Nesta era da hiperconexão, crianças já nascem tendo contato com os milhares de atrativos oferecidos por meio dos dispositivos digitais e da internet. A questão é que, na correria do dia a dia, a família acaba, muitas vezes, facilitando esse acesso sem tomar os devidos cuidados em relação aos riscos que essa conduta pode trazer a esse público ainda em formação.
Conforme recomenda a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o limite de tempo para crianças e adolescentes estarem em contato com esses aparelhos digitais, como celulares, tablets e videogames, é definido pela faixa etária, e sempre sob supervisão.
Tempo de tela
- Menores de 2 anos: nenhum contato com telas ou videogames.
- Dos 2 aos 5 anos: até uma hora por dia.
- Dos 6 aos 10 anos: entre uma e duas horas por dia.
- Dos 11 aos 18 anos: entre duas e três horas por dia.
Guilherme Alves, gerente de projetos da Safernet, que atua na área de educação da ONG e coordena o projeto Disciplina de Cidadania Digital, destaca que o primeiro contato com celulares e computadores deve se dar junto à família, que será a responsável por estabelecer uma rotina de diálogo sobre quais conteúdos, aplicativos e jogos são adequados e os cuidados na interação com outras pessoas.
“É importante que a dimensão pública desses espaços seja enfatizada, além da ideia de riscos, civilidade e segurança. É primordial que os responsáveis monitorem e estabeleçam regras de uso para o público infantojuvenil, quais aplicativos e o tempo para cada um deles, usando recursos nativos de controle parental oferecidos pelos celulares, além de algum tipo de monitoramento em redes sociais”, enfatiza.
Mas, antes disso, reforça Guilherme Alves, é essencial entender sobre o melhor momento para que a criança ou o adolescente tenha o próprio dispositivo. “Adiar essa posse pode ser benéfico, ainda que possa haver o acesso aos dispositivos dos responsáveis.”
Internet não é babá: equilíbrio no uso
A psicóloga Maria Carolina Fonseca Barbosa Roseiro, ex-presidente do Conselho Regional de Psicologia do Espírito Santo (CRP), explica que, na imposição de limites, os conflitos serão inevitáveis, porque as crianças e adolescentes terão de lidar com a frustração.
Mas o limite de tempo para o uso de dispositivos digitais, observa, depende de um acompanhamento direto que a maioria das famílias não consegue fazer no seu dia a dia. Maria Carolina lembra, ainda, que as telas também são para fins educacionais, sendo usadas no espaço escolar.
"Embora saibamos que existem orientações biomédicas sobre as pausas que precisam ser feitas, independentemente do conteúdo, temos de observar o que está sendo acessado por esse público do ponto de vista do seu desenvolvimento psicossocial, se está prejudicando a socialização e a formação da personalidade e da identidade das crianças e adolescentes."
Maria Carolina frisa que é saudável as crianças sentirem tristeza, raiva e outras emoções não prazerosas, mas é necessário observar como elas estão reagindo. Nesse sentido, é essencial dedicar atenção para os impactos no sono, na alimentação e na autoimagem.
“O diálogo contribui para a confiança nas relações de cuidado familiar e nas orientações de hábitos de autocuidado. Por outro lado, os pais também precisam se educar para os próprios limites”, alerta a psicóloga.
Guilherme Alves adverte que afastar completamente as crianças e os adolescentes desse universo não é o caminho, pois esse ato pode trazer como consequência o desconhecimento para identificar riscos que podem ocorrer quando eles iniciarem o uso contínuo, já mais velhos.
"A internet deve ser usada como ferramenta do processo de ensino-aprendizagem, ao mesmo tempo em que a educação para o uso dessa tecnologia deve fazer parte das grades curriculares, preparando todos para lidar com os riscos inerentes aos ambientes virtuais."
O gerente da Safernet pontua, ainda, que não existe uma fórmula pronta e que cada família deve estabelecer as próprias dinâmicas. O que deve ser evitado é tanto usar a internet como uma espécie de “babá eletrônica” – ou seja, largar os filhos com os dispositivos eletrônicos por horas – quanto a restrição completa, sem diálogo, pois é justamente essa conversa que vai oferecer confiança às crianças e aos adolescentes para procurarem apoio da família caso entrem em contato com algum conteúdo nocivo.