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Transporte rodoviário

TCE aponta irregularidades no serviço de transporte de passageiros entre cidades do ES

Auditoria identificou contratos realizados com o governo do Estado sem licitação, veículos velhos e equipamentos de segurança vencidos

Publicado em 06 de Maio de 2026 às 14:56

Aline Nunes

Publicado em 

06 mai 2026 às 14:56

Uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCE-ES) identificou uma série de irregularidades na prestação de serviços de transporte rodoviário intermunicipal no Estado. Entre os problemas, falta de licitação para contratação de empresas, frota de ônibus antiga e equipamentos de segurança vencidos. O órgão estabeleceu prazos para o governo regularizar a situação, que informou que já está adotando procedimento para atender às determinações. 


Na decisão do TCE, há ainda a previsão de multa individual para Fábio Damasceno e Leo Carlos Cruz, respectivamente o titular e o subsecretário da pasta de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) do Estado, além de advertências, destinadas também a gestores da Companhia Estadual de Transporte Coletivo de Passageiros do Espírito Santo (Ceturb-ES). 


Confira as irrregularidades pontuadas no acórdão: 


  • Ausência de licitação: o serviço de transporte intermunicipal é executado por meio de concesões que não foram iniciadas por processos licitatórios regulares. Muitos contratos são considerados precários e baseiam-se em prorrogações que já foram declaradas inconstitucionais pelo Poder Judiciário. Essa omissão administrativa persiste desde 2012, apesar de decisões judiciais determinarem a regularização.
  • Frota antiga e equipamentos vencidos: A auditoria revelou que 11 das 15 operadoras descumprem a norma que limita a 20% o percentual de veículos com mais de 13 anos de fabricação. Além disso, foram identificados 51 veículos operando com o certificado do cronotacógrafo vencido, o que compromete a segurança dos passageiros e a fiscalização de velocidade e tempo de direção.
  • Canais de comunicação: Inspeções físicas encontraram ônibus sem qualquer informativo sobre como o usuário pode registrar queixas. Em outros casos, os dados estavam desatualizados, direcionando os passageiros para canais de órgãos que não são mais responsáveis pela gestão do sistema.
  • Morosidade: Existe uma proposta de revisão do regulamento do sistema de transporte elaborada pela Ceturb-ES desde 2018 que está paralisada na Semobi, o que estaria impedindo a modernização da gestão e fiscalização do sistema.
  • Qualidade do serviço: Vistorias pontuais identificaram problemas de conservação e limpeza, como banheiros sem condições de uso em início de viagem, além de veículos operando em linhas sem estarem devidamente cadastrados ou com para-brisas trincados.
  • Falhas no controle de receitas: A Ceturb-ES não possui mecanismos para auditar ou validar os valores de receita declarados mensalmente pelas empresas. O controle é feito exclusivamente com base nas informações fornecidas pelas próprias operadoras, sem cruzamento de dados com a Secretaria da Fazenda (Sefaz/ES), o que fragiliza a transparência e a confiabilidade dos recursos arrecadados pelo Estado.


Tribunal de Contas: auditoria identificou irregularidades no sistema de transporte rodoviário intermunicipal Gazeta Online
Como resultado da auditoria, o tribunal determinou que o Estado apresente um cronograma para novas licitações e regularize a fiscalização dos contratos vigentes. 

Para a Semobi, as principais exigências são:
  • Apresentar, em até 60 dias, planejamento detalhado, com responsáveis e prazos, para a contratação e execução de estudos técnicos que incluam o diagnóstico operacional e financeiro do sistema atual, além de uma nova modelagem jurídica e econômica para a futura licitação;
  • Publicar, também num prazo de até 60 dias, o edital para a concessão das linhas do transporte intermunicipal, devendo remeter a cópia integral do processo ao TCE-ES para análise prévia;
  • Instituir mecanismos permanentes de consulta pública e participação dos usuários, como conselhos consultivos e audiências periódicas;
  • Incluir nos futuros contratos metas de inovação tecnológica e sustentabilidade, como bilhetagem eletrônica integrada, veículos acessíveis e redução de emissões.


A Ceturb também tem determinações a cumprir:

  • Instaurar, num prazo de até 120 dias, processos disciplinares e aplicar penalidades às empresas que permanecerem irregulares, exigindo o cumprimento do limite de idade da frota e a validade dos certificados de equipamentos obrigatórios; 
  • Apresentar, também em até 120 dias, a descrição e o prazo de implantação de um processo de trabalho para recepção e análise de documentos da frota e laudos de vistoria, definindo critérios claros para a seleção de veículos a serem vistoriados.
  • Realizar vistorias especiais em todos os veículos com mais de 10 anos de uso até que o novo modelo de concessão seja implementado, visando garantir a segurança dos passageiros.
  • Contratar uma auditoria externa independente para verificar a conformidade contábil das concessionárias e a correta aplicação da tarifa de gerenciamento do sistema.
  • Implementar um programa de capacitação contínua para os agentes de fiscalização e servidores responsáveis pelas análises financeiras das operadoras.

O descumprimento dessas ordens pode acarretar a aplicação de multa individual aos gestores responsáveis, tanto da Semobi quanto da Ceturb, além da sanção já determinada para Fábio Damasceno e Leo Carlos. 

Apesar de 11 das 15 empresas estarem irregulares quanto à idade da frota e equipamentos de segurança, o TCE decidiu não aplicar sanções diretas às concessionárias por enquanto, optando por determinar que a Ceturb-ES instaure os processos disciplinares administrativos para aplicar as penalidades previstas em contrato.

Outro lado

Procurada pela reportagem de A Gazeta, a Semobi afirma, em nota, que ainda aguarda a intimação do TCE-ES para conhecer integralmente o teor da decisão. "Na sequência, ouvida a procuradoria, serão adotadas as medidas cabíveis."


A secretaria acrescenta que já vem trabalhando nos procedimentos administrativos para realizar nova licitação assim como apoia, dentro de sua competência, a fiscalização desenvolvida pela Ceturb-ES referente às operações das empresas de transporte de passageiros.

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