Dez anos após o crime, vão sentar no banco dos réus, no dia 21 do próximo mês, os acusados de serem os mandantes do assassinato do empresário Arnaldo Tesch. Três homens invadiram a fábrica de pellets de sua propriedade, localizada em Córrego do Ouro, a 15 quilômetros de Santa Maria de Jetibá, Região Serrana do Estado, e deram uma facada em suas costas.
Semanas após o crime, a esposa do empresário, Gilvana Pires Pereira Tesch, na época com 35 anos, e o pai dela, Remi Pereira dos Santos, aos 60 anos na ocasião, foram presos pela Polícia Civil acusados de planejar a morte de Arnaldo Tesch. Os dois foram denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) pelo crime.
A motivação para o crime seria a vontade de Gilvana de se separar do empresário, processo que não chegou a ser concretizado. É o que aponta a denúncia dos MPES.
"Tendo procurado advogada, bem como um contador para fazer um inventário dos bens que seriam divididos pelo casal. Constatou-se com as suas investidas que a separação não seria um bom negócio em termos financeiros"
Na denúncia, consta ainda que, após desistir da separação, Gilvana conseguiu que o empresário fizesse seguros de vida com valores altos em seu nome. E na sequência teria contado com a ajuda do pai, Remi, para planejar e executar o crime. Logo após a morte, a Polícia Civil informou que a viúva sacou seguro de vida de Arnaldo no montante de R$ 700 mil, em 2012.
A Justiça estadual aceitou a denúncia do MPES contra Gilvana e Remi e em 2015 eles foram pronunciados - decisão que os encaminha para enfrentar o Tribunal do Júri (júri popular). Desde então, diversos recursos foram feitos até aos tribunais em Brasília. O julgamento chegou a ser agendado para 13 de março de 2019, em Santa Maria de Jetibá, mas foi suspenso por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os três suspeitos de invadirem a fábrica e matarem o empresário não foram identificados pela polícia. A informação obtida pela reportagem é de que existe um inquérito policial aberto para tentar identificá-los.
JULGAMENTO TRANSFERIDO PARA VITÓRIA
O julgamento acontece em Vitória por decisão do STF, de 2019, quando o processo foi desaforado (retirado) da comarca onde ocorreu o crime, e transferido para a Capital, por suspeitas de que não haveria imparcialidade do júri em Santa Maria de Jetibá.
Na ocasião, a defesa de Gilvana e Remi, realizada pelos advogados Patrick Berriel e Gualtemar Soares, alegou que a cidade de Santa Maria de Jetibá tem população inferior a 40 mil habitantes, sendo 80% composta por pomeranos (alemães) ou descendentes, entre eles a vítima, enquanto os réus têm pele escura e não são naturais da região.
Disse ainda que a família da vítima tinha influência financeira e política e seu irmão teria ameaçado a defesa dos réus, bem como uma testemunha.
Outro argumento foi de que a cobertura do crime pela imprensa local causou comoção social e, por último, que informações obtidas nas redes sociais revelavam ainda que todos os jurados tinham laços de amizade ou parentesco com a família da vítima.
O QUE DIZ A DEFESA DOS ACUSADOS
Por nota, Berriel e Soares afirmam que o “desaforamento foi fundamental para a imparcialidade dos jurados”. Acrescentam ainda que “há circunstâncias que influenciaram a investigação realizada pela delegacia de polícia da região”.
Sobre a denúncia do MPES, destacam que se trata de uma proposta de acusação. “Não significa que os fatos colocados pela acusação são verdadeiros”, afirmam.
"São diversos os casos de pessoas denunciadas que são inocentadas, exatamente devido à possibilidade de análise de provas, ao longo processo. E este é mais um deles"
COMO FOI O CRIME
Arnaldo Tesch foi morto em 10 de outubro de 2012, às 19h50. Na ocasião, três suspeitos - dois deles usavam capuz - renderam o empresário e o sogro, por volta das 19 horas, na fábrica de pellets que ele possuía em Santa Maria de Jetibá, região Serrana do Estado.
Segundo a denúncia apresentada pelo MPES, o empresário foi levado até um local onde as câmeras de segurança não filmavam.
Imagens das câmeras da fábrica, divulgadas pela Polícia Civil após o crime, mostram que uma mulher - que foi identificada como Gilvana - faz sinal com uma lanterna que, segundo a polícia, foi para indicar aos três invasores que poderiam dar início ao plano.
Logo depois, as imagens mostram, segundo apontou a Polícia Civil, o momento em que o sogro, Remi, joga um pedaço de madeira nas proximidades de um dos invasores, supostamente avisando que poderiam render Arnaldo.
Nos registros, o empresário é surpreendido pelos três desconhecidos encapuzados. Remi vai à frente até um local que não é filmado, chamado ponto cego das câmeras. No local, Arnaldo é atingido por uma facada. Dois executores fugiram do local com o carro da vítima.
“O denunciado Remi, sem realizar nenhum ato de salvamento ou pedir ajuda a terceiros, simula um socorro da vítima que estava sangrando, todavia por um caminho bem mais distante”, relata a denúncia do MPES.
O empresário foi atingido com uma facada que perfurou o pulmão esquerdo, saco pericárdico e o coração. Um ferimento, é relatado na denúncia, “com grande quantidade de sangramento”.
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