Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Técnicas avançadas

Como investigação no estilo CSI ajudou a descobrir suposta milícia no ES

A equipe do MPES lançou mão de aplicativos de medição de passos por sensor telefônico até identificação biométrica para apontar os suspeitos de atuarem no grupo criminoso

Publicado em 08 de Julho de 2022 às 19:46

Vilmara Fernandes

Publicado em 

08 jul 2022 às 19:46
A investigação criminal que ajudou a descobrir a atuação de uma suposta milícia no Espírito Santo, que conta com a participação de policiais militares, guarda semelhanças com séries norte-americanas, no estilo CSI. Foram utilizadas imagens de videomonitoramento de Vitória, das redes sociais, o Google Maps, a medição de passos por sensor telefônico,  identificação biométrica entre outros recursos para identificar os membros da organização criminosa e provar de sua atuação.
Presos na operação da Gaeco desta sexta (13) foram conduzidos ao DML de Vitória
Presos na Operação "La Liga", em 13 de maio, foram conduzidos ao DML de Vitória Crédito: Vitor Jubini
O trabalho, que resultou na denúncia apresentada à Justiça estadual nesta quinta-feira (7), foi realizado pela 14ª Promotoria Criminal de Vitória e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPES.
O texto afirma que os denunciados, que contavam com uma sétima pessoa, ainda não identificada, “integravam e mantinham organização paramilitar, milícia particular, grupo armado com finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos no Código Penal”.
As seguintes pessoas foram identificadas como membros da milícia que atuava na Grande Vitória e denunciadas:
  • Cabo Ronniery Vieira Peruggia
  • Cabo José Moreno Valle da Silva, vulgo Moreno 
  • Cabo Welquerson Cunha de Moraes, vulgo Moraes 
  • Walace Luiz dos Santos Souza
  • Glaydson Alvarenga Soares, vulgo Pajé 
  • Soldado Josemar Fonseca Lima, vulgo Baiano
Confira abaixo alguns detalhes da investigação:

IDENTIFICAÇÃO POR BIOMETRIA

Um dos policiais que supostamente participa do grupo de milícia teve seu nome confirmado através da Perícia de Identificação Biométrica. O trabalho foi feito pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Foram utilizadas imagens do videomonitoramento, que registrou uma das incursões do grupo. O soldado Josemar Lima Fonseca estava sentado no banco traseiro do veículo Toyota Corolla, ao lado de dois homens.
Identificação do soldado JOSEMAR FONSECA LIMA, suspeito de atuação em milícia
Identificação do soldado Josemar Fonseca Lima, suspeito de atuação em milícia Crédito: Denúncia do MPES
A imagem foi comparada com outra foto do militar, em posição semelhante, obtida em suas redes sociais. “Confrontadas com o arquivo obtido através da rede social Instagram, apresentando resultado positivo, inclusive com a sobreposição de imagens”, informa o texto da denúncia sobre a confirmação da identificação do policial.
Identificação soldado Josemar
Comparação biométrica para identificação do soldado Josemar Crédito: Denúncia do MPES
Outro denunciado que também teve sua identificação confirmada com imagens do dia do crime foi o também denunciado Glaydson Alvarenga Soares, o Pajé. Foi utilizada a imagem dele desembarcando da garupa da motocicleta e caminhando no local do crime. Ela foi submetida à Perícia de Identificação Biométrica realizada pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Glaydson Alvarenga Soares, o Pajé
Glaydson Alvarenga Soares, o Pajé Crédito: Denúncia MPES
A imagem foi comparada com outras obtidas nas redes sociais de Pajé. “Nota-se que, na fase de balanço, a perna direita de ambos realiza um movimento de aparente projeção da perna. Na sequência do vídeo, observa-se que tocam o pé direito no solo por inteiro, caracterizando o tipo de pisada chamada de médio pé, tornando o momento de transição da pisada característico. Realizam também a movimentação peculiar de braços, com destaque para o braço esquerdo, com propensão a uma postura de afastamento de ambos os braços em relação ao tronco de forma convergente, associado à flexão parcial”, é relatado na denúncia.

USO DO GOOGLE MAPS

Pelo aplicativo do Google Maps foi possível confirmar que, no dia anterior ao seu depoimento à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Walace Luiz dos Santos Souza se encontrou com outro denunciado, o cabo José Moreno Valle da Silva, o Moreno. O encontro foi confirmado posteriormente pelas imagens de monitoramento do prédio.
Encontro na casa do cabo José Moreno Valle da Silva, o Moreno.
Encontro de Walace na casa do cabo José Moreno Valle da Silva, o Moreno. Crédito: Denúncia MPES
Segundo o texto da denúncia do MPES, Walace informou posteriormente que esse encontro foi marcado por telefone na véspera do depoimento. “Teve por objetivo combinar a melhor forma de inventar algo para ser declarado ao delegado”, é relatado.
A denúncia destaca que o cabo José Moreno está de licença médica para se afastar das atividades de trabalho por recomendação psiquiátrica, há mais de dois anos. “Entretanto, sua incapacidade para proteger e servir à sociedade do Estado do Espírito Santo não o impediu de praticar crimes de natureza hedionda”, é dito na denúncia.

