A arquitetura carrega as marcas do seu tempo, e isso pode ser constatado nas ruas da Grande Vitória. Prédios e casas mais antigos, principalmente as construções anteriores à década de 1970, ainda guardam características de uma época em que a preocupação com a segurança era menor.
Muros eram mais baixos, guaritas eram mais raras, assim como as grades nas janelas. Já os projetos contemporâneos são erguidos com a proteção da propriedade em primeiro plano. Todo um aparato arquitetônico, tecnológico e humano que ao mesmo tempo defende o cidadão da violência e o separa de uma vida social mais plena. Infelizmente, não há como fugir.
A reportagem publicada por este jornal no último dia 9 se baseou em um estudo que virou o livro “Geografia do Crime e Arquitetura do Medo”, do professor do mestrado em Segurança Pública da UVV Pablo Lira. Um importante olhar sobre a transformação urbana em função da necessidade crescente de proteção, imposta pela explosão demográfica associada ao crescente abismo social que é ambiente propício para a criminalidade.
Enquanto os mais ricos dispõem de recursos para garantir que as últimas novidades tecnológicas e a segurança privada estejam a seu dispor, os moradores de bairros mais vulneráveis se protegem como podem. Em comum, todos buscam obstáculos que os distanciem dos criminosos, já que o Estado não é capaz de proporcionar segurança. O extremo dessa ausência se mostra pelo próprio anseio de setores da sociedade por se armar.
Não à toa, elementos feudais se incorporam à paisagem urbana com naturalidade, como torres e fossos que impeçam as invasões bárbaras contemporâneas, os crimes patrimoniais. Residências cada vez mais se assemelham a presídios, ornamentadas com cercas de arame farpado elétricas: nos primeiros, barra-se a entrada; nos segundos, a saída. A cultura do medo é alimentada pelas próprias soluções existentes, que impõem esse isolamento.
Uma transformação capaz de mudar essa paisagem não é repentina, demanda o compromisso dos governantes pela qualidade do gasto público e pelo fim de privilégios, garantindo educação de qualidade e oportunidades. É preciso começar de algum lugar o quanto antes, degrau por degrau, para que a sociedade brasileira enfim atinja um grau de justiça social que derrube esses muros.