroeconômica são condições necessárias para que o país aproveite a abertura sem apenas aumentar sua exposição à concorrência externa.
Sustentabilidade no centro do debate
O quarto ponto é sustentabilidade. A agenda ambiental não será periférica. Ela estará no centro da relação comercial com a Europa. Isso pode ser visto como barreira, mas também como oportunidade. Países e regiões capazes de comprovar produção sustentável, baixa emissão, rastreabilidade e respeito a padrões socioambientais terão vantagem competitiva crescente. Para o Brasil, que possui ativos ambientais relevantes e uma agroindústria competitiva, a questão é transformar potencial em credibilidade.
O acordo Mercosul-União Europeia é importante porque ocorre em um mundo mais fragmentado, protecionista e incerto. Em meio a disputas comerciais, tensões geopolíticas e reorganização das cadeias globais, ampliar pontes com mercados relevantes é uma decisão estratégica. Mas acordos comerciais não fazem milagres. Eles ampliam o campo de jogo. Quem estiver preparado joga melhor. Quem não estiver, sente mais fortemente a pressão da concorrência.
A entrada em vigor do acordo, portanto, deve ser celebrada com pragmatismo. Ela abre uma janela de oportunidades para o Brasil e para o Espírito Santo, especialmente em setores nos quais já temos presença exportadora e capacidade logística. Mas também impõe uma agenda de adaptação. O ganho não virá automaticamente da assinatura do tratado. Virá da capacidade de transformar acesso a mercado em produtividade, investimento, inovação e desenvolvimento regional. O acordo começou. Agora começa a parte mais difícil: fazer a economia brasileira estar à altura dele.
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