SENSOR DE PASSOS DO TELEFONE

De acordo com a denúncia, quando ocorreu a Operação “La Liga”, o denunciado cabo Ronniery Vieira Peruggia não foi encontrado em sua residência. Naquela manhã, em 13 de maio, ele trocou seu chip de telefone de seu celular iPhone 8 Plus, que não foi apreendido, por um aparelho iPhone 6s, que foi entregue como sendo de seu uso.
Mas a troca de aparelho não excluiu as informações existentes no sensor de passos. “Apesar da manobra de ocultação de provas, a extração de dados do aparelho entregue revelou que o denunciado Ronniery, através do sensor do próprio aparelho telefônico, registrou movimentação”, diz o texto da denúncia.
No dia do crime, foram registrados, por exemplo, 534 passos das 00h21min54seg até as 00h27min09seg. “Os registros de movimento naquela madrugada vão até às 03h20min (78 passos), retornando os próximos registros apenas às 07h00min (57 passos), descartando hipótese de estar em repouso na madrugada do crime”, é relatado na denúncia. O crime acontece próximo às 2h.

CABO FOI IDENTIFICADO PELO DESGASTE NA LATARIA DO CARRO

O cabo Ronniery Vieira Peruggia, proprietário do Honda Civic utilizado no dia crime, foi identificado, entre outras análises,  a partir do veículo, que tinha uma característica de desgaste/marcação no teto do automóvel.
Carro do cabo RONNIERY VIEIRA PEUGGIA  usado no dia do crime
Carro do cabo Ronniery com placa fria Crédito: Denúncia MPES
A imagem foi comparada com outra obtida no Instagram da esposa do cabo Ronniery, onde o veículo aparece com o mesmo padrão de desgaste. 
Carro do cabo RONNIERY VIEIRA PEUGGIA  usado no dia do crime
Carro do cabo Ronniery com a placa original Crédito: Denúncia MPES
Na denúncia, é relatado que, após o uso do carro no crime de homicídio, o cabo Ronniery vendeu o veículo  "sem que houvesse registro da cadeia sucessória do automóvel em seu nome (ocultação da propriedade). Confirmou-se, no entanto, por prova testemunhal, que o veículo Honda Civic de placas JUO 9981 foi adquirido pelo denunciado Ronniery", diz o texto.

CRIME FOI PLANEJADO NA CASA DE POLICIAL

O planejamento do crime e até de outras atividades ilícitas do suposto grupo de milícia aconteceu na casa do militar Ronniery Peruggia. A investigação apontou que eles se reuniram na noite da véspera do homicídio. As ações deles foram registradas em fotos encontradas no celular de Walace.
“É possível observar muitas munições, arma de fogo, rádios comunicadores iguais aos apreendidos com o denunciado Josemar (equipamentos que não integram a carga da PMES)”, informa o texto da denúncia.
Encontro na Casa do cabo Ronniery
Encontro na casa do cabo Ronniery Crédito: Denúncia MPES
O encontro contou ainda com a participação de José Moreno, cuja presença foi identificada no local por uma Estação Rádio Base (ERB), que permite localizar os celulares.

CIVIL COM MATERIAL BÉLICO

A investigação aponta que havia uma ligação próxima entre Walace e Glaydson com os outros denunciados que são militares. Em foto extraída do celular, Glaydson aparece “segurando um giroflex, objeto típico de identificação de veículos policiais, em uma possível viatura descaracterizada”, aponta a denúncia. O post tinha a seguinte legenda: "Aqui é polícia, pô, operação”.
Glaydson Alvarenga Soares, vulgo Pajé
Glaydson Alvarenga Soares, vulgo Pajé, em suposta viatura descaracterizada da polícia Crédito: Denúncia do MPES
Na casa de Glaydson também foram apreendidos diversos petrechos que eram destinados para “prática de atividades ilícitas de verdadeira milícia privada (toucas ninja, peruca, algemas, coldres, porrete”, aponta a denúncia.
Material apreendido na casa de Glaydson Alvarenga Soares, vulgo Pajé
Material encontrado na casa de Glaydson Alvarenga Soares, vulgo Pajé Crédito: Denúncia do MPES

COLETE BALÍSTICO DA PM USADO EM CRIME

Pelas imagens do videomonitoramento de Vitória, foi possível identificar que o carona da moto que foi utilizada no dia do crime usava o colete da Polícia Militar.
Pessoa acusada de participar de crime em Itararé usava colete da PMES. A suspeita é de participação de três policiais em atuação aparente de grupo de extermínio
Um dos acusados de participar do crime utilizava colete balístico da PMES por baixo da camisa Crédito: Processo criminal do TJES
A investigação apontou que a pessoa que usava o colete era o cabo José Moreno Valle da Silva, o Moreno. O condutor da moto, que estava com placa fria, segundo a denúncia, era Walace.

