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Violência

ES registra 1,2 mil assassinatos de crianças e adolescentes em cinco anos

Números mostram que os mais novos sofrem mais com violência doméstica, enquanto  os mais velhos são vítimas da violência urbana

Publicado em 01 de Novembro de 2021 às 09:02

Natalia Bourguignon

Publicado em 

01 nov 2021 às 09:02
Ysaquiely Junia, de 11 anos, tentou defender a mãe de ser esfaqueada
Ysaquiely Junia, de 11 anos, tentou defender a mãe de ser esfaqueada Crédito: Reprodução/ Facebook
"Eu sinto falta da maturidade dela. Era uma menina muito estudiosa que gostava de ficar no quarto com o fone de ouvido e estudando. Me dava conselhos que sempre me surpreendiam." O relato é de Lara Emanuelly Gonçalves da Silva, 18 anos. Ela perdeu a irmã, Ysaquiely Junia Gonçalves de Araújo, de 11 anos, e a mãe em um crime de feminicídio.  O caso aconteceu em Marataízes, no Sul do Espírito Santo, em setembro deste ano.
 A morte de Ysaquielly, esfaqueada pelo padrasto ao tentar proteger a mãe, expõe uma triste estatística para o Estado: pelo menos 1.214 mortes de crianças e adolescentes foram registradas entre 2016 e 2020. No ano passado, houve 210 casos, o equivalente a pelo menos um a cada dois dias.
ES registra 1,2 mil assassinatos de crianças e adolescentes em cinco anos
Os dados estão em um relatório conjunto entre a Unicef e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado na sexta-feira (22).
O documento compila ocorrências de mortes violentas intencionais, que são aquelas classificadas como homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, e como mortes em decorrência de intervenção policial.
A taxa de mortes violentas no Estado, segundo o relatório, é de 33 por 100 mil pessoas entre 10 e 19 anos, de acordo com dados de 2020. Embora seja menor que em anos anteriores - chegou a 48 em 2017 - ainda é bem maior do que nos demais Estados do Sudeste.
Em comparação, no ano passado, a taxa de Minas Gerais foi de 11,8, a do Rio de Janeiro foi de 22,54 e a de São Paulo ficou em 4,9.
O documento traz ainda o número de óbitos de crianças e adolescentes em intervenções policiais. No ano passado, o Espírito Santo teve 12 vítimas entre 10 e 19 anos mortas nessas circunstâncias.
A taxa é de 5,8% das mortes totais dessa faixa etária e está entre as mais baixas do país. Em São Paulo, essa taxa é de cerca de 44%.

PERFIL

Embora mortes de crianças mais novas causem mais comoção, a maior parte das vítimas no Estado está entre os adolescentes. De acordo com o relatório, cerca de 93% delas (1.129) nos últimos cinco anos tinham entre 15 e 19 anos.
Não há dados estaduais detalhando o sexo das vítimas, mas dados nacionais mostram que a maioria das mortes violentas envolve meninos.  Nas faixas etárias mais jovens, porém, a desigualdade de gênero é menor. Entre as aquelas com 0 a 4 anos, 35% são do sexo feminino. Entre 5 e 9 anos, 55% são do sexo feminino.
“No entanto, quando observamos os dados das vítimas com 10 anos ou mais, a diferença se aprofunda e se consolida: na faixa etária de 10 a 14 anos, 78% das vítimas são meninos; essa porcentagem sobe para 92% na faixa etária entre 15 e 19 anos”, diz o relatório.

RAÇA E COR

A cor das vítimas também varia segundo as faixas etárias. Embora negros sejam maioria entre os mortos em todas as idades, entre 0 e 4 anos a proporção de crianças negras é 58%; para as que tinham entre 5 e 9 anos, 68%; e entre os maiores de 10 anos de idade, 80% das vítimas são negras.

80% das vítimas

com mais de 10 anos são negras

MORTES EM CASA E NA RUA

O relatório da Unicef mostra ainda que há uma mudança envolvendo o local das mortes em relação à idade das vítimas.
Nas faixas etárias mais jovens, há uma porção maior dos crimes ocorridos no ambiente doméstico. Já a partir de 10 anos, a maior parte deles acontece nas vias públicas, ou seja, nas ruas.
Também foi identificada uma tendência similar em relação ao instrumento utilizado no crime e à relação do agressor com a vítima.
De acordo com o relatório, quanto mais velha for a vítima, maior a chance de ser morta por arma de fogo. Inversamente, quanto mais jovem é a vítima, maior é a frequência de uso de arma branca e agressão física como instrumentos da violência.
Em mortes violentas de crianças até 4 anos, o autor é alguém conhecido da vítima. Esse percentual diminui gradativamente de acordo com a faixa etária da vítima.
“Entre crianças, predominam características da violência doméstica: mortes em casa, causadas por pessoas conhecidas, muitas vezes por meios mais 'íntimos' do que armas de fogo (armas brancas e agressão física), com marcadores de gênero e cor/raça menos pronunciados. À medida em que elas e eles se tornam adolescentes, as características observadas indicam uma violência armada mais típica das áreas urbanas no Brasil nas últimas décadas”, aponta o relatório.

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