Nas investigações do caso do jovem que foi socorrido na Praia do Ermitão, em Guarapari, com o abdômen cortado e parte do intestino exposto, a Polícia Civil ouviu o depoimento de sete pessoas. Os relatos fazem parte do documento final que resultou no indiciamento da namorada da vítima Lívia Lima Simões Paiva Pereira, de 20 anos, como autora das lesões.
A Polícia Civil afirma não ter dúvidas de que o casal estava sozinho no parque, com base em duas evidências: o fato de que nenhuma outra pessoa foi vista entrando ou saindo da praia do Ermitão na madrugada do crime, e as marcas de ferimentos nas mãos da jovem, chamadas de "ferimentos de ataque".
Além de uma ligação feita pela mãe para Lívia, de cerca de 50 minutos, onde ela afirma que durante este tempo só ouviu a filha e, em alguns momentos, a voz do rapaz falando da Praia do Ermitão.
O relatório serviu de base para a denúncia formulada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que apontou ser a jovem a autora das lesões. No último dia 19, a Justiça estadual aceitou a denúncia, e Lívia se tornou ré em uma ação penal, e vai responder por lesão corporal grave e, caso seja condenada, a pena é de reclusão de 2 a 8 anos.
O crime aconteceu no dia 16 de janeiro. O casal foi a uma das praias do Parque Morro da Pescaria, localizado no final da Praia do Morro para um luau de despedida, uma vez que o rapaz faria uma viagem ao exterior.
Como o local já estava fechado, entraram pela trilha lateral, pelas pedras. Lá segundo o próprio relato do jovem casal, eles tomaram banho de mar, beberam vinho, conversaram, fizeram sexo e ainda o uso de droga - um “quadradinho” de LSD.
Segundo a denúncia — a qual A Gazeta teve acesso — por motivação desconhecida e impulsionada pelos efeitos do uso das drogas, “a denunciada, utilizando objeto cortante, golpeou a barriga do réu e o rosto dele, causando-lhe as lesões gravíssimas estampadas nas fotos e vídeos juntadas aos autos (processo), bem como no prontuário médico, que determinaram a debilidade permanente do intestino delgado da vítima, deformidade permanente e fratura da cavidade nasal e seio maxilar”.
VEJA O QUE DISSERAM AS PESSOAS OUVIDAS PELA POLÍCIA CIVIL
1 - Funcionário do Parque Morro da Pescaria, prestou depoimento em 31 de janeiro
Trabalha no parque há 12 anos. O local possui videomonitoramento da entrada até a sede, que fecha às 16 horas, e que depois deste horário é monitorada apenas a saída. Disse que o casal passou pela trilha de pedras, segundo as imagens, mas que ele não viu.
No dia do crime, informou que por volta das 4h20, uma moça de cerca de 21 anos foi até a recepção e disse que o namorado tinha se cortado com vidro e que sangrava muito. Falou que estava na praia, mas não sabia informar em qual local.
Disse que Lívia aparentava estar embriagada, falando sem nexo e sem conseguir concatenar as informações. Ele informou que não poderia sair da guarita, mas que iria chamar o Samu. Antes de ligar, o pai da garota apareceu e pediu para entrar junto com uma outra pessoa, que estava com uma moto. Eles entraram e encontraram o namorado. Logo depois o Samu foi acionado. Disse que só viu o rapaz ferido no momento do socorro.
2 - Lívia Lima Simões Paiva Pereira, namorada, prestou depoimento em 31 de janeiro
Acompanhada do advogado Lécio Machado, informou que se encontrou com o namorado na casa dele, por volta das 20h. O casal decidiu ir ao parque, que naquele horário já estava fechado. Passaram pelo acesso pelas pedras. Não avisaram a ninguém que iam ao local para uma despedida, já que o namorado viajaria para o exterior.
Foram para a Praia do Ermitão, onde ficaram na areia, tomaram vinho, cerca de duas taças, conversaram, ouviram musica, tomaram banho de mar, fizeram sexo e usaram droga - “um papel que tinha sido conseguido pelo namorado”. Cada um ingeriu um quadradinho.
