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Cafezinho tecnológico

Café amargo capixaba ganha versão suave para aumentar consumo puro

União de cooperados e Ifes muda técnicas de torra e secagem do robusta. Visto como o "patinho feio" dos cafés, produção de conilon do Estado vai ganhar investimento para explorar novos mercados no Brasil e no mundo

Publicado em 11 de Maio de 2021 às 02:00

Ana Clara Morais

Publicado em 

11 mai 2021 às 02:00
Produção de café conilon vai receber investimento para alcançar paladares exigentes
Produção de café conilon vai receber investimento para alcançar paladares exigentes Crédito: Cooabriel
Para quem é acostumado a consumir cafés especiais, pode soar estranha a projeção de que o café conilon produzido no Norte, Nordeste e Noroeste do Espírito Santo – geralmente conhecido por sua produtividade e não tanto por sua qualidade –, vai chegar para consumo puro ao mercado nacional e internacional nos próximos três anos.
Mais "amargo e encorpado", a variedade de café – também conhecida como robusta – é comercializada, principalmente, como base para mistura com outros tipos de grão. Mas, se depender de um grupo de professores e produtores capixabas, essa realidade está prestes a mudar.
Aprimorar a produção de café conilon para colocá-lo na rota dos cafés premiados mundialmente é o objetivo do projeto "Café Conilon - Origem Singular", inciativa que uniu o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel). Com início ainda no mês de maio, as ações vão atender até mil produtores rurais nos primeiros três anos e pretendem agregar de 20 a 50% mais valor ao preço da saca.
O Espírito Santo é o maior produtor de café conilon do país e o segundo maior produtor do mundo, perdendo apenas para o Vietnã. Ainda assim, a Cooabriel acredita que a produção pode se expandir para atender mercados mais exigentes. A preocupação, no entanto, é que para atingir esse objetivo é preciso que a produção alcance uma qualidade exigida pelo mercado.
"Queremos sair de um café de baixa qualidade para competir com os melhores cafés do mundo"
Lucas Louzada Pereira - Coordenador das ações de Pesquisa e Desenvolvimento do Ifes
"Os últimos 30 anos de investimento nessa produção foi em produtividade e não qualidade. Vamos fazer a reestruturação total da forma de processamento do café conilon com foco na qualidade para ajustar o pós-colheita e mostrar para o mundo que é um produto que pode ser consumido de forma pura, quebrar o estigma de que é um café que não tem qualidade", aponta o coordenador das ações de Pesquisa e Desenvolvimento do Ifes, professor Lucas Louzada Pereira.
O projeto vai trabalhar em quatro frentes de trabalho, de forma simultânea, e envolver mais de 100 pessoas entre bolsistas, professores e produtores. O plano é reeducar os produtores no processo pós-colheita; rever a manipulação de torra para criar parâmetros de processo específicos para o conilon; estimular o consumo apresentando a produção de forma pura no Estado, Brasil e no mundo; e a elaboração de um diagnóstico para que a iniciativa se torne política pública ou, "pelo menos" políticas internas na cooperativa. O investimento será de R$ 956 mil.
"Os produtores que do interior ainda não perceberam a porta que pode se abrir para o conilon. A iniciativa traz uma esperança muito grande de vantagem competitiva para um produto que, até então, era um 'patinho feio'. Como o produtor já tem a produção do café no sangue, faz isso como ninguém, quando ele perceber que com pouco mais investimento ou com uma reestruturação do processo ele consegue um retorno maior, esse é um caminho sem volta", pontua Carlos Augusto Pandolfi, gerente corporativo comercial e técnico da Cooabriel.
Plantação de café no Norte do ES
Plantação de café no Norte do ES Crédito: Cooabriel
O trabalho começa, segundo Pandolfi, na conscientização do próprio produtor quanto ao "tesouro" que pode ter em suas mãos. "A pegada é o produtor começar a sentir o sabor do seu próprio produto. O processo é na mudança de percepção de valor do grão que ele já sabe como colher de cor. Começa com ele provando o café e podendo comercializar de forma mais vantajosa, isso pode mudar a vida de uma família", completa.

COMPETITIVIDADE NO MERCADO

As famílias de produtores capixabas esperam por isso. Flávio Bastianello, de 43 anos, é um dos produtores de Nova Venécia que vai participar da iniciativa. Convidado pela cooperativa para receber o treinamento, Bastianello vê a possibilidade de investir para colher um produto competitivo, principalmente diante das secas e o mercado instável que têm dificultado os lucros.
"Nosso café não é café de montanha, que as vezes é de qualidade melhor. A gente nunca tentou buscar mercado pra competir com esses cafés melhores, porque quem tentou não conseguiu. Não conseguimos fazer uma bebida fina como o café arábica. Estamos torcendo, esperançosos e otimistas que dê certo", afirma.
O produtor, que cresceu assistindo ao pai cuidar da produção, comemora principalmente o fato de que o projeto vai além da reestruturação nos processos. A parceria já tem buscado mercado no exterior, apresentando o café para potenciais clientes no Japão, Alemanha, América do Norte, Rússia e Reino Unido. Esse processo de divulgação tem sido feito de forma intensa, garante o professor Lucas. "Os clientes pagam bem mas querem um café com história. Estamos divulgando isso", declara.
"É um projeto ambicioso porque já tem mercado, já estão buscando comprador. Dá muito mais segurança", celebra Bastianello.
As primeiras ações estão marcadas para começar ainda neste mês, quando começarem as colheitas.

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