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Norte do Estado

Polícia investiga incêndios criminosos, roubos e invasão de terras no ES

De janeiro a agosto deste ano, já foram mais de 2,5 mil focos, tanto em plantações quanto em reserva florestal; investigação apura se queimadas são usadas para facilitar roubo de madeira

Publicado em 30 de Setembro de 2021 às 18:05

Aline Nunes

Publicado em 

30 set 2021 às 18:05
Ocupação em áreas de eucalipto da Suzano em municípios do norte capixaba
Ocupação em áreas de plantação de eucalipto da Suzano em municípios do Norte capixaba Crédito: Vitor Jubini
Polícia Civil está investigando uma sucessão de incêndios registrados no Norte capixaba, particularmente nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, para averiguar se resultam de ataques criminosos. De janeiro a agosto deste ano, já foram mais de 2,5 mil focos, tanto em plantações quanto em reserva florestal. Também há denúncias de roubo de madeira e invasão de terras na região.
Um campo oficial de futebol, nas medidas da Fifa (105x68m), tem pouco mais de 7 mil metros quadrados. Se lhe parecem grandes dimensões a percorrer, o que dizer desse número multiplicado um tanto de vezes até alcançar 7,8 mil campos? Esse é o tamanho da área destruída pelo fogo nos primeiros oito meses de 2021.
Ao longo desse período, foram registrados 5.293 hectares (1 hectare é equivalente a 10 mil metros quadrados) de área queimada em plantações de eucalipto da Suzano e mais 303 em regiões de preservação ambiental, o equivalente a 68,77% de todo o ano passado. Os dados são da empresa, que possui grandes áreas para o plantio de eucalipto no Norte capixaba, matéria-prima para a produção de celulose. Por conta do impacto operacional, o acompanhamento das queimadas é bem próximo por parte da companhia, mas o estrago provocado pelas queimadas vai muito além da Suzano.
“Podem começar numa área de eucalipto e migrar para a reserva, podem sair de área da Suzano e ir para a de um pequeno ou médio agricultor. Esse incêndio pode ir para áreas de passagem, de rodovias e estradas e levar perigo à segurança das pessoas”, afirma Luís Renato Costa Bueno, diretor de Relações Corporativas da Suzano.

QUEIMADAS PODEM ESCONDER OUTROS CRIMES

Do alto, em um sobrevoo pela região, é possível observar as grandes clareiras no meio da vegetação. As queimadas podem esconder crimes que vão além dos incêndios: roubo de madeiras e invasão de terras.
Alysson Pereira, titular da Delegacia de Conceição da Barra, está à frente da apuração sobre as queimadas na região. Ele conta que o trabalho policial tem três vertentes de investigação:
  • Uma delas segue a linha de que a vegetação é queimada para facilitar o furto de madeira; 
  • A outra é uma atuação de criminosos que se infiltram entre grupos de agricultores para ocupação de áreas da empresa e, após a reintegração de posse, ateiam fogo como revanche; 
  • A terceira vertente é a de que políticas sociais da Suzano estariam agradando mais determinados segmentos que outros, causando insatisfação e  também motivo de represália. 
"Temos investigação em andamento, mas são muitas ramificações. Até o ano passado, trabalhava muito com a vertente de queimadas para furto de madeira. Mas o crime pulverizou muito, são vários núcleos, cada um tem sua área delimitada, tem seu autor, principal cabeça. Isso dificulta muito a apuração em relação à autoria porque não há materialidade (prova) suficiente", explica Alysson Pereira.
O delegado acrescenta que, no momento, não há indiciamento de suspeitos ou prisão de envolvidos, mas as investigações prosseguem até uma solução para o caso.
Luís Renato Bueno diz que, a cada foco de incêndio, é registrado um boletim de ocorrência na tentativa de identificar o que está por trás das queimadas. Ele diz que a preocupação extrapola os interesses da empresa pelos impactos ao meio ambiente, à economia e à sociedade.
“Existem áreas de plantação (eucalipto) nessas regiões, mas também grandes reservas de Mata Atlântica protegidas e cuidadas pela Suzano. Historicamente enfrentamos esse problema, mas, principalmente em 2021, a quantidade de focos de incêndio está completamente fora do normal, possivelmente muitos deles criminosos”, pontua.

DE ONDE PARTEM OS ATAQUES

Diante da suspeita da empresa de incêndio criminoso, Luís Bueno foi questionado sobre quem teria interesse no ataque à Suzano. Se seriam grupos de pequena ou grande influência na região, mas o diretor preferiu não apontar em nenhuma direção.
Ele reafirma que são feitos os boletins de ocorrência e a expectativa é que a investigação da polícia possa identificar a autoria.
“Não temos desenhado quais são os causadores ou o que está por trás de tudo isso. Contamos muito com a parceria do Estado, principalmente com a polícia para nos ajudar a identificar as principais causas disso”, frisa.
Ocupação em áreas de eucalipto da Suzano em municípios do norte capixaba
Ocupação em áreas de eucalipto da Suzano em municípios do norte capixaba Crédito: Vitor Jubini
Luís Bueno também foi perguntado sobre registros de invasões e conflitos de terra na região em que a empresa possui áreas. O diretor afirma que a Suzano tem obtido, em ações judiciais, a reintegração de posse de territórios invadidos, mas não estabeleceu relação entre as queimadas e a propriedade das terras.
Ele revela que algumas famílias ocuparam as áreas após serem enganadas por invasores que venderam terrenos da companhia como se fossem loteamentos próprios.
"Pessoas mais humildes e fragilizadas foram ludibriadas. Elas não tinham direito à terra, mas procuramos auxiliá-las na saída das áreas, com alimentação, transporte e até hotel", ressalta. 
Mesmo com a série de queimadas, que afeta diretamente o negócio da Suzano, Luís Bueno assegura a manutenção dos investimentos. "Temos aqui uma fábrica de celulose que é parte da história do Estado. Em março, inauguramos mais uma planta em Cachoeiro de Itapemirim".

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