A crise da segunda maior incorporadora imobiliária da China, a Evergrande, colocou o mercado global em alerta. Um eventual calote da companhia pode abalar fortemente a economia chinesa e provocar um efeito cascata, afetando os principais parceiros comerciais do país asiático, entre eles o Brasil. No Espírito Santo, a Vale e outras empresas que exportam podem ser afetadas.
Hoje, a construtora chinesa, que também é dona de negócios em outros ramos e é proprietária até mesmo de um time de futebol, acumula US$ 300 bilhões em dívidas, sendo que, deste total, cerca de US$ 85 bilhões precisam ser pagos nesta quinta-feira (23). Na semana passada, o governo chinês comunicou que a empresa não conseguiria honrar o débito.
Segunda a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o governo chinês tem capacidade monetária e fiscal de amortecer o choque causado pela crise de endividamento do grupo imobiliário. Entretanto, até o momento, não deu sinais de que o fará.
Essa incerteza em relação aos desdobramentos do caso já abala os mercados mundiais, com as Bolsas sofrendo fortes quedas em seus pregões. Há certo temor de que o eventual colapso do grupo empresarial chinês desencadeie um episódio semelhante ao que houve com o Lehman Brothers, o banco estadunidense que faliu e deu início à crise financeira de 2008.
Para especialistas, em maior ou menor grau, os reflexos da crise atingirão a economia de diversos países, mas não com tanta força como em 2008, visto que o Lehman tinha operações com diversas instituições e em várias partes do mundo.
Ainda assim, o impacto não é considerado desprezível. A dificuldade da Evergrande em pagar seus credores pode provocar um efeito cascata e desestruturar a economia chinesa. A China é um dos maiores importadores mundiais de commodities e quem vende para o país asiático pode ser prejudicado caso a empresa não consiga arcar com seus compromissos.
"Se a empresa dá um calote, os credores podem passar por dificuldades e dar outros calotes em quem devem. O medo é de um contágio, de dívidas em cadeia que poderiam não ser pagas por conta dessa dificuldade da companhia, e essas dívidas baterem no mercado imobiliário chinês ou na indústria. E como isso afeta a gente? A China consome muito minério de ferro brasileiro. Provemos insumos para toda a indústria. Se desacelera, a commodity tende a cair, a Vale perde, outras empresas do setor também", pontua o economista e sócio-diretor da Pedra Azul Investimentos, Lélio Monteiro.
Ele observa que com menor demanda pelos produtos de exportação, um país como o Brasil recebe menos dinheiro, o Produto Interno Bruto (PIB) entra em queda e, por sua vez, a economia desacelera.
"É uma relação comercial importantíssima. Se afetar o andamento da economia da China, afeta o Brasil também e, em algum nível, o Espírito Santo. Mas entendo que é um problema menos grave que o Lehman Brothers porque, dessa vez, a empresa (Evergrande) tem ativos (imóveis). O problema é a liquidez."
O economista da Valor Investimentos Pedro Lang pondera ainda que não é tão grave quanto o caso do Lehman Brothers, pois, a falência desta empresa, em 2008, afetou diretamente o sistema financeiro, impactando a base do sistema capitalista, os bancos, que conferem fluidez ao sistema.
"O principal impacto, agora, é o seguinte: a Evergrande é uma das principais construtoras da China e é um país em que o mercado imobiliário tem grande peso na economia. O governo investiu dinheiro nisso, a empresa foi alavancada. E assim aconteceu com outras. O medo é que se acontecer com uma, possa acontecer com outras. E se as empresas quebram, o país para de construir e a compra de commodities diminui."
Ele pontua, contudo, que há uma série de eventos importantes em andamento na China, como troca no comando do poder, proximidade das Olimpíadas de Inverno, e que o governo deve intervir para que o país não seja palco de uma nova crise neste momento.
