MPES suspeita que PMs presos participavam de grupo de extermínio
Investigação criminal
MPES suspeita que PMs presos participavam de grupo de extermínio
Três policiais foram presos na última sexta-feira (13), além de outros dois civis. Eles são suspeitos de participação em um homicídio ocorrido em fevereiro deste ano em uma quadra no bairro Itararé, em Vitória
A investigação criminal está sendo conduzida pela 14ª Promotoria Criminal de Vitória, com o apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPES. No documento encaminhado à Justiça estadual, a que A Gazeta teve acesso, eles informam:
"A prisão temporária é imprescindível para as investigações (...) assentado na garantia da ordem pública, eis que os representados se mostraram como uma associação estruturalmente ordenada, que atuam em aparente atividade de grupo de extermínio"
Trecho de documento - MPES
Os pedidos por eles formulados foram aceitos pela Justiça estadual no último dia 12 de maio. A decisão foi da juíza da Primeira Vara Criminal de Vitória, Lívia Regina Lage.
“Importante registrar que os fatos investigados se revelam sobejamente graves e complexos, contando com o envolvimento, ao menos por ora, de cinco pessoas. E tanto se torna mais quando se verifica que três dos representados são agentes da lei, os quais ocupam cargos públicos da PMES, sendo pagos com limitados recursos públicos para combater o crime e não para praticá-lo”, é dito na decisão judicial.
OS ENVOLVIDOS NO CRIME
De acordo com o MPES, as investigações apontaram a participação de seis pessoas no crime, sendo três deles policiais militares. São eles:
Cabo José Moreno Valle da Silva, Moreno - apontado como executor, estava na garupa da moto. Atua no 1º Batalhão da PMES
Cabo Ronniery Vieira Peruggia - apontado como executor, estava no carro. Atua na 1ª Companhia do 1º Batalhão da PMES
Cabo Welquerson Cunha de Moraes - apontado como executor, estava no carro. Atua no Batalhão de Missões Especiais (BME)
Eles contaram com o apoio de dois civis:
Glaydson Alvarenga Soares, mais conhecido como Pajé - apontado como executor, identificado na cena do crime
Walace Luiz dos Santos Souza - apontado como executor, pilotava a moto. Confirmou que esteve no local do crime
Uma sexta pessoa teria participado da ação criminosa, mas ainda não foi identificada pelas investigações conduzidas pelo MPES.
Sobre o pedido de prisão deles, o MPES informou: “A medida pleiteada é adequada à gravidade concreta do crime, um homicídio doloso qualificado perpetrado por grupo em aparente atividade de grupo de extermínio, cuja pena é a maior prevista pela Lei Penal, tamanha reprovabilidade do delito”.
Na ocasião, a Polícia Civil informou que ele tinha sido atingido por pelo menos 15 tiros. No dia seguinte, foram encontradas cápsulas de calibre 9 mm e 380 no local do crime.
No dia, um carro com quatro ocupantes e uma moto, com dois ocupantes, chegaram ao local. Segundo o MPES, Walace pilotava a moto e com ele, na garupa, estava Glaydson. A moto foi utilizada pelos dois para bloquear o tráfego e ali permaneceram para garantir a interdição da via.
No carro estavam quatro pessoas - três policiais e uma quarta pessoa não-identificada - que saem do veículo e seguem para a quadra, local do homicídio. No caminho abordam alguns moradores da região. Logo depois tiros são disparados na quadra. Na sequência a câmera mostra Walace, junto a moto, com a arma na mão. Logo depois as seis pessoas deixam o local.
Durante a ação criminosa, os envolvidos usavam touca ninja ou máscara para dificultar a identificação, é relatado na decisão judicial:
“Moto e carro e ocupantes executores usavam touca ninja ou máscara de proteção contra Covid e que chegaram ao local enquadrando as pessoas que estavam no campo de futebol. O comentário no bairro é que os autores do crime são policiais, pois foi bem planejado”, relata o texto da decisão judicial
Além dos depoimentos colhidos, foram investigados os perfis nas redes sociais dos supostos envolvidos no crime. E junto com as imagens de videomonitoramento da região, foi possível identificar uma motocicleta, uma Honda XRE-300, e um Honda Civic, utilizados pelos que participaram do ato criminoso. As placas dos veículos levaram a identificação dos proprietários e dos ocupantes dos dois veículos.
Por intermédio do infravermelho da câmera de videomonitoramento do cerco eletrônico, por exemplo, foi possível constatar que o carona da motocicleta utilizava um colete balístico da Polícia Militar.
“Eis que se valem das benesses advindas do múnus público para práticas ilícitas, como treinamento tático especializado, não podendo olvidar ter sido utilizado um artefato militar (colete balístico) da PMES para a prática do homicídio”, diz o texto do MPES sobre os três policiais.
Um dos acusados de participar do crime utilizava colete balístico da PMES por baixo da camisaCrédito: Processo criminal TJES
Sobre a participação de Walace e Glaydson, civis, é informado: “Eles usurpam as funções de policiais militares para que possam realizar incursões e diligências de caráter eminentemente policial”.
PARTICIPAÇÃO EM CONFRARIA OU CLUBE
As investigações nas redes sociais também revelaram as relações existentes entre os supostos envolvidos na ação criminosa e até com outros militares, além da formação de um “clube ou confraria”. Um dos perfis faz menção, inclusive, a uma “Liga extraordinária”
“A relação de proximidade e ampla vinculação entre os representados fica claro a partir da análise de vários perfis de redes sociais, que denotam a existência de uma espécie de clube ou confraria formada, em sua maioria, por agentes estatais responsáveis pela segurança pública (e seus simpatizantes, tais quais os representados Walace e Glaydson), fato que causa maior perplexidade, eis que os servidores públicos que deveriam reprimir o crime estão, em verdade, agindo em descompasso com o juramento sagrado de 'proteger, servir e assistir', mediante o cometimento de delitos de desmedida violência e grave repercussão social”, diz o texto do MPES.
Presos em operação da Gaeco no DML de Vitória
O OUTRO LADO
A Associação de Cabos e Soldados (ACS), por intermédio do seu vice-presidente, Ted Candeias, informa que discorda das investigações do MPES ao apontar atuação de grupo de extermínio. “É um tipo de serviço que pressupõe uma ação continuada e só apontaram um crime. Teriam que haver outros casos, numa atuação reiterada. Não procede esta afirmação”, pondera.
Ele informou ainda que os policiais presos não estão sendo representados pela ACS e que optaram por contratar um advogado particular. A reportagem não conseguiu localizar a pessoa que assumiu a defesa dos militares. Quando isto acontecer, este texto será atualizado.
Um advogado que preferiu não ter seu nome identificado está fazendo a defesa de Walace. Disse que o investigado é comerciante, morador de Vila Velha e estudante de Direito. Explicou que na tramitação do processo irá mostrar a inocência de seu cliente.
Em relação a Glaydson, o advogado informou que só fez a sua defesa no momento em que houve a sua apresentação na delegacia, e que ele contratou um novo advogado. A reportagem não conseguiu localizar quem assumiu a defesa dele.
PMES: "Fato está sob sigilo judicial"
A Polícia Militar do Espírito Santo informa que prestou apoio em uma operação policial decorrente de investigação conduzida pela 14ª Promotoria de Justiça Criminal de Vitória, com apoio do Gaeco-MPES, no cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão. O fato está sob sigilo judicial decretado. Não há detalhes que possam ser divulgados.