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Guerra comercial

Tarifaço de Trump: desafios e oportunidades para a economia brasileira

Diante do protecionismo norte-americano, o Brasil precisa adotar uma estratégia robusta de diversificação comercial através de acordos internacionais fora da América Latina

Publicado em 03 de Abril de 2025 às 08:06

Públicado em 

03 abr 2025 às 08:06
Felipe Storch

Colunista

Felipe Storch

fdamasceno@fucape.br

O cenário econômico global tem sido marcado por crescentes tendências protecionistas, com os Estados Unidos assumindo protagonismo na implementação de políticas comerciais restritivas. Essas medidas, que incluem elevação de tarifas e barreiras não-tarifárias, representam tanto desafios quanto oportunidades para economias emergentes, como a brasileira, exigindo uma análise criteriosa de seus potenciais impactos no curto e médio prazo.
O protecionismo americano impõe desafios significativos ao Brasil, considerando-se que os EUA constituem um dos principais parceiros comerciais brasileiros. A imposição de tarifas sobre produtos como aço, alumínio e bens agrícolas pode afetar diretamente os superávits comerciais obtidos pelo Brasil nesses setores.
A imposição de tarifas elevadas sobre commodities e produtos manufaturados tem sido um dos pilares da política comercial protecionista norte-americana nos últimos anos. Um exemplo emblemático ocorreu em 2018, quando os EUA implementaram tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importados, afetando diretamente as exportações brasileiras desses produtos. Essas medidas, fundamentadas na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, foram justificadas sob o argumento de proteção à segurança nacional americana.
Os impactos para o Brasil foram imediatos. Entre março e dezembro de 2018, as exportações brasileiras de aço para os EUA registraram uma queda de aproximadamente 15%. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Gerdau, dois dos principais grupos siderúrgicos brasileiros, reportaram reduções significativas em seus embarques para o mercado norte-americano, levando à necessidade de reorganização de suas estratégias comerciais e produtivas.
No setor agrícola, as tensões comerciais entre EUA e China abriram inicialmente oportunidades para o Brasil, principalmente na exportação de soja. Com a China impondo tarifas sobre produtos agrícolas americanos em retaliação, o Brasil consolidou-se como o principal fornecedor de soja para o mercado chinês. Contudo, este cenário também ilustra a volatilidade causada pelas guerras tarifárias, uma vez que acordos temporários entre EUA e China para aumento das importações americanas podem posteriormente prejudicar as exportações brasileiras.
O setor siderúrgico brasileiro, tradicionalmente competitivo no mercado internacional, enfrenta obstáculos crescentes para acessar o mercado norte-americano, com potenciais impactos sobre o nível de emprego e produção doméstica. Similarmente, segmentos do agronegócio, como a produção de carnes e etanol, podem experimentar restrições no acesso ao mercado americano. Além dos efeitos diretos, observa-se o risco de desvio de comércio, com países afetados por medidas protecionistas americanas redirecionando sua produção para mercados alternativos, como o brasileiro, intensificando a competição em setores sensíveis da economia nacional.
Paradoxalmente, o recrudescimento do protecionismo americano abre janelas de oportunidade para a economia brasileira. A imposição de restrições a exportadores concorrentes pode favorecer o Brasil em mercados nos quais compete diretamente com países como China e México. 
Setores como o agronegócio podem se beneficiar da reorganização das cadeias globais de valor, posicionando-se como fornecedores alternativos para mercados que tradicionalmente importavam de países afetados por tarifas americanas. A renegociação de acordos comerciais entre EUA e parceiros como Canadá e México cria espaços para inserção comercial brasileira em nichos específicos.
Diante do protecionismo norte-americano, o Brasil precisa adotar uma estratégia robusta de diversificação comercial através de acordos internacionais fora da América Latina. O acordo Mercosul-União Europeia, quando implementado, abrirá um mercado consumidor de 450 milhões de pessoas para produtos brasileiros, beneficiando setores do agronegócio e da indústria com redução gradual de tarifas. A relação com a China, principal parceiro comercial do Brasil, deve evoluir para além das commodities, explorando nichos onde o país possui competências específicas, como aeronaves, equipamentos para energia renovável e software. Um acordo comercial mais abrangente poderia contrabalançar os efeitos negativos das barreiras americanas.
O Brasil também deve considerar aproximação com o Comprehensive and Progressive Agreement for Trans-Pacific Partnership (CPTPP), que inclui países como Japão, Canadá e Austrália. Essa aproximação abriria perspectivas para setores como agroindústria e mineração, com o Japão demonstrando particular interesse em intensificar relações comerciais. Ainda na Ásia, a Índia, com seu mercado de 1,3 bilhão de pessoas, representa uma fronteira pouco explorada. Um acordo Mercosul-Índia poderia expandir o atual acordo limitado para incluir setores como fármacos, software e produtos agrícolas processados, aproveitando a complementaridade entre os dois países.
No Oriente Médio, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita representam oportunidades significativas. Em processo de diversificação econômica, esses países têm ampliado importações de alimentos e buscado parceiros para investimentos em tecnologia. Um acordo entre Mercosul e o Conselho de Cooperação do Golfo beneficiaria produtos brasileiros, como alimentos processados e materiais de construção.
Outra oportunidade surge na África. Acordos com potências regionais como África do Sul, Nigéria e Egito criariam plataformas para expansão comercial continental. O Brasil possui vantagens comparativas em tecnologias adaptadas às condições africanas, especialmente, em agricultura tropical e bioenergia, áreas onde a Embrapa já desenvolve projetos de cooperação.
Para implementar efetivamente essa estratégia de diversificação, o Brasil precisa fortalecer institucionalmente os órgãos responsáveis pela política comercial, estimular a participação do setor privado na identificação de oportunidades e desenvolver instrumentos financeiros que viabilizem exportações para mercados não tradicionais. O sucesso dessa estratégia também dependerá da capacidade brasileira em superar deficiências logísticas, burocracia excessiva e complexidade tributária que prejudicam a competitividade das exportações nacionais.
O cenário de recrudescimento protecionista nos EUA impõe desafios substantivos à economia brasileira, particularmente em setores com maior exposição ao mercado norte-americano. Entretanto, o momento atual também configura oportunidades para reposicionamento estratégico do Brasil no comércio internacional, favorecendo a diversificação de mercados e a inserção em novas cadeias de valor. A capacidade de converter desafios em oportunidades dependerá, fundamentalmente, da articulação entre política comercial, industrial e cambial, bem como da efetividade das estratégias de negociação internacional conduzidas pelo país.

Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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