"Eu sinto falta da maturidade dela. Era uma menina muito estudiosa que gostava de ficar no quarto com o fone de ouvido e estudando. Me dava conselhos que sempre me surpreendiam." O relato é de Lara Emanuelly Gonçalves da Silva, 18 anos. Ela perdeu a irmã, Ysaquiely Junia Gonçalves de Araújo, de 11 anos, e a mãe em um crime de feminicídio. O caso aconteceu em Marataízes, no Sul do Espírito Santo, em setembro deste ano.
A morte de Ysaquielly, esfaqueada pelo padrasto ao tentar proteger a mãe, expõe uma triste estatística para o Estado: pelo menos 1.214 mortes de crianças e adolescentes foram registradas entre 2016 e 2020. No ano passado, houve 210 casos, o equivalente a pelo menos um a cada dois dias.
ES registra 1,2 mil assassinatos de crianças e adolescentes em cinco anos
Os dados estão em um relatório conjunto entre a Unicef e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado na sexta-feira (22).
O documento compila ocorrências de mortes violentas intencionais, que são aquelas classificadas como homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, e como mortes em decorrência de intervenção policial.
A taxa de mortes violentas no Estado, segundo o relatório, é de 33 por 100 mil pessoas entre 10 e 19 anos, de acordo com dados de 2020. Embora seja menor que em anos anteriores - chegou a 48 em 2017 - ainda é bem maior do que nos demais Estados do Sudeste.
Em comparação, no ano passado, a taxa de Minas Gerais foi de 11,8, a do Rio de Janeiro foi de 22,54 e a de São Paulo ficou em 4,9.
O documento traz ainda o número de óbitos de crianças e adolescentes em intervenções policiais. No ano passado, o Espírito Santo teve 12 vítimas entre 10 e 19 anos mortas nessas circunstâncias.
A taxa é de 5,8% das mortes totais dessa faixa etária e está entre as mais baixas do país. Em São Paulo, essa taxa é de cerca de 44%.
PERFIL
Embora mortes de crianças mais novas causem mais comoção, a maior parte das vítimas no Estado está entre os adolescentes. De acordo com o relatório, cerca de 93% delas (1.129) nos últimos cinco anos tinham entre 15 e 19 anos.
Não há dados estaduais detalhando o sexo das vítimas, mas dados nacionais mostram que a maioria das mortes violentas envolve meninos. Nas faixas etárias mais jovens, porém, a desigualdade de gênero é menor. Entre as aquelas com 0 a 4 anos, 35% são do sexo feminino. Entre 5 e 9 anos, 55% são do sexo feminino.
“No entanto, quando observamos os dados das vítimas com 10 anos ou mais, a diferença se aprofunda e se consolida: na faixa etária de 10 a 14 anos, 78% das vítimas são meninos; essa porcentagem sobe para 92% na faixa etária entre 15 e 19 anos”, diz o relatório.
RAÇA E COR
A cor das vítimas também varia segundo as faixas etárias. Embora negros sejam maioria entre os mortos em todas as idades, entre 0 e 4 anos a proporção de crianças negras é 58%; para as que tinham entre 5 e 9 anos, 68%; e entre os maiores de 10 anos de idade, 80% das vítimas são negras.
80% das vítimas
com mais de 10 anos são negras
MORTES EM CASA E NA RUA
O relatório da Unicef mostra ainda que há uma mudança envolvendo o local das mortes em relação à idade das vítimas.
Nas faixas etárias mais jovens, há uma porção maior dos crimes ocorridos no ambiente doméstico. Já a partir de 10 anos, a maior parte deles acontece nas vias públicas, ou seja, nas ruas.
Também foi identificada uma tendência similar em relação ao instrumento utilizado no crime e à relação do agressor com a vítima.
De acordo com o relatório, quanto mais velha for a vítima, maior a chance de ser morta por arma de fogo. Inversamente, quanto mais jovem é a vítima, maior é a frequência de uso de arma branca e agressão física como instrumentos da violência.
Em mortes violentas de crianças até 4 anos, o autor é alguém conhecido da vítima. Esse percentual diminui gradativamente de acordo com a faixa etária da vítima.
“Entre crianças, predominam características da violência doméstica: mortes em casa, causadas por pessoas conhecidas, muitas vezes por meios mais 'íntimos' do que armas de fogo (armas brancas e agressão física), com marcadores de gênero e cor/raça menos pronunciados. À medida em que elas e eles se tornam adolescentes, as características observadas indicam uma violência armada mais típica das áreas urbanas no Brasil nas últimas décadas”, aponta o relatório.