HOMICÍDIO E OUTROS ATOS ILÍCITOS

A denúncia do MPES encaminhada à Justiça estadual, que A Gazeta teve acesso, informa que o grupo realizava “incursões ilícitas” pelas ruas da Grande Vitória “com o propósito de cometer crimes e ilegalidades”.
“Em atividade típica de organização paramilitar, mediante a associação clandestina de policiais e de civis, com utilização de armas, placas frias e outros petrechos para dificultar identificação do grupo, tais quais radiocomunicadores para evitar comunicações interceptáveis e registros de dados de localização, uso de bolsa térmica próprias de entregadores-disfarce, entre outros meios de eliminação de provas de crimes”, informa o texto da denúncia.
Um dos crimes praticados pelo grupo aconteceu no dia 21 de fevereiro, na praça do bairro Itararé, em Vitória. No local, Felypy Antônio Alves Chaves, o Cambalaxo, foi assassinado ao lado da arquibancada do campo de futebol, por volta das 2h, com vários disparos de arma de fogo.
No dia, um carro com quatro ocupantes e uma moto, com dois ocupantes, chegaram a uma rua próximo à Unidade de Saúde de Itararé. Segundo o MPES, Walace pilotava a moto e, com ele, na garupa, estava Glaydson. A moto foi utilizada pelos dois para bloquear o tráfego - sendo colocada, inclusive, em um cavalete -, e ali a dupla permaneceu para garantir a interdição da via.
“O bloqueio da rua garantiu e impediu qualquer contratempo capaz de atrapalhar a execução do homicídio planejado por eles e, assim, assegurou a prática do crime”, é informado na denúncia.
As imagens de videomonitoramento obtidas pela investigação mostram que Walace, durante o tempo em que permaneceu bloqueando a rua, empunhava uma arma de fogo.
Os outros membros do grupo estavam em um carro, um Honda Civic. Na época, o veículo pertencia ao cabo Ronniery Vieira Peruggia, que alterou sua placa, utilizando uma fria. Ele era o condutor no dia do crime. Com ele estavam outras três pessoas: o cabo José Moreno, o cabo Welquerson e um terceiro, não identificado.
Nas imagens do videomonitoramento obtidas pela investigação, é possível ver que os quatro saem do veículo e seguem para a quadra, local do homicídio. No caminho, abordam duas pessoas que, em seguida, são liberadas. Na sequência, tiros são disparados na quadra e foram registrados por uma câmera de videomonitoramento. Logo depois, seis pessoas deixam o local.

OUTRO LADO

Por nota, a Polícia Militar, por meio da Corregedoria da Corporação, informou que “está aguardando acesso oficial às conclusões das investigações conduzidas pelo Ministério Público, a fim de identificar o procedimento administrativo mais adequado ao caso concreto”.
O advogado Carlos Antonio Tavares, que faz a defesa do cabo Ronniery Vieira Peruggia, informou que não há fato concreto que justifique a prisão temporária do seu cliente. “Na medida cautelar acusam meu cliente de participar de grupo de extermínio e ofertam denúncia, como citada na matéria, de participação em milícia privada. A gente não sabe qual vai ser a próxima classificação que o MP vai dar com relação ao caso”, assinala.
Informa ainda que não foi respeitado o que foi determinado pela Justiça estadual na apreensão realizada na casa do seu cliente. “Houve apreensão de celular e documentos e a defesa não foi informada sobre a extração dos dados, conforme determinado na cautelar, que deveria ser feita na presença do réu ou de seu advogado”, informa, assinalando que não pode dar mais detalhes sobre o caso porque a investigação tramita em sigilo.
Caio Guerra Gurgel, que faz a defesa de Walace Luiz dos Santos Souza, informa que seu cliente permanece detido e que ele nega a participação em milícia ou grupo paramilitar. “Ele é um estudante de Direito, não é policial”, relata.
Informou ainda que não poderia informar mais detalhes para não atrapalhar a linha defensiva.
A defesa do cabo Welquerson Cunha de Moraes está a cargo de Sandra Maria Teixeira Nobre Grassi. Ela destaca que ele não participou e nem participa de nenhum grupo de extermínio ou paramilitar, e ainda que chama a atenção neste processo o fato do MPES mudar a sua alegação em relação aos denunciados. “Inicialmente, sem prova, alegou ser grupo de extermínio, e agora traz outra tese. Meu cliente é um excelente profissional, com vários elogios à sua pessoa pelo trabalho desenvolvido junto à Polícia Militar”, destaca.
Destaca ainda que houve a prorrogação da prisão temporária. “A meu ver, para aprofundamento das investigações, e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) já se posicionou que a prisão não pode se dar para aprofundamento das investigações sob pena de ferimento aos direitos constitucionais”, pondera.
A defesa dos demais denunciados não foi localizada para se manifestar.

Atualização

11/06/2022 - 1:22
A matéria foi atualizada com as informações dos advogados de defesa de três das pessoas denunciadas pelo MPES.

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Cartórios - 24/04/2026
Editais e Avisos - 24/04/2026
Sede do STF, em Brasília
Impasse sobre royalties do petróleo no STF precisa ser superado com a lógica

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados