Temperaturas em queda, seca histórica e geadas. O ano de 2021 tem sido desafiador para o agronegócio e para a economia brasileira de um modo geral. O mundo todo, aliás, tem experimentado efeitos de mudanças drásticas no clima, aspectos que afetam diretamente a produção de alimentos.
No Brasil, a situação preocupa. Estiagem prolongada em alguns Estados, principalmente do Sul, causou redução assombrosa nos níveis de volume de água. A situação, no entanto, ficou mais intensa com a chegada do inverno, que neste ano se mostrou mais forte.
Entenda como as mudanças climáticas têm afetado o agro do ES
Em alguns Estados, inclusive no Espírito Santo, foi possível observar formação de cristais de gelo, as atípicas geadas, em determinados campos de produção de alimentos. Mas o território capixaba tem conseguido escapar pelo menos por enquanto dessas alterações.
Segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), até o momento, as ondas de frio ainda não provocaram situações meteorológicas com capacidade de gerar danos expressivos à produção rural capixaba. Apesar de alguns episódios de geada, as lavouras capixabas não foram fortemente afetadas.
De acordo com o coordenador de Meteorologia do Incaper, Hugo Ramos, as geadas podem ser classificadas de duas formas. Neste sentido, as que têm castigado plantações em Minas Gerais e São Paulo, por exemplo, são de maior intensidade e ainda não ocorreram no Espírito Santo.
“O que tem acontecido no Espírito Santo é a geada de menor intensidade. Já a geada mais forte, que congela a seiva das folhas e, consequentemente, mata a planta, vem ocorrendo no Triângulo Mineiro, na Serra da Mantiqueira e em São Paulo, causando a queda de produtividade”, analisa.
Na geada mais penosa a temperatura letal das plantas é atingida antes que haja a condensação do vapor d'água presente no ar. Ela acaba congelando a parte interna da planta e queimando-a de dentro para fora, tornando-a escurecida. O fenômeno ocorre em temperaturas muito baixas, geralmente menores do que 10 graus Celsius.
Já a geada mais fraca forma uma camada branca de gelo sobre as plantas. A condensação e o congelamento são menos severos.
Mesmo com as frentes frias ainda previstas para o Espírito Santo, não há possibilidade, ainda, de ocorrer a geada de forte intensidade, na visão de Ramos.
"Se a gente for pensar na ocorrência dessa geada, talvez aconteça em regiões que já não são áreas produtivas, como o Pico da Bandeira, mas lá a vegetação já é mais resistente e tem um mecanismo de proteção"
FRIO ATÍPICO?
Segundo Ramos, o frio sentido pelos capixabas neste ano não é atípico. Na avaliação dele, uma das características do inverno é o avanço de frentes frias e logo em seguida a penetração de massas de ar polares, o que gera a queda significativa das temperaturas.
“Entre 2014 e 2017, no período de seca, as temperaturas se mantiveram elevadas no inverno e não choveu tanto. Já em 2021, as frentes frias têm avançado”, frisa.
FRIO E GEADAS AFETAM MAIS A REGIÃO SERRANA E O CAPARAÓ
Na ocorrência de geadas de maior intensidade, a Região Serrana e o Caparaó são as mais afetadas, uma vez que estão em altitudes mais elevadas que outras áreas do Estado. Já no Norte, a temperatura cai, mas sem a ocorrência do fenômeno, na avaliação do coordenador de Produção Vegetal do Incaper, Luiz Fernando Favarato.
“A Região Norte, geralmente, não tem problemas. A temperatura não fica tão baixa a ponto de gerar geada. A posição e altitude em torno de 70 metros ou menos, a questão climática não permite. O que ocorre é queda de temperatura, chegando a 12ºC como mínima. Em regiões um pouco mais altas, como São Rafael, em Linhares, pode chegar a menos graus, mas sem geada”, salienta.
As temperaturas baixas, junto com alta umidade, ainda podem gerar outro prejuízo para as produções: o surgimento de fungos e de doenças. “É mais fácil acontecerem doenças do que a geada. É uma condição mais propícia e favorável para o surgimento de determinadas doenças”, pontua o coordenador.
PLANTAÇÕES MAIS AFETADAS
As culturas cultivadas nas áreas mais elevadas do Estado podem ser as mais prejudicadas, como o café e as hortaliças.
No caso do café, em algumas regiões, o arábica em fase de colheita pode ser comprometido. Se estiver em fase de crescimento, pode ter as folhas queimadas, e ter essa etapa prejudicada.
O conilon está começando a florescer, mas não deve ser muito impactado pelo frio e sim pela falta de água, caso não chova o necessário. “Se tiver perda no arábica, o preço do conilon é puxado para cima também”, avalia Favarato.
Já quanto as hortaliças, o coordenador explica que é difícil prever, porque é uma cultura de ciclo curto e plantio escalonado. Pode ser que no momento da geada seja perdida a produção a ser colhida nesta semana ou na próxima. Nesse caso, a perda pode ser total.
O QUE OS PRODUTORES PODEM FAZER
Na visão de Favarato, no caso das hortaliças, quanto maior o valor agregado, o ideal é que elas sejam cultivadas em ambiente protegido, como uma estufa ou o “sistema de guarda-chuvas”, uma cobertura de plástico.
Já para culturas perenes, como o café, o ideal é criar barreiras biológicas contra o vento, para tentar formar um microclima dentro da lavoura e diminuir o impacto das baixas temperaturas. Essas barreiras podem ser feitas com árvores, como eucalipto, ou capim, para evitar o vento da região Sul, que é muito danoso.