"Já anunciou a venda de imóveis, algumas tentativas de priorizar credores, entre outras ações. Mas não quer dizer que outros eventos semelhantes não possam acontecer porque não é a única empresa superalavancada. Hoje essas empresas conseguem manter um grau de endividamento alto porque o acesso a recurso é grande, se houver uma cautela maior em emprestar dinheiro, vamos viver uma situação mais complicada."
O economista e professor da Fucape Business School Felipe Storch Damasceno observa que as consequências dessa crise estão muito conectadas aos próximos passos do governo chinês. Uma eventual intervenção pode impedir o colapso de um negócio tão importante para a economia do país.
"De qualquer forma, vai haver repercussões na economia chinesa. Ela está com um estoque de minério muito grande, um estoque de aço muito grande, porque a economia já vinha desacelerando, e tende a reduzir a compra ainda mais. O preço do minério, que estava em US$ 200 em março, vem caindo bastante. Hoje está em cerca de US$ 85. Alguns falam que pode chegar a US$ 70. E como a Vale vende muito para a China, vai ter redução de receita. Com isso, deve fazer menos investimentos, o Estado pode sofrer algum impacto na arrecadação."
"Se essa crise não for contida, e tivermos uma disseminação disso em outras áreas, podemos esperar impactos não apenas no setor de minério, mas no setor de mármore e granito, papel, aço. Toda a atividade econômica que temos com a China, a tendência é reduzir, pois quando a atividade econômica diminui, as empresas também compram menos"
Para Durval Vieira de Freitas, da DVF Consultoria, os efeitos sobre as operações da Vale no Espírito Santo devem ser menores do que os observados no Brasil, embora não se deva desconsiderá-los.
"Temos que aguardar um pouco para ter certeza dos impactos. Mas boa parte do minério que vai para a China passa direto por aqui, não fica no Espírito Santo, é faturamento de outros Estados. Isso porque nós não exportamos minério, e sim pelotas, que têm maior mercado nos Estados Unidos e na Europa. As operações da Vale em Minas Gerais e no Pará devem ser mais afetadas."
"O minério caiu 42% nos últimos 30 dias e isso já acende um alerta, mas são várias questões envolvidas. E acredito que, em parte, estamos voltando ao preço observado antes da pandemia. Vivemos uma depressão (econômica), depois uma aceleração muito brusca. A descida agora não vai ser na profundidade de 2020, mas o minério deve estabilizar no patamar de US$ 120, observado no período pré-Covid
"
DEMANDA POR COMMODITIES DEVE CONTINUAR REDUZIDA, MESMO SE CRISE FOR CONTORNADA
Mesmo que o governo chinês intervenha para impedir o colapso da Evergrande, a demanda por commodities como o minério de ferro deve continuar reduzida, conforme observou a estrategista de ações da XP Jennie Li.
Ela aponta que o crescimento da China já vem desacelerando e isso está ligado a uma série de fatores. Um deles é a disseminação da variante Delta do coronavírus em algumas áreas do país, que tem levado à adoção de medidas de contenção da doença, como os lockdowns.
“Eles não admitem viver com a Covid como se fosse uma doença endêmica. Para eles, se há casos confirmados, vão fechar a cidade porque o objetivo é acabar com o vírus, e isso, invariavelmente, tem consequências grandes na economia.”
A especialista ressalta ainda que o próprio governo chinês vem indicando que não pretende fazer investimentos robustos em infraestrutura e importações, como vinha fazendo anteriormente. Agora, o plano é focar no mercado doméstico e, com isso, o crescimento tende a ocorrer de forma mais moderada, o que também impacta a demanda por commodities daqui para a frente.
“E há ainda outro caso também, que é interessante, e que afeta o minério de ferro especificamente, embora apenas temporariamente. O governo chinês tem implementado medidas de controle na produção de aço, que é extremamente poluente, para as Olimpíadas de Inverno de 2022. Com esse controle das siderúrgicas, há um efeito direto na demanda de minério de ferro. Isso deve continuar até o início do próximo ano.”