SÃO PAULO - O Grupo Toky, dono das redes de móveis e decoração Tok&Stok e Mobly, entrou com pedido de recuperação judicial nesta terça-feira (12) em meio ao agravamento de sua crise financeira e operacional, após meses de aumento das reclamações de consumidores sobre atrasos nas entregas, dificuldades para obter reembolso e falhas de atendimento.
"Apesar dos esforços empregados pela administração na negociação da reestruturação do endividamento junto aos credores da controlada Tok&Stok, o alto endividamento do grupo persiste e vem se agravando", afirmou em comunicado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
De acordo com o grupo, a situação "exige a adoção urgente de medidas adicionais destinadas a preservar suas atividades, proteger sua liquidez e permitir a implementação de uma reestruturação ordenada de seu endividamento e de sua estrutura de capital".
As ações da empresa derretem na Bolsa de Valores brasileira. Por volta das 12h, os papéis eram negociados a R$ 0,17, queda de 41%. Na mínima do pregão, as ações chegaram a cair 45%.
Entre 10h e 11h, as ações entraram em leilão, mecanismo em que as operações com um ativo são temporariamente suspensas devido à alta volatilidade. No acumulado do ano, os papéis têm queda de 79%.
A empresa disse que o pedido de recuperação judicial, autorizado pelo conselho de administração, busca "resguardar a companhia e as suas controladas, viabilizar a continuidade de suas atividades, preservar os serviços por elas prestados, preservar seu valor e sua função social, bem como criar condições para a negociação e implementação de solução adequada para suas obrigações".
O pedido foi ajuizado na Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível do Estado de São Paulo, sob segredo de justiça.
O avanço dos problemas já vinha sendo percebido pelos clientes da varejista. Entre as principais queixas relatadas estavam demora na entrega de produtos, ausência de devolução de valores pagos e dificuldade de comunicação com a empresa.
Em entrevista à Folha de S. Paulo, Victor Noda, CEO do grupo Toky, afirmou que a rede enfrentava problemas de integração desde que a Mobly propôs a compra da Tok&Stok, em agosto de 2024. A operação marcou uma tentativa de reorganização da companhia em meio à deterioração do negócio.
Fundada em 1978 pelo casal francês Ghislaine e Régis Dubrule, a Tok&Stok se consolidou no mercado brasileiro como referência em móveis e itens de decoração voltados às classes A e B, apostando em design contemporâneo e lojas de grande porte em bairros nobres e shopping centers.
O crescimento, porém, foi acompanhado de um aumento do endividamento da companhia. Em 2012, os fundadores venderam o controle da empresa para a gestora de private equity Carlyle.
Já a Mobly, empresa baseada no comércio eletrônico e mais direcionada ao público de classe C, também passou a enfrentar dificuldades após o forte crescimento registrado durante a pandemia de Covid-19. Com a desaceleração do consumo digital no pós-pandemia, o setor de móveis passou a conviver com margens mais pressionadas e queda na demanda.
O pedido de recuperação judicial ocorre em um cenário de retração do varejo de bens duráveis e de maior seletividade do consumidor, afetando empresas dependentes de crédito e de logística complexa.
Mudanças no conselho
Na noite de segunda-feira (11), o grupo Toky havia informado que quatro fundos geridos pela SPX Private Equity estavam em "estágio avançado de negociações" para a venda da totalidade de suas participações em ações e bônus de subscrição da empresa, conforme comunicado ao mercado.
De acordo com o documento, os fundos anunciaram que Fernando Porfirio Borges renunciaria ao cargo no conselho de administração em razão das negociações.
Em outro comunicado também enviado na noite de segunda-feira, o grupo disse que Felipe Fonseca Pereira também renunciou ao seu cargo no conselho de administração da companhia.
Para ocupar essas vagas, a empresa elegeu interinamente Fabio Ferrante, como conselheiro, e André França, como conselheiro independente.
- RAIO-X GRUPO TOKY
- Fundação: 1978
- Sede: São Paulo
- Funcionários: 1.800
- Marcas: Tok&Stok, Mobly e Guldi
- Lojas: 65 (50 Tok&Stok e 15 Mobly); 3 CDs (SP, MG e SC)
- Presença: 21 estados e DF (Tok&Stok); São Paulo (Mobly)
- Receita líquida: R$ 1,5 bilhão
- Principais concorrentes: Camicado, Mercado Livre, Westwing e Madeira Madeira, além de grandes varejistas de móveis