De pragas a desastre ambiental, os produtores de cacau já tiveram que sobreviver a muitas perdas. As chamadas “bruxas do cacau” ameaçam a cultura no Espírito Santo há cerca de duas décadas. Quando um problema era controlado, outro surgia. O último ainda deixa rastros. Quando o Estado estava retomando sua colheita, a Barragem de Fundão, em Mariana (MG) se rompeu levando para o Rio Doce lama de rejeitos de minério da Samarco e arrasando os plantios de cacau pelo caminho. Antes, outras ameaças adoeceram as lavouras.
Há 20 anos, o Espírito Santo estava no seu auge no plantio de cacau, o Estado era o segundo maior produtor do país. Hoje, ocupa a terceira colocação neste mesmo ranking, colhendo apenas 5,3 mil toneladas por ano, número bem inferior ao do segundo colocado, o Pará, com 67 mil toneladas, e da Bahia, primeira colocada, com 85,2 mil.
A chegada da vassoura-de-bruxa (doença causada por fungo) em Linhares, no Norte do Estado, principal município produtor da fruta, marca o início do período de decadência da cacauicultura no Estado. Os belos plantios foram atingidos pela praga, em 2001, devastando lavouras inteiras em pouquíssimo tempo. A doença, que na época era uma velha conhecida da Bahia, já estava sendo aguardada com muita aflição pelos agricultores capixabas.
Considerada o câncer do cacau, a vassoura-de-bruxa é um fungo nativo da Mata Atlântica. Ela penetra pelas partes mais novas da planta e causa inchamentos no ramo. Depois de cinco a sete semanas, ele morre. O ramo seca e fica com um aspecto de vassoura.
Muitos produtores abandonaram a plantação pelo desânimo de continuar a cultura. A maior parte das 600 fazendas de cacau do município de Linhares foram afetadas. A produção, que chegou a 14 mil toneladas de amêndoas (parte de dentro do caroço com que é feito o chocolate), por ano, despencou.
Mauro Rossoni Júnior, produtor de cacau e presidente da Associação dos Cacauicultores do Estado do Espírito Santo (Acau) trabalha com o fruto desde 2007 e viu os estragos provocados pela doença que afetou os 135 hectares de seu cultivo, em Linhares. A vassoura atingiu o plantio que era muito produtivo e foi quase a zero.
"Depois da planta ser afetada ela definhava e não dava mais para recuperar. Tivemos que enfrentar a doença substituindo as plantas mais antigas por algumas mais tolerantes a ela, fazendo um trabalho de renovação e mecanização da lavoura da cabruca para acelerar a recuperação da área"
A cabruca é um sistema de cultivo de cacau em meio a mata nativa. Em Linhares, muitos produtores realizam esse plantio junto à natureza. Foi nesta mesma área que alguns produtores se aproveitaram da situação para derrubar a mata e fazer outros plantios, o que é proibido por lei, depois que a doença foi controlada.
LARVA TAMBÉM GEROU PREJUÍZOS ÀS LAVOURAS CAPIXABAS
Quase uma década depois, em 2012, foi a vez da broca do cacau chegar a Linhares para arruinar novamente a produção. A lavoura que estava começando a se recuperar foi afetada pela carmenta, uma larva de mariposa que perfurava a casca do cacau e comprometia praticamente todas as amêndoas.
O Estado foi o primeiro a registrar a infestação no país. Naquele período não havia solução para combater a praga. Na época, um produtor disse que 36% dos frutos produzidos foram infectados pela lagarta. Em 2017, a praga voltou a Linhares e atingiu de 15 a 20 fazendas. Depois, os pesquisadores descobriram que a prevenção é a maneira mais eficiente de lidar com a infestação.
RIO SUJO DE LAMA
O pesadelo da cacauicultura capixaba não se limitou a infestações de pragas. Na tarde do dia 5 de novembro de 2015, em Bento Rodrigues, Minas Gerais, uma barragem se rompeu levando milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério e toda a fauna e flora ao seu redor. Considerado um dos maiores desastres ambientais do mundo, o estouro da barragem em Mariana desceu o Rio Doce e chegou ao Espírito Santo algumas semanas depois.
O rio mudou de cor. A água transparente deu lugar à lama da Samarco - responsável pela represa-, ficando laranja. Quem vivia da pesca do rio não podia mais pescar. Quem usava água para irrigar as lavouras teve que parar. Plantios de cacau que ficavam às margens do rio foram inundadas pela lama e outras definharam pela falta d’água.
“Estávamos vindo de uma renovação de lavouras impactadas pela vassoura-de-bruxa que dizimou o plantio de cacau em Linhares. Então, veio a lama. Proibiram a irrigação e a roça foi toda perdida. Primeiro veio a praga e, depois, o impacto ambiental. A lama passou por cima da lavoura”, lembra Antonio Bourguignon, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Linhares.
Ele estima que, apenas em Linhares, mais de cinco mil hectares de cacau foram dizimados pela lama. “Você não consegue nem cuidar da roça mais. Tudo foi arrasado. Tivemos que erradicar o plantio. Depois de plantada, as árvores demoram cinco anos para chegar a sua produtividade máxima, quando estávamos voltando a esse patamar a tragédia aconteceu”, lamenta.
SAMARCO DIZ QUE 15 PRODUTORES SERÃO INDENIZADOS
Desde que foram impactados pela lama da barragem de Mariana (MG), os agricultores pedem reparação pelos prejuízos à Samarco. A Fundação Renova, responsável pelo atendimento às vítimas do desastre, identificou 15 produtores de cacau que foram impactados.
Por nota, a Renova respondeu à reportagem que está em discussão com os advogados dos produtores de cacau do Espírito Santo já identificados sobre as propostas de indenização relativas aos danos verificados.
Segundo a fundação, dos 21 cacauicultores identificados, seis não sofreram danos diretamente causados pelo rompimento da barragem. Com relação aos demais 15 produtores, sete já receberam propostas de indenização, das quais seis foram aceitas. Outros oito estão em atendimento.
"A Fundação Renova pagou, até 30 de novembro, R$ 2,04 bilhões em indenizações e auxílios financeiros emergenciais para cerca de 320 mil pessoas. No Espírito Santo, foram desembolsados cerca de R$ 950 milhões"