De São Paulo à China, em diversas cidades e países, surgem iniciativas para coibir ou mesmo banir por completo o uso do plástico, numa tendência preocupante pela deficiência de embasamento técnico das discussões. Boa parte das propostas avançam sem o devido debate público e sem amparo em dados científicos sobre o real impacto no setor produtivo e na sociedade. As iniciativas, na prática, podem acabar sendo mais prejudiciais ao meio ambiente e à economia.
Dados recentes divulgados pelo IBGE mostram que o Brasil produziu, em 2018, 6,2 milhões de toneladas de produtos plásticos. A maior parte desses produtos, ou 65%, possui ciclo de vida médio e longo, como deve ser, já que são aplicados em setores como construção civil, eletrônicos, máquinas e equipamentos. Somente 0,03% da produção refere-se a canudos e 1,7% a descartáveis.
Outro dado importante: em março do ano passado, o World Wildlife Fund (WWF) divulgou relatório apontando o Brasil como o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo. O país gera 11,3 toneladas por ano. E somente 1,28% desse total é reciclado. Esse é o desafio: o baixo índice de reciclagem no país.
O plástico representou uma revolução no século 20, pela sua aplicação ampla, versátil e eficiente, a custos reduzidos, em campos diversos como construção civil, medicina ou conservação de alimentos. Os números mostram que a alternativa mais eficaz, do ponto de vista ambiental e econômico, é a reciclagem.
Erik Solheim, diplomata norueguês que foi diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, entre 2016 e 2018, afirmou, em sua gestão: “O plástico é um material miraculoso. Graças a ele houve crescimento da produção de energia limpa com turbinas eólicas e painéis solares e o armazenamento de alimentos sofreu uma revolução. Plástico não é o problema. O problema é o que fazemos com ele”.
Para assegurar o uso sustentável do plástico, temos dois grandes desafios: fazer com que o material pós-consumo seja devidamente coletado e, depois, fazer com que esse material coletado chegue aos recicladores.
Em julho de 2009, o governo do Estado sancionou a Lei nº 9.264, que instituiu uma política estadual de resíduos sólidos. A lei prevê, entre outras ações, a gestão intermunicipal para o tratamento desses resíduos, o acesso da sociedade à educação ambiental e o incentivo às atividades de reciclagem e coleta seletiva. Em vez de soluções simplistas, seria mais produtivo aproveitarmos esse instrumento legal para buscar soluções eficazes e sustentáveis.