“Eu tenho a feliz missão aqui na Terra de servir e ajudar o próximo através do meu trabalho. Esse é meu propósito de vida! Essa chama que arde no meu coração só aumenta cada vez que faço o bem a alguém.” O relato é a da soldado do Corpo de Bombeiros Priscila Rocha, que na última quarta-feira (16) atuou junto com a equipe de resgate em uma operação na Terceira Ponte.
O trabalho durou cerca de três horas e interditou a principal via de ligação entre a Vitória e Vila Velha, nos dois sentidos. Além do Corpo de Bombeiros, também participaram da ação policiais militares e equipes de resgate da concessionária Rodosol. No final, o que se viu foi a força de um abraço, mostrando que a empatia é um fator determinante em um momento como este.
“Quando o atendimento terminou dei um abraço forte nela e disse: Parabéns! Você venceu a luta de hoje, não está sozinha e não precisa passar por isso sozinha. Eu não ia desistir de você”, recorda.
A soldado relata que, neste tipo de ocorrência, o protocolo utilizado é o de convencimento, na tentativa de argumentar, conversar e convencer a pessoa a desistir de por fim à própria vida e, ainda, para que ela não tente fazer novamente.
Ela foi o primeiro contato da mulher que estava sendo atendida, tentando entender o motivo. Nesta hora, o que fala mais alto é a empatia.
“É impossível realizar o atendimento sem sentir a dor daquela pessoa. Sabemos que para que alguém chegue a este ponto, está sentindo dor e sofrendo. Precisamos entender esse lado e nosso papel é convencer a desistir, mostrar que essa não vai ser a solução e que será uma luta diária”, comenta.
O resgate ocorreu em horário de intenso movimento na Terceira Ponte, por volta das 19 horas. A negociação tem como objetivo o convencimento, por isso é necessária a interdição de ponta a ponta. A soldado ressalta que a estratégia é para preservar a vida, já que muitas pessoas não têm a mesma empatia e passam nos veículos gritando.
“O primeiro contato é muito importante no decorrer das negociações. Me afastei para que a PM realizasse esse trabalho. Por fim, ela pediu para que me chamasse. Ficamos felizes por atingir o nosso objetivo, que é proteger a vida. O abraço foi algo espontâneo e emocionante”, lembra.
A soldado está na instituição há quatro anos. “Trabalhar como bombeira é muito além de uma profissão. É um propósito de vida. Descobri minha missão na Terra. Quando ajudo neste tipo de ocorrência, faço o bem para mim mesma”, afirma.
Importância do abraço
A importância do abraço em momentos difíceis é retratada em um painel pintado no Quartel do Corpo de Bombeiros, em Vitória. A cena traz o momento do abraço entre uma cabo e uma mulher resgatada em uma operação na Terceira Ponte.
O resgate foi realizado em abril de 2021 pela cabo Thais Lauff. A princípio, o atendimento seria para outra mulher e não a que aparece na imagem. A situação estava mais controlada até que a equipe que realizava o atendimento foi avisada de que uma segunda pessoa estava subindo a ponte no sentido Vitória.
Após 40 minutos de conversa, a cabo Thais Lauff estendeu silenciosamente as mãos para a mulher, que ao perceber essa atitude, se voltou para a bombeira, olhos em seus olhos por alguns segundos e disse: "Você pode me dar um abraço?".
Entre outubro de 2022 e julho de 2023 não foram registrados casos de pessoas que tiraram a própria vida na Terceira Ponte. O período coincide com a instalação, em sua totalidade, das grades de prevenção na Ciclovia da Vida Detinha Son, que será inaugurada na próxima semana.
Dados da Rodosol, concessionária que administra a via, apontam que o número de ocorrências reduziu no primeiro semestre comparado com o mesmo período de anos passados.
O procedimento adotado pelo Corpo de Bombeiros em casos de acionamento para este tipo de ocorrência na Terceira Ponte é o de esvaziar todas as pistas e fechar acesso a motoristas em ambos os sentidos, Vitória e Vila Velha.
Todos os agentes da corporação são treinados para atuar nesse tipo de ocorrência. Ao ser acionado, o chefe de operações aciona os demais profissionais, que se equipam com equipamentos para salvamento em altura. A atuação dos bombeiros consiste em conversar com a pessoa e convencê-la a desistir.
Mesmo após a instalação da grade de proteção, a corporação não prevê mudar esse protocolo de atendimento, como informou a tenente Andreza, em entrevista publicada por A Gazeta.