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No radar global

O Brasil está barato ou apenas em observação?

Investidores enxergam produtividade e vento externo favorável, mas mantêm cautela diante dos cenários fiscal e político
João Pedro Prata

Publicado em 

09 fev 2026 às 11:52

Publicado em 09 de Fevereiro de 2026 às 14:52

Há momentos em que o mercado financeiro parece um laboratório cheio de reagentes instáveis: um frasco de política, outro de juros, uma pipeta de inteligência artificial e, ao fundo, um béquer borbulhando chamado eleições.
O mundo hoje vive uma contradição curiosa: no geral, governos gastam mais do que podem, empresas investem como se capital fosse infinito e, ainda assim, nada quebra e as bolsas rompem máximas históricas. O segredo provisório atende pelo nome de inteligência artificial. A produtividade sobe, adia ajustes e cria uma sensação de prosperidade sustentada por crédito e expectativa. Não resolve o problema fiscal, apenas compra tempo.
Ao mesmo tempo, o dólar perdeu parte da sua força estrutural, o que muda profundamente o jogo global: diminui a pressão inflacionária e aumenta o apetite por ativos reais, especialmente commodities. Como resultado, países produtores voltam ao radar internacional, entre eles, o Brasil. Essa mudança já repercutiu em nossa Bolsa, com uma alta superior a 30% em seis meses.
Bolsa brasileira teve alta superior a 30% em seis meses Crédito: Imagem gerada pelo ChatGPT
Mas aqui começa a parte curiosa da história.
Externamente, o país parece um veleiro com vento perfeito. Mas com uma análise mais profunda, é possível identificar um casco com infiltrações. Crescemos com inflação controlada e desemprego baixo, porém sustentados por aumento consistente e relevante de dívida pública e juros elevados. A economia roda, mas ao provável custo de uma compressão futura.
O mercado percebe isso e reage de forma peculiar: não discute mais apenas crescimento ou lucro das empresas. Discute cenário político, boa parte dos preços dos ativos brasileiros depende menos do próximo balanço corporativo e mais do próximo resultado eleitoral.
Isso cria uma assimetria rara.
Se houver confiança em ajuste fiscal, os juros podem cair rápido e a reprecificação da Bolsa tende a ser expressiva (além do que já ocorreu). Se não houver, o movimento pode ser igualmente intenso na direção contrária. Não é uma análise ideológica, é matemática de risco: quando o preço embute esperança, a decepção custa caro; quando embute medo, a surpresa vale muito.
Por isso, o investidor estrangeiro olha para o Brasil com curiosidade científica. Não é exatamente otimismo nem pessimismo. É expectativa de evento.
O país, hoje, não está caro nem barato. Está em observação.
E mercados em observação costumam reagir pouco… até reagirem demais.
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