Disse que tem poucas recordações do que aconteceu, e que quando tomou consciência, percebeu que estava escuro, que o namorado estava com a cabeça em seu colo e que ele reclamava de frio. Apesar de não ver direito o local onde estava, disse que percebeu que ele estava com a barriga machucada e que ela estava lesionada na mão e na cabeça. Achava que tudo estava acontecendo era “coisa da cabeça dela” e que não se recordava de ter falado com ninguém naquela noite.
Falou que pediu ajuda na guarita do parque, mas que não conseguiu, e que saiu do local, onde encontrou seu pai. Ele acionou a polícia e um vigia de um restaurante próximo o ajudou, com uma carona na moto, levando-o ao local onde estava o namorado.
Ela não se recorda de como aconteceram suas lesões, e não se lembrava de ter agredido o namorado. E ainda que não acredita que se agrediram mutuamente, e que o único objeto cortante que possuía era uma garrafa de vinho. Relatou ainda que sumiram alguns objetos, como uma caixa de som, R$ 60 reais e um Iphone.
Informou que não havia motivo para que ela e o namorado brigassem e se lesionassem porque estavam felizes e que continuam se falando. Disse que já o tinha visitado e que eles não se lembravam do que tinha acontecido
Disse que o namorado era muito mais forte do que ela e que não era plausível que ela pudesse agredi-lo (namorado). Sobre as lesões que ela apresentava, informou que ao ser atendida no Hospital de Anchieta, o médico disse que as lesões eram concentradas no lado direito do seu rosto, de modo que deveriam ser causadas por uma pessoa canhota, e que as lesões que foram causadas no namorado, foram golpes aplicados com muita força, e que ela (Lívia) não teria força suficiente para causá-las.
Disse ainda que se vê como vítima do ocorrido e que as drogas estavam escondidas na capa do celular do namorado.
3 - Padrasto de Lívia, prestou depoimento em 31 de janeiro
Informou que não sabia que eles iriam para a Praia do Ermitão, e que ficou combinado de Lívia ligar para a mãe por volta da 1h, mas que no horário combinado ela não atendeu. Disse que a mãe fez novas tentativas de contato mas que ela só atendeu por volta das 2h20, quando pediu socorro dizendo que estava no Morro da Pescaria.
Informou que foi acordado pela esposa e que foi até o local, onde chegou por volta das 4h e encontrou Lívia na trilha, e que ela disse que o namorado precisava de ajuda. Informou que um vigia de um restaurante próximo ofereceu ajuda e deu carona em uma moto até a praia.
Lá encontrou a vítima segurando um pano na barriga, depois percebeu que eram as vísceras que ele segurava. Que o colocou deitado e pediu socorro. Ao olhar no entorno encontrou as vísceras e que a vítima disse que o celular estava na pedra, mas que não o encontrou, que no local tinha uma caixa de som e notas espalhadas
Disse ainda que Lívia não se lembrava do que tinha acontecido, que estava machucada, desorientada e somente ficou consciente quando chegou ao hospital. O fato aconteceu logo após o socorro ao namorado, quando a jovem foi levada para a UPA de Guarapari e depois para o Hospital de Anchieta. Informou que Lívia fez exame toxicológico e que nada foi identificado (não há informações sobre este teste no prontuário do Hospital de Anchieta).
Por último informou que o casal namorava há quase um ano e que nunca brigou.
4 - Mãe de Lívia, prestou depoimento em 31 de janeiro
Informou que a filha foi para a casa do namorado e que o combinado era buscá-la à 1 hora. Como ele não atendeu, continuou insistindo na ligação, mas só conseguiu falar com ela por volta de 2h20. Foi quando ela pediu ajuda sem dizer o que estava acontecendo. Informou que a ligação durou cerca de 50 minutos e que somente conversou com Lívia, que somente em 3 momentos ouviu a voz do namorado falando Morro da Pescaria.
Foi ao local, mas não conseguiu entrar, e que ao telefone a Lívia pedia ajuda para ela e o namorado. Como em determinado momento ela parou de falar, ela decidiu ir em casa e chamar o marido.
No momento em que Lívia foi encontrada ela estava visivelmente em choque, e a levaram para o UPA de Guarapari, e depois para o Hospital de Anchieta, e a filha disse que não se recordava do que aconteceu. Disse ainda que durante a ligação não ouviu a voz de estranhos.
