“Sempre que chove a gente sente medo”. A frase dita pelo auxiliar de caminhão Wilson Conti, que mora no Morro da Boa Vista, em Vila Velha, é comum para quem vive em áreas de risco. A realidade dele não é isolada. De acordo com dados disponibilizados pelas prefeituras, cerca de 33.930 pessoas na Grande Vitória moram em regiões de risco iminente de deslizamentos, inundações, entre outras tragédias.
Atentas a esse número, as prefeituras estão implementando ações para prevenir desastres, sobretudo na época de chuvas intensas, que vai de outubro a março.
Em Vitória, de acordo com o secretário de Obras de Vitória, Gustavo Perin, cerca de 1.300 pessoas vivem em áreas de risco alto e muito alto.
“A Defesa Civil de Vitória realiza um monitoramento dessas regiões de forma permanente e contínua, que estão localizadas principalmente nas encostas da cidade”, salienta.
O secretário especifica ainda que a capital do Estado tem 54 áreas de risco alto, onde estão localizados 446 imóveis que podem ser afetados por desastres naturais, e 13 áreas de risco muito alto, onde 93 imóveis podem ser atingidos.
Para mudar essa realidade, a prefeitura lançou o Programa Casa Feliz e Segura, que vai abrir editais de contratações para intervir nas áreas de risco da capital.
Segundo Perin, as ações serão divididas em duas vertentes: intervenções por meio da construção de encostas nas áreas de risco alto e muito alto e também reconstrução e melhorias de imóveis.
“Com o Programa Casa Segura, a expectativa é zerar, em até dois anos e meio, as áreas de com mais risco de desastres por meio de intervenção. Paralelo a isso, queremos reconstruir e melhorar 125 imóveis a fim de dar a essas famílias dignidade e segurança para morar”, explica.
Na reconstrução e melhorias dos imóveis, o secretário diz ainda que, ao ser feito, a família vai receber amparo da prefeitura para, durante o período de obra em sua casa, ter outro local para morar.
Após a licitação do edital, a prefeitura prevê que, até o final de 2022, mais 20 intervenções sejam feitas nas áreas de risco muito alto, minimizando os impactos para as famílias que vivem nessas regiões.
CENÁRIO DAS ÁREAS DE RISCO VITÓRIA
- 1300 pessoas moram nas áreas de risco alto e muito alto, em média
- 54 áreas de risco alto
- 13 áreas de risco muito alto
AÇÕES DE PREVENÇÃO
- Monitoramento contínuo e permanente das áreas de risco
- Construção de encostas em áreas de risco muito alto
- Reconstruções e melhorias de 125 imóveis em áreas de risco alto
VILA VELHA
Em Vila Velha, de acordo com a Defesa Civil da cidade, existem 104 setores de risco geológicos, nos quais são, em sua maioria, são áreas de morros como o que o auxiliar de caminhão Wilson Conti mora. Ao total, cerca de 1430 pessoas vivem nesses locais.
A fim de prevenir desastres naturais, o município canela-verde realizou um mapeamento dessas áreas, que, agora, seguem monitoradas pela Defesa Civil municipal.
Morro da Boa Vista é área de risco em Vila Velha
De acordo com o Coordenador da Defesa Civil do município, Coronel Marcelo D’isep, esse é o primeiro passo para a prefeitura conhecer quem são esses moradores e qual é a real situação que eles vivem para que os próprios munícipes possam multiplicar o conhecimento sobre como agir em situação de desastres naturais.
“Por meio desse mapeamento e monitoramento, agora estamos em processo de criação dos Núcleos Comunitários de Defesa Civil, em parceria com as associações de moradores dos bairros dessas regiões. Nossa proposta é que, depois de formados, os participantes façam um simulado do que fazer em dia de chuva intensa. Os bairros que já estão implantando esses núcleos são Jaburuna, Sagrada Família, Cobi de Baixo e a Região do Morro da Boa Vista.”, explica.
Outra ação, ainda em desenvolvimento, é um sistema de alerta de chuvas intensas e risco de desastres para os moradores que vivem nessas regiões. De acordo com o Coronel D’isep, a Prefeitura está definindo o modelo do dispositivo de comunicação a ser adotado.
“Ainda não sabemos se vai ser por meio de um aplicativo próprio, do whatsapp, de uma sirene ou de outro meio. Mas vai ser implantada ainda neste ano como mais uma forma de evitar que os desastres naturais causem impactos como a perda de vida de pessoas, que é imensurável”, finaliza.
PARCERIA DO CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO ES
A fim de suprir uma carência da Defesa Civil municipal, que não tem profissionais da área da arquitetura, a Prefeitura de Vila Velha também estabeleceu um acordo de cooperação técnica com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Espírito Santo (CAU/ES) para a atuação de voluntários arquitetos em áreas de risco.
O objetivo do acordo, segundo a Defesa Civil, é conscientizar as pessoas que moram nessas áreas sobre a possível instabilidade e insalubridade do imóvel onde vivem, a importância de ações de preventivas e,sobretudo, sobre o risco ou não de desabamentos a fim de evitar tragédias em períodos de chuvas intensas.
Para acompanhar a equipe da prefeitura, inicialmente o Conselho de Arquitetura e Urbanismo fará o chamamento de arquitetos, disponibilizando 25 vagas para o projeto. Em seguida, eles passarão por um treinamento com a pasta e a previsão, de acordo com D’isep, é que eles já estejam prontos para atuar em outubro deste ano.
