Com promessas de dinheiro fácil e quase que imediato, o roubo de fios de cobre tem trazido grandes prejuízos para municípios do Espírito Santo nos últimos anos. O esquema, que envolve desde pessoas em situação de rua até empresários da indústria, se firmou como bastante lucrativo para os criminosos.
Esses fios normalmente são encontrados em postes de telefonia e de energia, além de estarem presentes dentro do comércios e de residências. O furto desse material pode provocar a falta de luz em bairros inteiros e até mesmo em semáforos de trânsito, aumentando o risco de acidentes na Grande Vitória.
Um dos últimos casos aconteceu em fevereiro, quando um homem foi preso após furtar fios de um semáforo localizado entre a Avenida Rio Branco e a Avenida Reta da Penha. Já em abril, a Praça do Papa, em Vitória, também ficou totalmente às escuras por mais de uma semana, até o problema ser identificado e consertado.
Somente neste ano, mais de duas toneladas do material foram apreendidas pelas guardas municipais de Vitória e de Cariacica e pela Polícia Civil do Espírito Santo. Na Serra, houve o registro de mais de 50 ocorrências de furto ou de vandalismo nos fios de cobre. Vila Velha não possui dados do gênero.
CADEIA CRIMINOSA
O delegado Josafá da Silva, titular do 10º Distrito Policial, explica que esses furtos acontecem geralmente de madrugada, horário de pouca movimentação nas ruas. Para carregar a maior quantidade possível de material, já que é comercializado por peso, os bandidos preferem agir em grupos.
De acordo com ele, o fio de cobre é visado sobretudo por dependentes químicos e por pessoas em situação de rua. Com a necessidade de obter dinheiro rápido, acabam furtando o material, que possui um alto custo.
"O dinheiro do fio de cobre é imediato, e ele tem um valor razoavelmente bom. Depois que eles praticam o furto, conseguem vender facilmente para os ferros-velhos. O ferro-velho é o principal fomentador desse tipo de crime", destaca.
Após a ação, os criminosos derretem o cobre por conta própria e tentam vendê-lo em um um ferro-velho. Os preços variam entre R$ 30 e R$ 60 o quilo, em média. Todo esse processo do roubo até a compra irregular dura menos de 24 horas.
SEGUNDO RECEPTADOR
O delegado destaca que, de forma geral, esses depósitos de sucata vão acumulando uma grande quantidade do metal e, depois, repassam para um segundo receptador. Segundo ele, isso faz com que o preço aumente de uma cadeia para a outra.
No Estado, a desconfiança é de que algumas indústrias locais estejam envolvidas no esquema, mas as investigações ainda estão em andamento. Outras informações não foram repassadas para não atrapalhar as investigações.
"A maioria dos ferros-velhos consegue comprar o cobre legalmente, mas isso não se torna tão lucrativo. Do morador de rua, eles compram muito mais barato. Vão juntando, compactando e revendendo por um maior valor. O preço vai variando."
Josafá da Silva lembra ainda que três empresários do ramo foram presos em junho de 2022, durante a operação Tarega II, realizada em vários bairros da Serra. O trio foi autuado em flagrante pelo crime de receptação qualificada. Outra ação também foi feita no ano passado. "Durante os interrogatórios, perguntamos para quem eles revendem, mas sempre dizem que não lembram ou que esqueceram. Acabam não colaborando com as investigações", diz o delegado.
"A empresa (que compra o material furtado dos ferros-velhos) também corre o risco de receber fiscalizações, pois consegue prever que aquele é um produto ilícito. Se fosse comprar o cobre em uma loja de procedência legal, por exemplo, com certeza encontraria outro preço", analisa.
FIO ROUBADO PODE RETORNAR AO CONSUMIDOR
Assim que o cobre volta para a indústria, fica ainda mais difícil rastreá-lo, conforme avalia Silva. Dependendo do caso, é possível até que ele retorne para o consumidor que foi furtado pela primeira vez, já que pode se transformar em diferentes produtos.
"O cobre é um metal de transformação usado em vários elementos, como no fio de energia, no contador de água e de luz, em transformadores, ventiladores, entre outros. Não dá para dizer em qual produto específico vai ser transformado", alega.
MAIS DE 2 TONELADAS
FORAM APREENDIDAS NESTE ANO NA GRANDE VITÓRIA
Silva ressalta, no entanto, que houve uma queda desse tipo de crime na Serra nos últimos meses. O principal motivo seriam as operações policiais, que inibiram os ferros-velhos a efetuarem a compra ilegal do cobre e, consequentemente, ocasionaram a migração dos criminosos.
"Nós já temos informações de que eles estão migrando, furtando outros tipos de produtos. Notamos que aquelas lonas de outdoor estão sendo mais furtadas, por exemplo. Eles estão furtando também corrimãos que têm em sacadas e nas entradas de banco, além de portões de ferro. Mas a gente já está mapeando isso daí para fazer uma nova operação e reprimir de novo", salientou.
O QUE DIZEM AS PREFEITURAS
Além da Polícia Civil, as prefeituras da Grande Vitória afirmam que também buscam atuar no combate a esse crime. Na Capital, houve uma redução de cerca de 18% em comparação aos primeiros cinco meses do ano passado, segundo a administração municipal.
A nota diz ainda que, de janeiro de 2021 até junho de 2022, cerca de 50 pessoas foram detidas por furto ou receptação de fios de cobre. Já são cerca de 1 tonelada e meia de material apreendida nesse período. Informa também que tem feito, sistematicamente, a troca de cabos e fios de cobre por material de alumínio, de menor valor. Denúncias podem ser feitas pelo Fala Vitória 156.
Já a Secretaria Municipal de Serviços de Cariacica (Semserv) informou que, de novembro até o momento, foram mais de 4.000 metros de cabos furtados, um prejuízo de mais de R$ 150.000. A fim de evitar o furto de fios de cobre, está realizando a troca por fios de alumínio em pontos de alta movimentação, além do cabeamento aéreo em postes de iluminação pública.
Também por nota, a Secretaria de Defesa Social da Serra ressaltou que atua constantemente em prevenção e combate aos crimes contra o patrimônio, incluindo os furtos e roubos de fios de cobre. "Para isso, estamos em um processo integrado não só com as empresas que fornecem esse tipo de material, mas também com a Polícia Civil, a fim de identificar os autores desses crimes e desenvolver ações conjuntas de fiscalização na busca de possíveis receptadores."
A Prefeitura de Vila Velha informou que, além das ações de patrulhamento e rondas realizadas diariamente pela Guarda Municipal, as Operações Hefesto, que são realizadas em ferros-velhos, têm o objetivo de diminuir esse tipo de crime.
"Ainda sobre o tema, foi realizado debate sobre o tema no Gabinete de Gestão Integrada Municipal, reunindo todas as forças de segurança que atuam na cidade, com a participação também de técnicos das telefonias, para detalhar novas medidas que devem ser tomadas para combater esses crimes", declarou, por nota.