A Polícia Civil está investigando uma sucessão de incêndios registrados no Norte capixaba, particularmente nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, para averiguar se resultam de ataques criminosos. De janeiro a agosto deste ano, já foram mais de 2,5 mil focos, tanto em plantações quanto em reserva florestal. Também há denúncias de roubo de madeira e invasão de terras na região.
Um campo oficial de futebol, nas medidas da Fifa (105x68m), tem pouco mais de 7 mil metros quadrados. Se lhe parecem grandes dimensões a percorrer, o que dizer desse número multiplicado um tanto de vezes até alcançar 7,8 mil campos? Esse é o tamanho da área destruída pelo fogo nos primeiros oito meses de 2021.
Ao longo desse período, foram registrados 5.293 hectares (1 hectare é equivalente a 10 mil metros quadrados) de área queimada em plantações de eucalipto da Suzano e mais 303 em regiões de preservação ambiental, o equivalente a 68,77% de todo o ano passado. Os dados são da empresa, que possui grandes áreas para o plantio de eucalipto no Norte capixaba, matéria-prima para a produção de celulose. Por conta do impacto operacional, o acompanhamento das queimadas é bem próximo por parte da companhia, mas o estrago provocado pelas queimadas vai muito além da Suzano.
“Podem começar numa área de eucalipto e migrar para a reserva, podem sair de área da Suzano e ir para a de um pequeno ou médio agricultor. Esse incêndio pode ir para áreas de passagem, de rodovias e estradas e levar perigo à segurança das pessoas”, afirma Luís Renato Costa Bueno, diretor de Relações Corporativas da Suzano.
QUEIMADAS PODEM ESCONDER OUTROS CRIMES
Do alto, em um sobrevoo pela região, é possível observar as grandes clareiras no meio da vegetação. As queimadas podem esconder crimes que vão além dos incêndios: roubo de madeiras e invasão de terras.
Alysson Pereira, titular da Delegacia de Conceição da Barra, está à frente da apuração sobre as queimadas na região. Ele conta que o trabalho policial tem três vertentes de investigação:
- Uma delas segue a linha de que a vegetação é queimada para facilitar o furto de madeira;
- A outra é uma atuação de criminosos que se infiltram entre grupos de agricultores para ocupação de áreas da empresa e, após a reintegração de posse, ateiam fogo como revanche;
- A terceira vertente é a de que políticas sociais da Suzano estariam agradando mais determinados segmentos que outros, causando insatisfação e também motivo de represália.
"Temos investigação em andamento, mas são muitas ramificações. Até o ano passado, trabalhava muito com a vertente de queimadas para furto de madeira. Mas o crime pulverizou muito, são vários núcleos, cada um tem sua área delimitada, tem seu autor, principal cabeça. Isso dificulta muito a apuração em relação à autoria porque não há materialidade (prova) suficiente", explica Alysson Pereira.
O delegado acrescenta que, no momento, não há indiciamento de suspeitos ou prisão de envolvidos, mas as investigações prosseguem até uma solução para o caso.
Luís Renato Bueno diz que, a cada foco de incêndio, é registrado um boletim de ocorrência na tentativa de identificar o que está por trás das queimadas. Ele diz que a preocupação extrapola os interesses da empresa pelos impactos ao meio ambiente, à economia e à sociedade.
“Existem áreas de plantação (eucalipto) nessas regiões, mas também grandes reservas de Mata Atlântica protegidas e cuidadas pela Suzano. Historicamente enfrentamos esse problema, mas, principalmente em 2021, a quantidade de focos de incêndio está completamente fora do normal, possivelmente muitos deles criminosos”, pontua.
Incêndios, roubo de madeiras e invasão de terras são investigados em floresta de eucalipto e área de Mata Atlântica no ES
DE ONDE PARTEM OS ATAQUES
Diante da suspeita da empresa de incêndio criminoso, Luís Bueno foi questionado sobre quem teria interesse no ataque à Suzano. Se seriam grupos de pequena ou grande influência na região, mas o diretor preferiu não apontar em nenhuma direção.
Ele reafirma que são feitos os boletins de ocorrência e a expectativa é que a investigação da polícia possa identificar a autoria.
“Não temos desenhado quais são os causadores ou o que está por trás de tudo isso. Contamos muito com a parceria do Estado, principalmente com a polícia para nos ajudar a identificar as principais causas disso”, frisa.
Luís Bueno também foi perguntado sobre registros de invasões e conflitos de terra na região em que a empresa possui áreas. O diretor afirma que a Suzano tem obtido, em ações judiciais, a reintegração de posse de territórios invadidos, mas não estabeleceu relação entre as queimadas e a propriedade das terras.
Ele revela que algumas famílias ocuparam as áreas após serem enganadas por invasores que venderam terrenos da companhia como se fossem loteamentos próprios.
"Pessoas mais humildes e fragilizadas foram ludibriadas. Elas não tinham direito à terra, mas procuramos auxiliá-las na saída das áreas, com alimentação, transporte e até hotel", ressalta.
Mesmo com a série de queimadas, que afeta diretamente o negócio da Suzano, Luís Bueno assegura a manutenção dos investimentos. "Temos aqui uma fábrica de celulose que é parte da história do Estado. Em março, inauguramos mais uma planta em Cachoeiro de Itapemirim".