Informou que a filha e o jovem tem um relacionamento há 6 meses e que eles nunca tiveram uma briga, e que depois dos fatos eles continuam namorando e não acredita que eles se agrediram mutuamente.
5 - Mulher que prestou ajuda para a mãe de Lívia, prestou depoimento em 4 de fevereiro
Ela estava próximo à entrada do parque, na praia, quando por volta de 1h viu uma mulher procurando a filha. Disse que a ajudou a procurá-la, mas que depois de um tempo a mãe foi embora.
Por volta de duas horas depois, informo que chegou ao local um homem procurando a mulher, e que se apresentou como o pai da garota desaparecida. Que o homem pulou a porteira do parque e conversou com o vigia, que o ajudou a procurar a filha.
Uns 15 minutos depois, o homem voltou com a garota, que estava muito suja de areia e andando, mas que não percebeu se ela estava suja de sangue ou se apresentava lesões. Disse que o pai pediu que ela ligasse para o Samu e que depois a ambulância chegou e a testemunha foi embora para casa.
6 - Vigia que ajudou o pai de Lívia, prestou depoimento em 4 de fevereiro
Atua como vigia de um restaurante e faz seu trabalho com moto. No dia do crime, concluía o dia de trabalho quando percebeu uma movimentação na entrada do parque e ficou sabendo que um homem estava procurando a filha.
Ao se aproximar soube que a filha tinha sido encontrada e encaminhada ao hospital pela mãe, quando o pai pediu ajuda para que fosse levado até a Praia do Ermitão, onde estaria o namorado.
Foram ao local, onde encontraram o jovem em pé, segurando a barriga. Disse que ele estava calado e só respondia o que perguntavam, que não sabia o que tinha acontecido. O jovem informou que tinha usado droga e bebido vinho. Continuou conversando com o jovem para mantê-lo acordado, e que deu o celular para o pai da garota para chamar o Samu.
Informou que ficou no local até umas 5h30, quando chegou um representante do parque, que ficou com o pai da garota. Disse ainda que o rapaz estava ferido na testa, na barriga, e rosto, e que o corte na barriga do rapaz era torto, que podia ter sido feito com garrafa de vinho, pois ela estava quebrada.
Que o local estava totalmente bagunçado, com tudo revirado e sujo de sangue, e que a jovem também estava suja de sangue, e que não estava no local quando o rapaz foi socorrido.
7 - Vítima, namorado da Lívia, prestou depoimento em 24 de fevereiro
Relata que entraram no Parque Morro da Pescaria pelas pedras e que no caminho encontraram com 4 pescadores. Diz ainda que tomaram vinho, cerca de duas taças cada um, ficaram ouvindo música, fizeram sexo, mergulharam.
Depois de um tempo retornaram para a areia, se secaram, ficaram conversando por uns 20 minutos e utilizaram um “quadradinho” de LSD (droga sintética). Cinco minutos depois, segundo o relato do jovem, Lívia começou a ter alucinações visuais primeiro, vendo alguma coisa no céu, que o céu estava se mexendo. Na sequência ele também começou a sentir os mesmos efeitos.
Permaneceram na areia por cerca de 20 minutos, conversando e tendo alucinações. A partir deste momento o jovem relata que as informações são confusas mas que se recorda de estar sentindo muito medo. “Estava correndo muito, apavorado e correndo de alguma coisa”, disse o jovem.
Declarou ainda em seu depoimento se recordar de uma sensação de pavor de alguma coisa que o chocou muito e que começou a correr, sem conseguir explicar o que era. Informou ainda que se recordava de, neste momento, ter sido atingido por alguma coisa, que recebeu uma pancada na cabeça e que foi atingido várias vezes na barriga.
Os momentos de pavor, segundo o jovem, ocorreram em um momento em que eles decidiram andar pelas pedras e pela trilha. Foi quando estava sentindo muito pavor o momento que se recorda de ter sido lesionado na cabeça.
Disse que não havia ninguém na praia além deles e que só teve contato com alguns pescadores na pedra de acesso ao parque. Acredita que Lívia se lesionou ao tentar defendê-lo.
Disse que foi a primeira vez que usou a droga, que a comprou com um conhecido, mas se recusou a informar o nome da pessoa. Disse ainda que dentre seus objetos, sumiram uma caixa de som, seu Iphone e cerca de R$ 80.