Caso em uma dessas ações, a equipe da defesa civil junto ao arquiteto identifique o risco de desabamento do imóvel, a pasta municipal tem a atribuição de interditá-lo.
“Se um dos setores for de risco alto ou muito alto, o munícipe será encaminhado para análise do Auxílio Moradia Temporária a fim de tirá-lo desse imóvel”, acrescenta.
O Presidente do Conselho de Arquitetura do Estado, Heliomar Venâncio, salienta que há 4.020 arquitetos e urbanistas registrados no Espírito Santo, e que este projeto preventivo é um desejo antigo da instituição.
“Nas chuvas de 2019, que atingiram principalmente o Sul do Espírito Santo, 15 arquitetos do conselho foram atuar voluntariamente nos municípios mais atingidos. Naquele momento, fizemos inspeções dos imóveis, ajudando os moradores. No entanto, a tragédia já tinha acontecido. Desde então, surgiu a vontade de trabalhar de forma voluntária e preventiva, contribuindo para que esse cenário de destruição não se repetisse”, disse.
O presidente do Conselho disse ainda que, apesar de inicialmente fazer apenas um trabalho preventivo, a expectativa é pleitear junto a outros órgãos públicos soluções concretas para as comunidades, que, na maioria das vezes, não têm recursos financeiros para investimentos em moradia.
CENÁRIO DAS ÁREAS DE RISCO DE VILA VELHA
- 1430 pessoas em áreas de risco, em média
- 104 áreas de risco
AÇÕES DE PREVENÇÃO
- Mapeamento e monitoramento das áreas de risco
- Implantação de um sistema de alerta diante de chuvas intensas
- Criação dos Núcleos Comunitários de Defesa Civil
- Parceria com a Conselho Estadual de Arquitetura e Urbanismo
CARIACICA
Em Cariacica, de acordo com a Prefeitura Municipal, existem 53 áreas de risco na cidade, no qual 24 mil pessoas vivem nesses locais.
Com o objetivo de prevenir tragédias, sobretudo em período chuvoso, a Secretaria Municipal de Defesa Social (Semdefes) realiza a análise das áreas de risco identificadas pela Defesa Civil e indica os locais para que a Secretaria de Obras (Semob) faça as contenções e executa as obras de proteção nas encostas necessárias, como instalação de geomantas, para evitar as ocorrências de deslizamentos.
Outra forma de prevenção destaca pelo município é a Secretaria Municipal de Serviços (Semserv) realiza diariamente de forma preventiva a limpeza de canais, ruas, avenidas, córregos e redes de drenagem com o objetivo de minimizar os impactos dos alagamentos, auxiliando no escoamento da água das chuvas.
A prefeitura disse ainda que também faz a conscientização da população para que não descarte lixo em locais inadequados para não obstruir a rede de drenagem e, em parceria com Corpo de Bombeiros, realizou a formação dos coletores alpinistas para realizar a limpeza preventiva nas áreas de encosta da cidade.
CENÁRIO DAS ÁREAS DE RISCO DE CARIACICA
- 24 mil pessoas vivem em áreas de risco, em média
- 53 áreas de risco no município
AÇÕES DE PREVENÇÃO
- Análise das áreas de risco;
- Construção de contenções;
- Execução de obras de proteção nas encostas necessárias, como instalação de geomantas, para evitar as ocorrências de deslizamentos;
- Limpeza de canais, ruas, avenidas, córregos e redes de drenagem;
- Conscientização da população para que não descarte lixo em locais inadequados para não obstruir a rede de drenagem;
- Formação dos coletores alpinistas, em parceria com o Corpo de Bombeiros, para realizar a limpeza preventiva nas áreas de encosta da cidade.
SERRA
No município da Serra, de acordo com dados da prefeitura, existem 86 áreas de risco alto e muito alto. Mais de 7.200 pessoas vivem nesses locais.
Para prevenir desastres, a prefeitura informou por meio de nota que o município investe em capacitação e conscientização por meio de projetos como defesa civil nas escolas, e planos de manutenção e limpeza de bueiros e canais para prevenir e evitar inundações e alagamentos.
A nota disse ainda que a cidade possui um plano de proteção vigente e atualizado, além de um plano de gerenciamento de desastre para atuar em eventos adversos.
CENÁRIO DAS ÁREAS DE RISCO DA SERRA
- 7.200 pessoas vivem em áreas de risco, em média
- 86 áreas de risco alto e muito alto
AÇÕES DE PREVENÇÃO
- Capacitação e conscientização por meio de projetos como defesa civil nas escolas, e planos de manutenção;
- Limpeza de bueiros e canais para prevenir e evitar inundações e alagamentos.
A prefeitura disse ainda que tem um plano de gerenciamento de desastres, mas não especificou nenhuma ação implementada para prevenir tragédias.
GUARAPARI E VIANA
Guarapari não informou a quantas áreas de risco existem no município e nem a quantidade de pessoas que vivem nesses locais.
Por meio de nota, a prefeitura disse que o município tem registro de inundações localizadas. Para evitar tragédias, informou ainda Secretária de Obras do município está realizando a limpeza das redes pluviais e construindo novas redes para mitigar o problema.
A Prefeitura de Viana não respondeu à reportagem.