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Opinião da Gazeta

Crimes com uso de aplicativos de encontros desafiam a segurança

Criminosos não perdem tempo: conseguem enxergar uma tendência de comportamento e se aproveitam disso para criar novas formas de aplicar golpes, que podem acabar em violência

Publicado em 25 de Janeiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

25 jan 2022 às 02:00

Colunista

Celular
Encontros por aplicativos e sites se tornaram comuns Crédito: Freepik
No exato momento em que este editorial está sendo escrito, certamente há pelo planeta alguma nova modalidade de crime que se utiliza do anonimato da internet sendo aplicada pela primeira vez. Não só golpes que provocam prejuízos financeiros, mas muitos que se materializam na vida real na forma de violência e morte. No último final de semana, dois casos chamaram atenção no noticiário local: um sequestro no qual a vítima foi esfaqueada e um assassinato, com características de latrocínio. De acordo com as informações iniciais que ainda carecem de confirmação das investigações, em ambos os crimes as vítimas conheceram seus algozes em encontros pela rede.
As maneiras como as pessoas se relacionam foram radicalmente transformadas com as redes sociais e, mais especificamente no caso das relações afetivas, o uso de aplicativos de encontros está cada vez mais naturalizado.  Casamentos nos quais os noivos se conheceram assim não são mais motivo de espanto, uma mudança de comportamento entre tantas que viraram rotineiras, como fazer compras ou solicitar um meio de transporte por aplicativo.
Mas, como não faltam oportunistas, tem crescido os registros de encontros virtuais com final infeliz. Na cidade de São Paulo, reportagem do site Uol da semana passada apontou que houve pelo menos três casos e uma tentativa frustrada de sequestro-relâmpago usando iscas em aplicativos ou sites de relacionamento somente neste mês de janeiro. No último dia 16, Alex Kim Shin, de 31 anos, tentou escapar de uma dessas armadilhas e acabou levando um tiro, perdendo o controle do carro e sofrendo um acidente fatal.
Os crimes cibernéticos que terminam com violência ou morte mostram que virtualidade e realidade se misturam e exigem que a segurança desses aplicativos seja constantemente aprimorada. Em muitos deles, há ferramentas capazes de garantir a veracidade das informações, mas no ambiente virtual nada é 100% confiável.
Também é fundamental que a legislação brasileira acompanhe essas transformações sociais decorrentes dos avanços tecnológicos. No ano passado, houve alterações no Código Penal nesse sentido, com a  Lei nº 4.554/2020, que ampliou penas por crimes de furto e estelionato praticados com o uso de dispositivos eletrônicos, conectados ou não à internet. Para desbaratar quadrilhas que se aventurem nos crimes com iscas digitais, as forças policiais devem investir em inteligência ainda mais especializada.
E é preciso sublinhar que nenhuma vítima desses crimes pode ser responsabilizada pela violência que sofreu. São sempre vítimas, independentemente das circunstâncias. Alvo de bandidos do tipo mais covarde, que se aproveitam da boa vontade e do interesse de quem deseja uma companhia. Mais segurança nesse tipo de encontro, contudo, é possível se a pessoa conseguir impor algumas condições. Vale pedir para fazer videochamadas, adicionar outras redes sociais e até mesmo pedir provas documentais da existência do pretendente. Marcar o primeiro encontro em local público, movimentado, e avisar a pelo menos uma pessoa de confiança é também essencial.
Criminosos não perdem tempo: conseguem enxergar uma tendência de comportamento e se aproveitam disso para criar novas formas de aplicar golpes. Mas os encontros marcados pela internet não deixarão de existir por causa disso. O jeito mais simples de garantir a própria segurança é uma postura menos impulsiva e mais racional, com cuidados que podem já de cara espantar os mal-intencionados.

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